Entrevista | Jorge Furtado fala sobre seu novo filme “Muito Prazer”

Priscila Dórea
10 Min de Leitura
Fábio Rebelo | Divulgação

Personagens humanos, dilemas reais, questões contemporâneas e muito humor embalam Muito Prazer, nova comédia de Jorge Furtado, que retorna ao gênero nos cinemas após quase 20 anos desde o lançamento do celebrado Saneamento Básico, O Filme. Com estreia marcada para 27 de agosto nos cinemas de todo o Brasil, o longa traz o reencontro de Luisa Arraes (Grande Sertão, 2024) e Daniel de Oliveira (Cazuza, 2004) com o cineasta, além de marcar sua primeira parceria com Samantha Jones (Renascer, 2024), que completa o trio de protagonistas. Juntos, eles dão vida a um trio de jovens adultos sem muita perspectiva de futuro, que se une para salvar um motel desativado de forma nada convencional: filmar os clientes do motel, modificar seus rostos e divulgar os vídeos em sites de videos adultos para lucrar com a monetização do material.

Confira a entrevista com o diretor Jorge Furtado sobre o filme:

Quando surgiu a primeira semente de “Muito Prazer”?

 Tem duas coisas que eu juntei: uma foi a pornografia crescente na internet. Era óbvio, quando a internet se tornou rápida, pessoal e com imagem, com filme, que a pornografia ia crescer enormemente, como cresceu quando o VHS apareceu. Sempre houve uma parte da indústria audiovisual ocupada pelo erotismo e pela pornografia.

Então isso ia acontecer e aconteceu como se previa. Mas as classificações dos desejos humanos, assim, através do algoritmo, me pareceram uma comédia. Acho que devem ser temas muito sérios. Os sites pornográficos são mais visitados que o Instagram e o WhatsApp. Então o que as pessoas querem ver? Como e quando? O que dá prazer ou não? Isso pode ser verificado claramente nesses sites. Então, é uma fonte de conhecimento do que há na alma humana, que a gente precisa investigar e que a comédia pode se valer disso claramente. É muito engraçado também, como quase tudo que os seres humanos fazem.

Outra coisa que foi o ponto de partida para esse projeto é a história do Van Meegeren, um falsário holandês que foi preso por vender um tesouro nacional aos nazistas. Ele vendeu um Vermeer aos nazistas e, quando acabou a guerra, foi preso como traidor da pátria e condenado à morte. Ele teve que dizer que o Vermeer era falso, que ele falsificou a obra. Ninguém acreditou, e ele precisou pintar o Vermeer na frente do júri, para as pessoas acreditarem que era ele que tinha feito aquele quadro. Era um gênio como falsário. E aí foi condenado apenas à prisão. Essa história me deu a ideia de uma parte importante do filme.

Como vocês encontraram o motel onde o filme foi gravado? O espaço parece um personagem da história. O que vocês buscavam na locação e como ela ajudou a construir o universo do filme?

O Motel Pérola é o personagem fundador da história, quando Rubem herda o motel é que a história começa. E o motel é uma construção arquitetônica muito curiosa porque ela é feita para transar, é uma arquitetura para o sexo, que é um dos assuntos principais do filme: o sexo e amor. Para o filme, nós procuramos um motel decadente. A produção, comandada pela Nora Goulart, começou a procurar motéis perto de Porto Alegre, e a gente viu muitos. Eles encontraram esse, fotografaram e me mostraram e eu decidi imediatamente.

A locação foi uma paixão à primeira vista para mim. Desde o primeiro momento em que vi, eu disse: “é esse o lugar”, por vários motivos. Ele era um motel bastante decadente, quase fechado, que é o que precisávamos, e estava só com uma parte funcionando. Chama-se Motel Skylab e ele tinha uma coisa que o roteiro trazia, isso para mim foi fundamental, que é o seguinte: eu escrevi uma história, onde a Grace morava num quarto no fundo motel, que ela transformou numa casa bacana. Naquele motel cheio de fetiches e suítes gregas, romanas e venezianas, havia uma casa humana, verdadeira, um espaço que é fruto do sentimento de uma pessoa, uma anti-inteligência artificial, uma inteligência natural, que a Grace tem.

Em determinado momento, Grace diz: “É brincando que a gente diz as maiores verdades”. Essa frase parece resumir bastante o espírito do filme. Ela também traduz a sua maneira de escrever?

Sim, é brincando que se diz as maiores verdades. Se os humoristas tivessem uma bandeira — espero que não tenham —, teria esse dístico: “Brincando, a gente diz a verdade”. Quem diz a verdade é o bobo, só ele que diz a verdade ao rei, como em “Rei Lear”. Enfim, o humorista tem essa função. E sobre o sexo, que é essa comédia, a gente está dizendo um monte de verdades junto do humor. Então a comédia entretém e diverte, mas também ensina.

Muito Prazer trabalha o tempo todo na fronteira entre o riso e a crítica. Como você construiu esse equilíbrio?

A comédia é sempre crítica, sempre aponta defeitos. Essa é a função principal, talvez, da comédia. Quando você faz uma caricatura de uma pessoa que tem o nariz grande, você faz o nariz enorme, aumenta o defeito, né? E qual é a função disso? Sublinhar o defeito. Rindo, corrige-se os costumes. Ridendo castigat mores. Quando fazemos a comédia e a piada, estamos criticando. Quando fazemos piada sobre política e costumes, estamos tentando assinalar um erro. Então, ela é sempre crítica.

A comédia também é sempre política porque fala de coisas públicas de todos. Tudo pode ser engraçado, tudo pode ser contado de uma maneira trágica ou cômica. A comédia e a tragédia falam dos mesmos assuntos, só que de maneiras diferentes. Tem assuntos mais difíceis de abordar na comédia ou no drama? Sim. Tem assuntos muito difíceis de fazer comédia também. Mas quase tudo dá para fazer humor.

No caso desse filme, a vítima do humor são os algoritmos, que tentam classificar as pessoas e tentam classificar, nos sites eróticos, as preferências sexuais, por exemplo – como os motéis tentam classificar as preferências sexuais e as fantasias na sua arquitetura e nos seus quartos.

O filme brinca com situações absurdas, mas também evidencia a facilidade de fazer dinheiro com pornografia e gravações sem consentimento. Em que momento essa questão deixou de ser apenas um elemento da ficção para se tornar uma preocupação que você quis discutir?

O que esses personagens estão fazendo é um crime grave, eles podem ser presos, punidos severamente – talvez devessem – e poderiam ter prejudicado muito a vida de alguém. Se o filme fosse um drama, um vídeo pornográfico revelado sem consentimento, em que a pessoa é identificada, poderia causar a morte de alguém, então, é um crime bastante grave, punido severamente, felizmente. Na nossa comédia, eles tomam todos os cuidados para não prejudicar ninguém, falam disso várias vezes porque, na verdade, estão substituindo o rosto das pessoas, escondendo e tentando proteger. Eles têm uma preocupação de não prejudicar ninguém e estão a todo momento testando o limite que eles sabem que estão transgredindo. Eles sabem que estão cometendo crimes.

Os personagens fazem coisas inadmissíveis. Devem fazer, fazem por nós. A gente não precisa fazer, eles fazem. Então, eu não os julgo. Eles fazem o que precisa ser feito para a história deles, e servem como uma história para pensarmos o que faríamos no lugar deles. Eu não faria nada do que eles fizeram, Deus me livre, de jeito nenhum, nunca, nada. Mas eu não não julgo o que eles fazem, torço por eles, espero que o público torça por eles.

 

Muito Prazer estreia nesta quinta-feira, 27 de agosto nos cinemas. Confira a crítica aqui

 

 

 

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Jornalista e potterhead para toda eternidade, tem um amor nada secreto por mangás e picos de felicidade com livros em terceira pessoa. Além de colaboradora no Cinesia Geek, é repórter do Grupo A Tarde.