Os jogos de corrida sempre caminharam entre dois extremos. De um lado estão os simuladores que exigem precisão quase cirúrgica, obrigando o jogador a dominar frenagem, desgaste de pneus, telemetria e cada centímetro da pista. Do outro, os arcades apostam em acessibilidade, partidas rápidas e diversão imediata. Ambos possuem seu público, mas dificilmente uma franquia consegue atravessar essa linha sem despertar desconfiança. Foi exatamente esse desafio que a iRacing decidiu enfrentar.
Conhecida por oferecer um dos simuladores automobilísticos mais respeitados do mundo, utilizado inclusive por pilotos profissionais como ferramenta de treinamento, a empresa surpreendeu ao lançar iRacing Arcade. Em vez de reproduzir o rigor técnico que transformou a marca em referência, o novo título aposta em controles simplificados, partidas instantâneas e uma experiência pensada para quem nunca passou perto de um simulador.
O resultado é curioso. Em muitos momentos, funciona muito bem. Em outros, parece simplificar demais uma fórmula que poderia oferecer mais profundidade.
iRacing Arcade coloca o jogador para construir sua carreira no automobilismo participando de campeonatos inspirados em categorias reais, como Fiat 500, Formula Junior, Formula 4, Porsche, LMP2, GTP e Formula GP.
Ao vencer corridas, o piloto recebe dinheiro e experiência para expandir sua estrutura esportiva, desbloquear novas categorias e utilizar melhorias que oferecem vantagens durante as provas. A proposta não é reproduzir fielmente uma temporada do automobilismo profissional, mas criar uma progressão acessível que incentive o jogador a disputar corrida após corrida.
Sem histórias elaboradas ou personagens marcantes, o foco está totalmente na evolução dentro das pistas.
Jogabilidade
Simples ao extremo… e isso nem sempre é um defeito

O maior mérito de iRacing Arcade aparece logo nos primeiros minutos.
Poucos jogos conseguem colocar o jogador na pista tão rapidamente. Em menos de um minuto já é possível iniciar uma corrida, dispensando longos tutoriais ou menus complexos. Os comandos seguem a mesma filosofia. Acelerar, frear e virar. Só.
Na maior parte do tempo, sequer será necessário utilizar o freio. Basta aliviar o acelerador nas curvas para manter o controle do veículo, lembrando os clássicos jogos de corrida dos anos 1990 e início dos anos 2000.
Essa simplicidade faz do jogo uma excelente opção para crianças, jogadores casuais ou quem simplesmente deseja disputar algumas corridas rápidas após um dia de trabalho. Por outro lado, quem espera qualquer nível de profundidade vindo da marca iRacing provavelmente ficará frustrado.
Mesmo os sistemas de combustível e danos possuem impacto bastante reduzido, tornando a pilotagem muito permissiva. É possível tocar em adversários com frequência, cortar alguns trechos da pista dentro dos limites estabelecidos e ainda assim manter um bom desempenho.
Não chega a ser um problema, já que essa nunca foi a proposta do jogo. Ainda assim, fica a sensação de que existia espaço para oferecer um pouco mais de desafio sem perder a acessibilidade.
Modo Carreira
A melhor ideia do jogo também é sua maior vítima da repetição
O principal modo de iRacing Arcade é a Carreira. Nele, o jogador participa de temporadas compostas por diferentes categorias enquanto administra sua equipe. Conforme avança, ganha experiência, desbloqueia novos campeonatos e investe dinheiro na melhoria das instalações. Engenharia, oficina e base oferecem bônus que podem ser utilizados durante as corridas.
Existe até a possibilidade de contratar pilotos controlados pela inteligência artificial para disputar algumas provas automaticamente. É um sistema simples, mas que funciona bem durante as primeiras horas. O problema aparece quando o conteúdo começa a se repetir.
As temporadas seguem praticamente a mesma estrutura, as pistas retornam com frequência e a progressão perde parte do impacto após desbloquear as categorias principais. Quem pretende completar todos os objetivos disponíveis precisará investir cerca de vinte horas repetindo campeonatos bastante semelhantes.
Gráficos e direção de arte
Um visual modesto, mas cheio de personalidade

Em vez de buscar realismo, iRacing Arcade aposta em uma direção artística inspirada em miniaturas. Os carros parecem brinquedos cuidadosamente posicionados sobre pistas detalhadas, criando uma identidade visual bastante simpática. É um estilo que lembra outros trabalhos da Original Fire Games, especialmente Circuit Superstars, e funciona muito bem. Tecnicamente, o jogo também agrada.
Não impressiona pela quantidade de efeitos gráficos, mas entrega estabilidade, boa iluminação e cenários agradáveis durante toda a experiência. É aquele tipo de produção que entende suas limitações e prefere fazer o básico com competência.
Curiosamente, essa estética parece combinar ainda mais com consoles e portáteis. É fácil imaginar o jogo encontrando um público bastante receptivo em plataformas como o Nintendo Switch.
Conteúdo
A diversão existe… mas acaba chegando rápido
Talvez o maior problema de iRacing Arcade seja sua quantidade de conteúdo. Embora existam diferentes categorias de carros, o número de pistas e eventos não demora para revelar suas limitações. Depois de algumas horas, a sensação de repetição se torna inevitável. Os sistemas de melhorias também deixam a desejar.
Os chamados boosts oferecem vantagens temporárias durante as corridas, mas muitos deles simplesmente parecem mal aproveitados. Receber combustível extra em provas extremamente curtas, por exemplo, praticamente não faz diferença.
São ideias interessantes que precisariam de um melhor balanceamento para realmente impactar a estratégia do jogador.

Multiplayer
O ponto mais fraco da experiência
Se existe uma área onde iRacing Arcade realmente decepciona, ela atende pelo nome de multiplayer. O jogo oferece tela dividida para até quatro jogadores, recurso que merece elogios por valorizar partidas locais entre amigos. Já o modo online parece incompleto. Não há matchmaking público eficiente e as opções disponíveis se resumem à criação ou entrada em lobbies privados.
Para um jogo lançado em uma época em que a conectividade é um dos pilares das experiências multiplayer, trata-se de uma limitação difícil de ignorar. Principalmente quando falamos de uma marca conhecida justamente por sua comunidade competitiva.
Vale a pena jogar iRacing Arcade?
iRacing Arcade deixa claro desde o início que não pretende substituir o simulador que tornou a marca famosa. Seu objetivo é apresentar o universo das corridas para novos jogadores, oferecendo partidas rápidas, controles intuitivos e uma curva de aprendizado praticamente inexistente. Nesse aspecto, o jogo cumpre muito bem sua missão. Entretanto, essa mesma simplicidade impede que ele mantenha o interesse por muitas horas. A repetição aparece cedo, o multiplayer carece de recursos importantes e a progressão poderia ser significativamente mais envolvente.
Ainda assim, existe espaço para o título no mercado. Quem procura um jogo de corrida descomplicado para jogar casualmente encontrará uma experiência divertida, especialmente em sessões curtas ou ao lado de amigos. Já os fãs de simuladores dificilmente encontrarão aqui elementos suficientes para permanecer por muito tempo.
Veredito
iRacing Arcade entende perfeitamente seu público e entrega uma experiência leve, divertida e acessível. O problema é que ele simplifica tanto a fórmula que acaba sacrificando profundidade, variedade e longevidade. Como primeiro contato com o universo do automobilismo virtual, é uma boa opção. Como jogo para acompanhar por dezenas de horas, ainda falta potência para cruzar a linha de chegada entre os grandes nomes do gênero.
iRacing Arcade foi gentilmente cedido pela iRacing na versão para PS5 para a realização desta review.


