Assalto à Brasileira transforma um dos crimes mais inacreditáveis do país em um thriller cheio de identidade

Assalto à Brasileira revisita um dos crimes mais marcantes do Brasil com suspense, humor e um grande elenco liderado por Murilo Benício.

Danilo de Oliveira
8 Min de Leitura
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4 Ótimo
Crítica - Assalto à Brasileira

O cinema brasileiro sempre encontrou nas próprias páginas da história um terreno fértil para contar grandes histórias. Das biografias aos dramas políticos, passando por crimes que marcaram gerações, nossa realidade frequentemente supera qualquer exercício de ficção. Talvez por isso alguns acontecimentos pareçam inevitáveis de chegar às telas. O assalto ao Banestado, ocorrido em Londrina em 1987 e responsável pelo maior número de reféns da história do país, é um desses casos. Demorou décadas para ganhar uma adaptação cinematográfica, mas Assalto à Brasileira demonstra que ainda havia muito a ser explorado naquele episódio que misturou tensão, improviso, caos e um retrato bastante particular do Brasil dos anos 1980.

A história acompanha Paulo (Murilo Benício), um jornalista recém-demitido que vai até uma agência bancária apenas para sacar o dinheiro de sua rescisão. O que parecia mais um dia frustrante rapidamente se transforma em um pesadelo quando sete criminosos liderados por Moreno (Christian Malheiros) invadem o banco e fazem centenas de pessoas reféns. Enquanto a polícia tenta compreender uma situação inédita, jornalistas, curiosos e autoridades acompanham do lado de fora um acontecimento que rapidamente se transforma em um espetáculo nacional. Entre negociações improvisadas, decisões desesperadas e personagens presos dentro do banco, o filme utiliza um dos episódios policiais mais curiosos do país para construir uma narrativa que oscila entre o suspense e o humor.

José Eduardo Belmonte evita transformar a produção em um thriller policial convencional. Em vez de concentrar toda a atenção sobre os criminosos, escolhe acompanhar a situação pelos olhos de um homem comum que acaba preso no centro dos acontecimentos. Essa decisão aproxima o espectador da história e torna Paulo uma espécie de ponte entre o público e o absurdo que se desenrola dentro da agência. O personagem funciona como observador, participante e, em determinados momentos, até negociador, oferecendo um olhar menos previsível sobre um caso amplamente conhecido.

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Murilo Benício entrega uma das melhores atuações recentes de sua carreira. Seu Paulo transita com naturalidade entre o sarcasmo, o medo e a esperteza, construindo um protagonista extremamente humano. Existe um carisma quase espontâneo em sua interpretação, permitindo que mesmo as situações mais tensas sejam atravessadas por momentos de humor sem comprometer a credibilidade da narrativa. É uma atuação segura, madura e que demonstra por que Benício continua sendo um dos atores mais versáteis do cinema nacional.

Christian Malheiros também merece destaque como Moreno. Conhecido por papéis intensos, o ator constrói um líder que está longe da figura clássica do criminoso frio e calculista. Seu personagem demonstra insegurança, improvisa constantemente e percebe, pouco a pouco, que perdeu completamente o controle da situação. Essa fragilidade torna o grupo de assaltantes mais interessante justamente porque evidencia que eles jamais estiveram preparados para lidar com as consequências do próprio plano.

Aliás, talvez esse seja um dos aspectos mais curiosos do longa. Em muitos momentos, a quadrilha funciona quase como uma tragicomédia. As interações entre os criminosos lembram uma reunião de figuras completamente incompatíveis tentando administrar uma situação impossível. É justamente nesse equilíbrio entre tensão e absurdo que Assalto à Brasileira encontra personalidade própria. Algumas situações parecem exageradas demais para serem verdade, mas a produção frequentemente nos lembra que muitos daqueles acontecimentos realmente ocorreram durante o episódio original.

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Essa escolha estabelece uma interessante analogia com o próprio Brasil dos anos 1980. Em meio à hiperinflação, às incertezas econômicas e ao descrédito das instituições, o assalto deixa de ser apenas um crime para representar um país funcionando no improviso. Os criminosos parecem tão perdidos quanto a polícia, enquanto a população acompanha tudo quase como um grande espetáculo. O caos vira entretenimento, e o improvável passa a fazer parte da rotina nacional. Nesse sentido, Belmonte utiliza o episódio como uma fotografia de um período marcado pela instabilidade social e econômica.

Tecnicamente, o filme também convence. A direção de arte recria com riqueza de detalhes a atmosfera do final dos anos 1980, desde os figurinos até a ambientação da redação do jornal e da agência bancária. A fotografia aproveita bem o espaço limitado do banco, explorando a sensação de confinamento sem tornar a narrativa visualmente repetitiva. Mesmo concentrando boa parte da história em um único ambiente, o longa mantém dinamismo suficiente para que a tensão nunca desapareça.

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A montagem acompanha esse ritmo, alternando os acontecimentos dentro do banco com o que ocorre do lado de fora sem perder fluidez. A sensação constante é de que todos improvisam, sejam policiais, jornalistas ou criminosos, reforçando o clima de imprevisibilidade que domina toda a narrativa.

O principal ponto de ressalva talvez esteja justamente na indecisão tonal da direção. Em alguns momentos, o filme parece querer assumir definitivamente a identidade de um thriller policial. Em outros, abraça uma comédia de costumes bastante brasileira. Embora essa mistura funcione em diversas sequências, há ocasiões em que a mudança de tom acontece de forma brusca, diminuindo parte da tensão construída anteriormente. A trilha sonora também poderia participar mais ativamente da narrativa, explorando melhor o contexto musical da época para intensificar tanto os momentos dramáticos quanto os cômicos.

Alguns personagens secundários igualmente acabam recebendo pouco desenvolvimento. Com um elenco numeroso e talentoso, certas figuras aparecem apenas para cumprir funções específicas dentro da história, deixando a impressão de que havia espaço para aprofundar algumas relações e conflitos.

Pra finalizar, Assalto à Brasileira consegue transformar um dos acontecimentos policiais mais curiosos da história recente do país em um filme envolvente, divertido e surpreendentemente humano. Sem romantizar seus criminosos nem transformar o episódio em um espetáculo vazio, José Eduardo Belmonte constrói um retrato bastante brasileiro de um momento em que realidade e absurdo caminharam lado a lado. Liderado por uma grande atuação de Murilo Benício, o longa funciona tanto como entretenimento quanto como resgate histórico, provando que algumas das histórias mais inacreditáveis do nosso cinema continuam escondidas nas páginas da própria história do Brasil.

Crítica - Assalto à Brasileira
Ótimo 4
Nota Cinesia 4 de 5
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