O cinema brasileiro atravessa um momento raro de prestígio. A vitória de Ainda Estou Aqui no Oscar e a repercussão internacional conquistada por O Agente Secreto reafirmam que nossas histórias voltaram a ocupar um espaço de destaque dentro e fora do país. Mais do que reconhecimento, esse momento mostra que existe um interesse crescente por narrativas profundamente brasileiras, capazes de dialogar com qualquer público sem abrir mão de sua identidade. É justamente nesse cenário que chega Feito Pipa, um drama de Allan Deberton que confirma como o cinema nacional também pode encontrar grandeza na intimidade das pequenas histórias.
A trama acompanha Gugu (Yuri Gomes), um garoto de 11 anos criado pela avó Dilma (Teca Pereira) em uma pequena cidade do interior cearense. Criativo, sensível e apaixonado por dança, maquiagem e futebol, ele encontra na avó um espaço onde pode existir sem precisar esconder quem é. Mas essa rotina começa a ruir quando a saúde de Dilma se deteriora e o menino passa a conviver de forma mais intensa com o pai, Batista (Lázaro Ramos), um homem incapaz de compreender a personalidade do filho. Entre o amadurecimento precoce, o preconceito e o medo de perder o seu porto seguro, Gugu inicia uma jornada sobre pertencimento, amor e aceitação.
O grande mérito de Feito Pipa está na maneira como transforma conflitos delicados em uma experiência profundamente humana. Allan Deberton evita qualquer tentação de transformar seus personagens em arquétipos fáceis. Não há heróis impecáveis nem vilões absolutos. O filme entende que as relações familiares são construídas por afetos, frustrações, traumas e silêncios, permitindo que cada personagem exista com suas contradições.

Yuri Gomes entrega uma atuação impressionante. Sua naturalidade é tão desarmante que, em muitos momentos, desaparece qualquer sensação de estarmos assistindo a uma interpretação. Gugu nunca é definido apenas por sua orientação ou expressão de gênero. Antes de qualquer rótulo, ele é uma criança curiosa, engraçada, talentosa e cheia de imaginação. O roteiro faz questão de preservar essa infância, mesmo quando a vida insiste em acelerá-la.
Ao seu lado, Teca Pereira realiza um dos trabalhos mais emocionantes de sua carreira. Dilma é daquelas personagens que parecem ter saído da memória afetiva do espectador. Divertida, vaidosa, irreverente e dona de um carinho quase incondicional pelo neto, ela rapidamente conquista a plateia. Conforme sua saúde vai se deteriorando, a atriz conduz essa transformação com enorme sensibilidade, tornando impossível não lembrar das próprias avós ou de pessoas queridas que enfrentaram o mesmo processo.
Lázaro Ramos também merece destaque por fugir do caminho mais simples. Batista poderia facilmente ser reduzido ao pai intolerante que rejeita o filho. Felizmente, o roteiro opta por algo muito mais complexo. O personagem ama Gugu, mas não consegue romper com a masculinidade rígida que aprendeu durante toda a vida. Essa incapacidade de demonstrar afeto torna sua presença dolorosa, porém profundamente humana. Em vez de oferecer respostas fáceis, o filme convida o público a refletir sobre como o preconceito também aprisiona quem o reproduz.

Visualmente, Feito Pipa quebra uma tradição bastante recorrente nas produções ambientadas no sertão. Em vez de recorrer à fotografia desbotada que costuma associar o Nordeste exclusivamente ao sofrimento, Allan Deberton aposta em um universo vibrante, cheio de cores, brilhos e vida. Figurinos, direção de arte e fotografia transformam aquele cenário em um espaço de liberdade e imaginação, acompanhando o olhar de Gugu sobre o mundo. Existe uma beleza quase lúdica que aproxima o longa de obras como Marte Um e Pacarrete, sem jamais perder sua identidade própria.
O roteiro de André Araújo também impressiona pela delicadeza com que costura diferentes temas. A descoberta da identidade, o luto, a velhice, o Alzheimer, o preconceito, o deslocamento provocado pela construção de uma barragem e a dificuldade de comunicação entre gerações convivem de maneira orgânica. Nada parece inserido apenas para provocar emoção. Cada elemento amplia a sensação de que estamos acompanhando pessoas reais enfrentando problemas igualmente reais.

Nem tudo, porém, alcança o mesmo nível de excelência. Em alguns momentos, especialmente quando amplia sua discussão social envolvendo a comunidade e os impactos da barragem, o filme parece dividir sua atenção entre diferentes histórias sem aprofundar todas elas. São pequenos desvios que nunca comprometem a narrativa principal, mas deixam a impressão de que alguns temas poderiam ter recebido desenvolvimento maior.
Ainda assim, essas pequenas limitações desaparecem diante da força emocional da obra. O humor surge nos momentos certos, impedindo que o drama se torne excessivamente pesado, enquanto a montagem encontra um ritmo delicado entre contemplação e emoção. O resultado é um filme que emociona sem manipular o público e que encontra beleza justamente na simplicidade dos gestos cotidianos.
Feito Pipa é um daqueles raros filmes capazes de abraçar o espectador. É uma história sobre crescer antes da hora, aprender a cuidar de quem sempre cuidou de você e descobrir que ser diferente nunca deveria ser motivo para esconder o próprio brilho. Em um momento em que o cinema brasileiro vive uma fase histórica de reconhecimento mundial, Allan Deberton entrega uma obra que reforça o quanto nossas melhores histórias continuam nascendo das experiências mais íntimas. Delicado, emocionante e profundamente humano, Feito Pipa não apenas merece ser visto: merece ser lembrado.


