Street Fighter (2026) finalmente entrega a adaptação que os fãs da Capcom esperavam há décadas

Danilo de Oliveira
8 Min de Leitura
3.5 Muito Bom
Crítica - Street Fighter

Em 2026, insistir na ideia de que Hollywood não sabe adaptar videogames para o live-action já não faz mais sentido. Nos últimos anos, franquias como Sonic, Super Mario Bros.e o recente Resident Evil encontraram boas versões para o cinema, enquanto séries como The Last of Us e Fallout provaram que é possível transformar jogos em produções respeitadas tanto pela crítica quanto pelo público. Ainda assim, havia uma pedra no caminho dessa evolução: Street Fighter. A franquia da Capcom acumulava duas adaptações malsucedidas, a cultuada pelo exagero estrelada por Jean-Claude Van Damme em 1994 e o esquecível The Legend of Chun-Li, de 2009. Curiosamente, poucos meses depois da chegada de Mortal Kombat 2, chega aos cinemas uma terceira tentativa de colocar Ryu, Ken, Chun-Li e companhia nas telonas. E, pela primeira vez, Hollywood entende que adaptar Street Fighter não significa fugir de sua identidade, mas abraçá-la completamente.

Dirigido por Kitao Sakurai, o longa escolhe ambientar sua história em uma versão estilizada de 1993, claramente inspirada pela era de ouro de Street Fighter II. Após vencer o primeiro Torneio Mundial dos Guerreiros, Ryu desaparece do mapa carregando o peso da morte de seu mestre, Gouken. Enquanto isso, Ken transforma sua fama em um espetáculo midiático, tornando-se celebridade, garoto-propaganda e atração de eventos. O reencontro dos antigos amigos acontece quando M. Bison organiza um novo torneio, usando a competição como fachada para colocar em prática um plano envolvendo o poder sombrio de Ryu. Ao mesmo tempo, Chun-Li infiltra-se na disputa em busca de vingança pelo assassinato de seu pai, enquanto Akuma surge como uma ameaça ainda maior por trás dos bastidores.

Paramount Pictures/Reprodução

A maior qualidade do filme está em compreender exatamente o que Street Fighter representa para milhões de jogadores. Durante décadas, diversas adaptações tentaram transformar a série em algo excessivamente sério, realista ou “cinematográfico”. Sakurai segue o caminho oposto. Seu Street Fighter aceita o absurdo, a teatralidade e o exagero que sempre fizeram parte da franquia. Os golpes especiais existem, os personagens mantêm suas personalidades caricatas e o humor nunca tenta pedir desculpas por existir. O resultado é um filme que encontra equilíbrio entre a homenagem aos fliperamas dos anos 1990 e uma narrativa suficientemente sólida para sustentar duas horas de ação.

Essa decisão também fortalece o elenco. Andrew Koji entrega um Ryu extremamente convincente, transmitindo a serenidade de um guerreiro experiente sem abrir mão do conflito interno provocado pelo Satsui no Hado. Seu desempenho encontra um excelente contraponto em Noah Centineo, que interpreta um Ken carismático, impulsivo e emocionalmente mais vulnerável do que normalmente vemos nos jogos. A amizade rompida entre os dois se torna o verdadeiro coração da narrativa, funcionando como algo muito maior do que apenas uma desculpa para futuras lutas.

Paramount Pictures/Reprodução

Callina Liang também surpreende como Chun-Li. A personagem mantém sua determinação, habilidade e desejo de vingança sem cair em reduções estereotipadas. Ela participa ativamente da construção da trama e protagoniza algumas das melhores sequências de ação do filme. Já David Dastmalchian diverte como um M. Bison assumidamente extravagante. O vilão nunca busca profundidade psicológica excessiva, mas funciona justamente por compreender seu papel como um ditador megalomaníaco quase cartunesco. Sua presença domina a tela sem transformar o personagem em uma simples caricatura vazia.

Outro destaque é Andrew Schulz, que faz de Dan Hibiki um eficiente alívio cômico sem comprometer o ritmo da história. Mesmo sendo um personagem naturalmente absurdo, Dan encontra espaço para gerar boas risadas enquanto reforça o tom descontraído que permeia praticamente todo o longa.

As cenas de luta representam exatamente aquilo que os fãs esperavam. As coreografias respeitam os movimentos clássicos dos personagens, incorporando Hadoukens, Shoryukens e Spinning Bird Kicks de maneira orgânica dentro da linguagem cinematográfica. O filme evita transformar seus combates em simples demonstrações de efeitos digitais. Existe impacto físico, criatividade na utilização dos cenários e um cuidado evidente em traduzir para o cinema a dinâmica visual dos jogos.

Paramount Pictures/Reprodução

Visualmente, Street Fighter aposta em cores vibrantes, figurinos fiéis e uma direção de arte que transforma praticamente cada cenário em uma homenagem aos estágios clássicos dos games. Um dos recursos mais interessantes aparece nos flashbacks apresentados em animação. Além de dialogarem diretamente com o anime de Street Fighter II, essas sequências acrescentam personalidade estética e reforçam o carinho da produção pelo legado da franquia.

O roteiro também surpreende ao encontrar espaço para discutir temas que vão além do torneio em si. A história aborda amizade masculina, identidade, fama, manipulação política e autoritarismo sem abandonar o entretenimento. Bison representa uma figura movida pelo culto à personalidade e pelo desejo absoluto de controle, enquanto Ryu e Ken lidam com expectativas, culpa e amadurecimento. Nada disso torna Street Fighter um drama existencial, mas demonstra um cuidado raro em adaptações desse tipo.

Paramount Pictures/Reprodução

Nem tudo funciona perfeitamente. A principal fragilidade está no terceiro ato, claramente estruturado para preparar futuras continuações. Diversos conflitos permanecem em aberto, dando a sensação de que assistimos apenas ao primeiro capítulo de uma história maior. É uma estratégia cada vez mais comum em Hollywood, mas que prejudica a sensação de conclusão da obra. Alguns personagens muito queridos pelos fãs também acabam recebendo tempo de tela limitado, funcionando mais como preparação para os próximos filmes do que como participantes efetivos da narrativa atual.

Mesmo com essas limitações, Street Fighter realiza algo que parecia improvável durante décadas: finalmente entrega uma adaptação que respeita a essência da Capcom sem abrir mão da linguagem cinematográfica. O filme entende que não existe vergonha alguma em abraçar o lado exagerado da franquia e encontra justamente nessa decisão sua maior força. Entre coreografias inspiradas, um elenco extremamente comprometido, referências inteligentes e personagens tratados com respeito, Kitao Sakurai oferece não apenas o melhor Street Fighter já feito para o cinema, mas uma das adaptações de videogame mais divertidas dos últimos anos. Depois de três tentativas, a Capcom finalmente encontrou o golpe perfeito para vencer essa luta.

Crítica - Street Fighter
Muito Bom 3.5
Nota Cinesia 3.5 de 5
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