Antes de tudo, um aviso: se você cresceu nos anos 90, existe uma boa chance de Marsupilami desbloquear uma memória que estava guardada em algum cantinho da sua infância. Era uma época em que a televisão aberta reinava absoluta, quando passávamos as manhãs assistindo desenhos no SBT, na Globo ou na TV a cabo, descobrindo personagens que pareciam pertencer a um universo muito maior do que imaginávamos. Enquanto alguns viraram fenômenos mundiais, outros conquistaram uma legião de fãs justamente por serem diferentes, excêntricos e completamente malucos. O Marsupilami fazia parte desse grupo. Com seu pelo amarelo cheio de manchas pretas, sua cauda gigantesca e seu inconfundível “Houba!”, a criatura criada por André Franquin marcou uma geração. Agora, décadas depois, ela retorna aos cinemas em Marsupilami: Confusão a Bordo, uma adaptação que entende exatamente o que esse personagem representa: diversão despretensiosa.
A história é tão maluca quanto parece. David (Philippe Lacheau) aceita uma missão nada convencional para salvar o próprio emprego em um zoológico: transportar um misterioso pacote vindo da América do Sul. O problema é que esse pacote guarda um filhote de Marsupilami, que acaba sendo libertado durante uma viagem de cruzeiro graças ao atrapalhado Stéphane (Julien Arruti). Em poucos minutos, o navio inteiro vira palco de perseguições, acidentes, confusões e encontros improváveis, enquanto David tenta esconder a criatura ao mesmo tempo em que precisa lidar com sua ex-esposa, o filho e uma série de criminosos interessados no animal. É aquele tipo de sinopse que já deixa claro que a lógica resolveu tirar férias — e, sinceramente, isso faz parte da graça.

E eu confesso que faz tempo que uma comédia tão assumidamente boba me arrancava tantas risadas.
Philippe Lacheau dirige o longa sem qualquer preocupação em transformar Marsupilami: Confusão a Bordo em algo maior do que ele realmente precisa ser. O diretor entende que seu público não procura uma narrativa complexa nem grandes reflexões existenciais. O objetivo aqui é divertir, e isso acontece praticamente o tempo todo. A produção abraça o humor pastelão, o nonsense e as piadas físicas com uma sinceridade quase contagiante. Algumas funcionam melhor do que outras, é verdade, mas o ritmo acelerado impede que qualquer gag sem graça permaneça tempo suficiente para incomodar.
Existe um charme muito particular nessa comédia francesa justamente porque ela não tenta copiar o humor hollywoodiano. Há um certo exagero teatral nas interpretações, cortes secos que transformam momentos dramáticos em piadas completamente inesperadas e um senso de absurdo que lembra muito os desenhos animados dos anos 90. Em vários momentos fiquei com a sensação de estar assistindo a um episódio gigantesco daqueles programas que misturavam confusão, aventura e personagens completamente caricatos.
E falando em personagem…
O bebê Marsupilami simplesmente rouba o filme.

A criatura foi construída principalmente através de um animatrônico extremamente expressivo, complementado por CGI durante as sequências mais movimentadas. O resultado surpreende bastante. Em uma época em que praticamente tudo é feito por computação gráfica, existe algo muito especial em perceber que há uma presença física interagindo com os atores. Seus movimentos, suas expressões curiosas e principalmente a enorme cauda acabam se tornando uma máquina de criar situações engraçadas.
É impossível não lembrar de personagens como Gizmo, E.T. ou até Stitch durante algumas cenas. Não porque o filme copie essas obras, mas porque entende o poder que uma criatura adorável possui para aproximar diferentes gerações diante da tela.
Ao mesmo tempo, talvez esteja justamente aí a maior limitação do longa.

Apesar de levar seu nome no título, Marsupilami acaba funcionando quase como um coadjuvante dentro da própria história. Grande parte do roteiro gira em torno dos problemas familiares de David, do relacionamento com seu filho e das inúmeras confusões envolvendo os demais passageiros do navio. O bichinho aparece bastante, mas sempre dividindo espaço com vários personagens humanos. Em alguns momentos fiquei desejando que a produção tivesse coragem de colocá-lo definitivamente no centro da narrativa.
Ainda assim, funciona.
Muito disso acontece graças ao elenco, que compra completamente a proposta exagerada do filme. Philippe Lacheau conduz tudo como se estivesse brincando com amigos em um enorme parque de diversões cinematográfico. Jean Reno também entra na brincadeira interpretando um vilão quase cartunesco, daqueles que parecem saídos diretamente de um desenho animado, justamente porque o filme nunca tenta parecer realista.
Visualmente, a produção também surpreende. O navio oferece um excelente palco para o caos. Corredores apertados, cabines, restaurantes, piscinas e salões criam inúmeras possibilidades para perseguições e confusões, fazendo com que praticamente todo ambiente se transforme em uma grande arena para gags visuais. A direção aproveita muito bem esse espaço, utilizando referências divertidas a clássicos como Titanic, E.T. – O Extraterrestre e outros filmes da cultura pop, sem que isso pareça apenas fan service.

Por trás das piadas, existe uma mensagem bastante simples sobre família, segundas chances e reconciliação. Nada muito profundo, mas suficiente para dar algum peso emocional à aventura. O relacionamento entre David e seu filho acaba refletindo justamente aquilo que o Marsupilami representa durante toda a narrativa: a capacidade de despertar novamente a curiosidade, a empatia e aquela criança interior que muitos adultos acabam deixando para trás.
Talvez essa seja a maior qualidade do filme.
Em uma indústria cada vez mais preocupada em transformar tudo em franquias gigantes, universos compartilhados e histórias excessivamente complexas, Marsupilami: Confusão a Bordo prefere fazer algo muito mais simples: divertir durante pouco mais de uma hora e meia. Sem grandes pretensões, sem tentar reinventar o personagem e sem a obrigação de se levar a sério.
No fim das contas, saí da sessão com exatamente a mesma sensação que tinha quando assistia aos desenhos nas manhãs dos anos 90: um sorriso no rosto e aquela impressão gostosa de que, às vezes, uma boa aventura não precisa ser complicada para funcionar.
Marsupilami: Confusão a Bordo talvez não seja um grande marco do cinema familiar contemporâneo, mas entrega exatamente aquilo que promete. É uma comédia leve, caótica, nostálgica e extremamente simpática, que homenageia um personagem querido por quem cresceu nos anos 90 e ainda consegue apresentá-lo a uma nova geração. Se existe uma palavra para definir o filme, ela é diversão. E, sinceramente, às vezes isso é mais do que suficiente.


