Cara-de-Barro | O terror corporal leva o DCU a um de seus filmes mais ousados

Cara-de-Barro transforma a origem de um dos vilões mais trágicos da DC em um intenso body horror que surpreende dentro do novo DCU.

Danilo de Oliveira
8 Min de Leitura
Warner Bros./Reprodução
4 Ótimo
Crítica - Cara-de-Barro

Desde que foi anunciado, Cara-de-Barro carregava um peso enorme. Em um momento em que o novo DCU de James Gunn e Peter Safran ainda busca consolidar sua identidade, apostar em um filme de terror protagonizado por um dos vilões mais peculiares do Batman parecia uma decisão arriscada. Afinal, depois de Superman e Supergirl, poucos imaginavam que o terceiro capítulo desse universo compartilhado mergulharia de cabeça no horror corporal, na tragédia psicológica e em uma narrativa muito mais próxima de David Cronenberg do que da fórmula tradicional dos filmes de super-heróis. O resultado mostra que talvez essa seja justamente a direção mais interessante para a DC nos cinemas: abandonar qualquer obrigação de repetir um modelo e permitir que cada personagem encontre seu próprio gênero.

A história acompanha Matt Hagen (Tom Rhys Harries), um astro de Hollywood cuja carreira parece alcançar seu auge após uma indicação ao Oscar. Jovem, carismático e dono de um rosto que se tornou seu maior patrimônio, ele vê tudo desmoronar quando se envolve com a mulher de um poderoso criminoso de Gotham. Desfigurado brutalmente e destruído publicamente por uma campanha de difamação, Matt aceita participar de um tratamento experimental desenvolvido pela cientista Caitlyn Corr (Naomi Ackie). A promessa é devolver sua aparência. O efeito, porém, vai muito além disso. Seu corpo passa a adquirir propriedades mutáveis, permitindo que ele copie qualquer rosto, qualquer identidade e qualquer pessoa. O dom que poderia representar uma segunda chance rapidamente se transforma em uma maldição, enquanto a busca por vingança consome os últimos resquícios de humanidade que ainda restavam.

Warner Bros./Reprodução

A grande qualidade de Cara-de-Barro está justamente em compreender que seu protagonista nunca deveria ser tratado como um herói incompreendido. O roteiro acompanha sua queda com empatia suficiente para entendermos sua dor, mas nunca tenta justificar completamente suas escolhas. Existe uma diferença importante entre compreender alguém e absolvê-lo, e o filme preserva essa linha durante praticamente toda a narrativa. Quanto mais Matt descobre suas novas capacidades, mais percebe que sua identidade se torna líquida, instável e facilmente manipulável. O homem que vivia da própria imagem passa a existir sem uma imagem definitiva.

Essa discussão sobre identidade funciona em diversos níveis. Existe o ator que interpreta personagens para sobreviver. Existe a celebridade cuja personalidade pública é construída para agradar ao mercado. Existe o homem que perde justamente o rosto que sustentava toda sua carreira. Quando Matt começa a assumir outras aparências, o filme levanta uma pergunta bastante interessante: depois de viver tantas versões diferentes de si mesmo, ainda sobra alguém por trás de todas elas? É um conflito que conversa tanto com a tradição do personagem nos quadrinhos quanto com uma indústria cinematográfica obcecada por juventude, aparência e perfeição.

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James Watkins conduz essa transformação com bastante segurança. Seu olhar claramente vem do cinema de horror, e isso aparece principalmente na maneira como trata o corpo do protagonista. As cenas envolvendo deformações, regenerações, falhas celulares e mutações evitam o excesso digital sempre que possível e apostam em maquiagem, próteses e efeitos físicos bastante convincentes. Não chega ao desconforto extremo de obras como A Mosca ou A Substância, mas produz imagens suficientemente grotescas para provocar reações viscerais sem transformar o espetáculo em mera exploração gráfica.

Visualmente, Gotham acompanha essa proposta. A cidade não tenta competir com versões estilizadas de Tim Burton nem com o realismo quase policial de Matt Reeves. Ela existe como um ambiente decadente, frio e impessoal, onde corrupção, fama e violência parecem coexistir naturalmente. É um cenário funcional para uma história cuja verdadeira prisão nunca foi a cidade, mas o próprio corpo do protagonista.

Grande parte desse sucesso passa pelo trabalho de Tom Rhys Harries. Sua atuação sustenta praticamente toda a produção. Antes da tragédia, transmite o charme discreto de uma estrela acostumada aos holofotes. Depois da mutilação, sua interpretação se torna quase inteiramente física, alternando dor, paranoia, desespero e uma crescente perda de controle. Conforme Matt abandona qualquer limite moral, Harries evita transformar o personagem em um simples monstro. Ainda existe sofrimento em seus olhos, mesmo quando suas ações já se tornaram indefensáveis.

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O restante do elenco também funciona bem dentro da proposta. Naomi Ackie entrega humanidade suficiente para que Caitlyn nunca pareça apenas a cientista responsável pelo desastre. David Dencik constrói um antagonista frio e ameaçador sem recorrer a exageros caricatos, enquanto Joana Ribeiro e Max Minghella cumprem funções importantes para movimentar a trama, ainda que alguns de seus conflitos acabem parecendo mais convencionais do que o restante da narrativa.

Apesar da ousadia, nem tudo funciona com a mesma força. O roteiro frequentemente apresenta ideias mais interessantes do que realmente desenvolve. O passado de Matt, suas ambiguidades morais anteriores ao acidente e sua relação familiar surgem como elementos promissores, mas permanecem relativamente superficiais. Em alguns momentos, fica a impressão de que havia um estudo psicológico ainda mais complexo escondido sob sucessivas revisões do roteiro.

O próprio terror também parece um pouco contido. Watkins demonstra talento para construir imagens memoráveis, mas frequentemente interrompe sequências que poderiam ir um pouco além tanto na violência quanto na exploração emocional do horror. Curiosamente, as melhores cenas aparecem justamente quando o filme deixa de lado qualquer preocupação em agradar ao grande público e abraça completamente sua natureza grotesca.

Mas isso não prejudica em nada o projeto. Cara-de-Barro consegue algo raro dentro das adaptações de quadrinhos atuais: encontrar uma identidade própria. Em vez de repetir a estrutura tradicional de origem de super-herói, utiliza elementos do horror corporal para construir uma tragédia sobre fama, aparência, vício, obsessão e perda da própria identidade. A transformação física do personagem nunca serve apenas como espetáculo; ela funciona como reflexo direto da deterioração psicológica de Matt Hagen.

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Se esse era um teste para descobrir até onde o novo DCU pode experimentar diferentes gêneros, a resposta é bastante animadora. Talvez Cara-de-Barro não explore todo o potencial filosófico de suas ideias nem alcance o impacto máximo que seu conceito permitiria. Ainda assim, é um filme corajoso, visualmente marcante e dramaticamente consistente, que demonstra como a DC pode se beneficiar ao tratar cada personagem como uma obra de gênero específica, e não apenas como mais uma peça de um grande universo compartilhado.

Pra finalizar, Cara-de-Barro não é apenas uma das maiores surpresas do ano. É também uma prova de que o novo DCU pode encontrar sua força justamente onde menos se espera: nas histórias menores, mais autorais e menos preocupadas em parecer um blockbuster tradicional. Para um universo que ainda busca sua identidade, dificilmente poderia existir um sinal mais promissor.

Crítica - Cara-de-Barro
Ótimo 4
Nota Cinesia 4 de 5
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