Há filmes que são lembrados apenas pelo que acontece na tela. Outros entram para a história pelo caminho turbulento até chegarem ao público. Coyote vs. Acme pertence aos dois grupos. O longa dirigido por Dave Green (As Tartarugas Ninja: Fora das Sombras) quase se tornou um símbolo da fase mais controversa da Warner Bros. Discovery, sendo engavetado mesmo completamente finalizado para servir como abatimento fiscal. O projeto parecia condenado a jamais encontrar uma audiência, transformando anos de trabalho de centenas de artistas em uma simples linha de planilha.
O que aconteceu depois parece roteiro de cinema. A mobilização de fãs, profissionais da indústria e nomes importantes de Hollywood impediu que o filme desaparecesse. Após uma longa negociação, a produção acabou adquirida pela Ketchup Entertainment e finalmente chegou aos cinemas. A ironia é irresistível: um filme sobre uma pequena figura enfrentando uma corporação gigantesca acabou vivendo exatamente a mesma batalha nos bastidores.
E talvez seja justamente por carregar esse peso fora das telas que Coyote vs. Acme consiga emocionar ainda mais quando finalmente começa.

A trama parte de uma ideia tão simples quanto genial. Depois de décadas sendo esmagado por bigornas, explodido por dinamites defeituosas e fracassando em todas as tentativas de capturar o Papa-Léguas, Wile E. Coyote decide fazer aquilo que ninguém imaginava: processar a ACME, fabricante de praticamente todos os produtos responsáveis por seus acidentes.
Para isso, ele contrata Kevin Avery (Will Forte), um advogado desacreditado que enxerga naquele caso improvável a oportunidade de reconstruir sua carreira. O que parecia uma pequena ação judicial rapidamente se transforma em um dos maiores processos da história dos Estados Unidos, colocando uma das maiores corporações do país diante de um julgamento que pode mudar completamente a relação entre humanos e personagens animados.
A premissa poderia facilmente virar apenas uma sequência de piadas nostálgicas, mas o roteiro de Samy Burch, baseado em uma ideia desenvolvida também por James Gunn, entende perfeitamente a essência dos Looney Tunes. O humor físico permanece intacto, os gags visuais continuam brilhantes e o caos cartunesco nunca perde espaço. Ao mesmo tempo, existe uma surpreendente maturidade ao transformar uma disputa judicial em uma sátira sobre grandes conglomerados, exploração de propriedade intelectual e a forma como empresas frequentemente descartam criatividade em nome de decisões financeiras.

É impossível assistir ao filme sem perceber que a crítica direcionada à ACME também conversa diretamente com a própria Warner Bros., responsável por quase condenar essa produção ao esquecimento. A metáfora nunca soa forçada; pelo contrário, torna tudo ainda mais inteligente.
Mas o maior mérito de Coyote vs. Acme é lembrar por que esses personagens atravessaram gerações. Existe um carinho evidente pelo legado criado por Chuck Jones, respeitando cada detalhe da personalidade do Coyote. Mesmo praticamente sem falas — comunicando-se principalmente por expressões e suas tradicionais placas — o personagem transmite frustração, esperança, determinação e vulnerabilidade de forma incrivelmente humana.
Ao revisitar décadas de perseguições ao Papa-Léguas, o roteiro também encontra espaço para aprofundar uma relação que sempre existiu apenas através da repetição das gags. Pela primeira vez, entende-se melhor o que realmente move o Coyote além da obsessão pela caça. O resultado transforma um personagem historicamente silencioso em um protagonista surpreendentemente emocional.
Will Forte funciona como a âncora humana da narrativa. Seu Kevin é exatamente o tipo de azarado simpático que consegue acompanhar a energia caótica dos desenhos sem parecer deslocado. A química entre ator e personagem animado convence durante todo o filme, fazendo com que a amizade construída entre ambos se torne o verdadeiro coração da história.
Lana Condor, por outro lado, entrega uma atuação correta, mas raramente encontra o mesmo ritmo cômico do restante do elenco. Sua personagem cumpre função importante na narrativa, embora nem sempre consiga acompanhar o tom maluco que o filme exige.

Já John Cena interpreta Buddy Crane, advogado da ACME, com a seriedade exagerada que se tornou uma de suas marcas na comédia. Embora algumas de suas cenas funcionem muito bem justamente pelo contraste entre sua postura e o absurdo da situação, há momentos em que sua performance parece pertencer a um filme diferente, destoando levemente do equilíbrio encontrado pelo restante da produção.
Visualmente, Dave Green demonstra enorme respeito pela linguagem clássica dos Looney Tunes. Os personagens animados convivem naturalmente com atores reais, evocando inevitavelmente comparações com Uma Cilada para Roger Rabbit e, em menor escala, Tico e Teco: Defensores da Lei. O diretor entende que boa parte do humor desses personagens continua funcionando graças ao timing visual, ao silêncio e ao absurdo físico, sem depender de diálogos excessivos ou referências modernas a todo instante.
Nem tudo, porém, funciona perfeitamente. Alguns efeitos visuais apresentam acabamento irregular, principalmente em determinadas interações entre humanos e animação. A montagem também perde um pouco de ritmo em alguns trechos do segundo ato, quando o julgamento desacelera para desenvolver conflitos paralelos. São problemas pequenos, mas perceptíveis em uma produção que, no restante, demonstra enorme cuidado técnico.

Ainda assim, seria injusto reduzir Coyote vs. Acme às suas imperfeições. O filme conquista justamente porque possui algo cada vez mais raro em grandes produções de estúdio: personalidade. Ele diverte crianças, emociona adultos que cresceram acompanhando os Looney Tunes e ainda encontra espaço para provocar reflexões sobre criatividade, preservação artística e o tratamento dado às propriedades intelectuais na indústria do entretenimento.
Mais do que resgatar personagens clássicos, o longa prova que eles jamais ficaram ultrapassados. O problema nunca foi a falta de interesse do público, mas a ausência de projetos que compreendessem por que esses personagens continuam relevantes.
Pra finalizar, Coyote vs. Acme talvez não seja apenas uma das comédias mais divertidas de 2026. É também um símbolo de resistência criativa. Um filme que quase deixou de existir, mas que encontrou sua própria forma de vencer uma grande corporação — exatamente como seu protagonista tenta fazer durante toda a história.
Se Uma Cilada para Roger Rabbit redefiniu o encontro entre animação e live-action nos anos 1980 e Space Jam apresentou os Looney Tunes para uma nova geração nos anos 1990, Coyote vs. Acme faz algo igualmente importante: lembra ao público — e principalmente aos estúdios — que esses personagens ainda têm muito a dizer.
No fim, o verdadeiro milagre não é imaginar o dia em que o Coyote finalmente capturará o Papa-Léguas. O verdadeiro milagre é que este filme tenha sobrevivido para chegar aos cinemas. E, felizmente, valeu cada segundo da espera.


