Nos últimos anos, o mercado literário descobriu que falar com o público jovem vai muito além de romances escolares ou triângulos amorosos. Livros voltados para adolescentes passaram a discutir ansiedade, identidade, saúde mental, sexualidade, pertencimento e luto com uma honestidade que durante muito tempo esteve ausente das grandes produções. Naturalmente, o cinema começou a acompanhar esse movimento. Adaptações de obras Young Adult deixaram de tratar seus protagonistas como versões simplificadas dos adultos para enxergá-los como pessoas atravessadas por conflitos igualmente complexos. Baseado no livro de Fernanda de Castro Lima, As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você entende perfeitamente essa mudança e entrega um dos dramas juvenis brasileiros mais sensíveis dos últimos anos.
A trama acompanha Gabi (Any Gabrielly) , uma adolescente introspectiva que sempre encontrou na melhor amiga, Julia (Giulia Be), a coragem que lhe faltava para enfrentar o mundo. Enquanto uma vive intensamente cada oportunidade, a outra prefere observar tudo de longe, protegida pelas próprias inseguranças. A dinâmica entre as duas muda de forma devastadora quando Julia morre em um acidente de carro. Incapaz de lidar com a perda, Gabi passa a sobreviver apenas por inércia até receber da mãe da amiga uma caixa contendo dez cartas deixadas por Julia antes de morrer. Cada uma traz um desafio diferente, pensado para obrigar Gabi a abandonar o medo, experimentar novas experiências e, principalmente, voltar a viver.

Embora a premissa possa lembrar diversos romances sobre luto produzidos nos últimos anos, o longa encontra personalidade justamente na maneira como transforma essas cartas em etapas emocionais de um processo de reconstrução. Os desafios não funcionam apenas como uma lista de tarefas, mas como pequenas sessões de terapia disfarçadas de aventuras adolescentes. Cada experiência obriga Gabi a confrontar inseguranças que já existiam muito antes da morte da amiga, mostrando que o verdadeiro conflito nunca foi apenas superar o luto, mas aprender quem ela é sem depender de alguém para lhe mostrar esse caminho.
Diego Freitas conduz essa jornada com enorme sensibilidade. Em vez de transformar a dor em espetáculo, o diretor prefere observar seus personagens com calma, permitindo que silêncios, olhares e pequenos gestos tenham tanto peso quanto os momentos de maior carga dramática. Há uma compreensão muito clara do ritmo emocional da protagonista. O filme sabe quando acelerar, mas principalmente sabe quando simplesmente permitir que a dor exista sem precisar explicá-la.
Boa parte dessa força nasce da atuação de Any Gabrielly. Em sua estreia em um papel de protagonista no cinema, ela entrega uma interpretação surpreendentemente madura. Sua Gabi nunca se torna excessivamente melodramática, tampouco distante. O sofrimento aparece de maneira contida, quase silenciosa, refletindo perfeitamente alguém que perdeu a principal referência emocional da própria vida e ainda não encontrou palavras para lidar com isso.

Ao seu lado, Giulia Be constrói uma Julia extremamente carismática. Mesmo tendo presença física limitada por causa da própria narrativa, sua personagem permanece viva durante todo o filme graças aos flashbacks, às cartas e, principalmente, ao impacto que continua exercendo sobre todos ao redor. A amizade entre as duas convence justamente porque nunca parece idealizada. Existe carinho, cumplicidade, pequenas divergências e uma naturalidade que faz o vazio deixado pela ausência de Julia ser sentido também pelo espectador.
O elenco de apoio também contribui para essa sensação de acolhimento. Daniel Rangel conquista facilmente o público com um personagem que evita cair no arquétipo do interesse romântico perfeito, enquanto nomes como Sheron Menezzes, Regiane Alves, Leo Jaime e Pâmela Germano ajudam a construir um universo onde cada adulto tenta lidar com a perda de maneira diferente, reforçando que o luto nunca pertence apenas a uma pessoa.
Visualmente, o filme também chama atenção. Diego Freitas se distancia de parte da estética tradicional do drama brasileiro e aposta em uma fotografia mais luminosa, cores vivas e uma linguagem próxima do cinema jovem internacional, sem perder sua identidade nacional. A montagem conduz bem as passagens entre presente e passado, permitindo que as lembranças de Julia apareçam como parte orgânica da narrativa, nunca como simples recurso para arrancar emoção.
A trilha sonora merece um destaque especial. Em vez de recorrer apenas a sucessos conhecidos para provocar nostalgia, o filme constrói uma identidade musical própria que acompanha o crescimento emocional da protagonista. A música nunca manipula artificialmente os sentimentos do público; ela apenas amplia aquilo que as cenas já conseguem transmitir.

Nem todos os desafios propostos pelas cartas possuem o mesmo impacto dramático. Alguns funcionam melhor do que outros e há momentos em que a estrutura episódica deixa a narrativa levemente previsível. O roteiro também recorre ocasionalmente a soluções bastante familiares dentro do gênero Young Adult, principalmente quando introduz determinados conflitos amorosos ou aproxima alguns personagens por conveniência narrativa.
Ainda assim, essas pequenas limitações não comprometem a experiência. O mérito do roteiro está justamente em compreender seu público. As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você nunca trata adolescentes como pessoas incapazes de lidar com temas difíceis. Pelo contrário. O filme aborda culpa, medo, insegurança, solidão e saúde emocional com respeito, sem recorrer a discursos moralistas nem oferecer respostas fáceis.
Existe ainda uma leitura interessante sobre memória. Julia continua presente durante todo o filme, mas não como um fantasma preso ao passado. Ela permanece viva através das mudanças que provoca em quem ficou. É uma maneira delicada de discutir como seguimos convivendo com quem perdemos, não pela presença física, mas pelas marcas que essas pessoas deixaram em nossa formação.
Pra finalizar, As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você consegue aquilo que muitos dramas juvenis tentam e poucos alcançam: emocionar sem manipular. Sua força não está apenas nas lágrimas que provoca, mas na honestidade com que retrata o processo de amadurecimento de alguém que precisa aprender a seguir em frente sem abandonar as lembranças que construíram quem ela é. É um filme sobre amizade, luto e crescimento que conversa diretamente com adolescentes, mas encontra espaço suficiente para tocar qualquer espectador disposto a lembrar como era descobrir, pela primeira vez, que viver também significa aprender a lidar com as perdas.


