A Disney definitivamente encontrou nos remakes live-action uma mina de ouro. Entre adaptações que reinventaram seus clássicos e outras que apenas reproduziram o material original, o estúdio segue apostando na nostalgia como combustível para lotar salas de cinema. Depois do enorme sucesso de O Rei Leão, A Bela e a Fera e Aladdin, chegou a vez de Moana, um dos maiores fenômenos modernos da empresa, ganhar sua versão com atores. E convenhamos: não é difícil entender essa escolha. A animação de 2016 conquistou uma legião de fãs, tornou suas músicas um verdadeiro fenômeno cultural e ainda ganhou um impulso gigantesco após o sucesso bilionário de Moana 2. Era praticamente inevitável que a Disney colocasse essa aventura novamente no mapa — desta vez com pessoas de verdade, muito CGI e o carisma inabalável de Dwayne Johnson.
A história continua exatamente aquela que conquistou o público há quase uma década. Moana é uma jovem destinada a liderar seu povo na ilha de Motunui, mas sente desde pequena que existe algo além do horizonte chamando por ela. Quando uma antiga escuridão ameaça consumir os mares e destruir o equilíbrio da natureza, a garota embarca em uma jornada para devolver o coração de Te Fiti ao seu devido lugar. Para isso, ela precisa convencer o convencido semideus Maui a ajudá-la, enfrentando monstros gigantes, criaturas mitológicas, tempestades, piratas fofíssimos e, principalmente, seus próprios medos enquanto redescobre a verdadeira identidade de seu povo.

Confesso que uma das coisas que mais gostei é que o filme não tenta transformar Moana em uma heroína perfeita ou invencível. Ela continua sendo exatamente aquela garota curiosa, impulsiva e determinada da animação. Ela erra, fica insegura, aprende durante a caminhada e conquista seu espaço sem precisar que o roteiro facilite as coisas para ela. Em tempos em que muitos blockbusters parecem acreditar que protagonistas fortes não podem demonstrar fragilidade, ver Moana amadurecendo naturalmente é quase um alívio.
E muito desse mérito passa por Catherine Laga’aia. A atriz tinha uma missão gigantesca ao assumir uma personagem tão querida, mas consegue transmitir toda a doçura, coragem e teimosia que fazem Moana funcionar tão bem. Sua atuação nunca soa forçada e existe uma sinceridade muito bonita na forma como interpreta a protagonista. É fácil comprar sua jornada justamente porque ela parece uma garota comum colocada diante de uma responsabilidade enorme.
Já Dwayne Johnson… bem… parece que nunca deixou de ser Maui. Honestamente, é difícil imaginar outra pessoa vivendo o personagem. O ego inflado, o humor exagerado, as piadas quase infantis e o enorme coração escondido atrás da pose continuam exatamente como lembrávamos. Ver Johnson de cabelo comprido ainda causa um pequeno estranhamento nos primeiros minutos, mas basta ele abrir a boca para cantar ou fazer alguma provocação que toda essa estranheza desaparece. A química entre ele e Catherine funciona muito bem e continua sendo o motor emocional da aventura.

Aliás, os coadjuvantes também seguem cumprindo muito bem seus papéis. Rena Owen entrega uma Tala extremamente carismática e cheia de sabedoria, funcionando como o elo entre Moana e suas raízes espirituais. John Tui faz um Chefe Tui bastante humano, preso aos traumas que o impedem de permitir que a filha siga seus próprios caminhos, enquanto Frankie Adams empresta bastante carinho à personagem Sina, mesmo aparecendo pouco.
E sim… Hei Hei continua absolutamente roubando cenas.
É impressionante como um galo completamente desmiolado consegue render algumas das melhores gargalhadas do filme sem precisar dizer uma única palavra. Já Pua infelizmente acaba ficando mais apagado do que muitos fãs provavelmente gostariam, funcionando quase como uma lembrança simpática da animação.

Thomas Kail demonstra bastante competência na direção, principalmente durante os números musicais. Não chega a surpreender considerando seu histórico em Hamilton, mas fica claro que ele entende como transformar música em narrativa. As canções continuam sendo parte essencial da experiência e mantêm boa parte da emoção da animação. Assisti à versão dublada e a adaptação das músicas funciona muito bem (e tenho que elogia o trabalho de Saulo Vasconcellos e Bia Vasconcelos que substituí Any Gabrielle nesse live-action)
Visualmente, o filme também chama atenção pelo cuidado com a cultura polinésia. Figurinos, cenários, embarcações, tatuagens, tradições e pequenos detalhes culturais demonstram um respeito enorme pelas inspirações da obra original. Motunui continua sendo um lugar acolhedor e vivo, e a direção de arte merece muitos elogios por conseguir transportar esse universo para o live-action sem perder completamente sua identidade.
Mas é justamente aí que aparece o maior dilema do filme. Ao optar por ser extremamente fiel à animação, Moana também abre mão de surpreender.

A Disney praticamente reconstrói o longa de 2016 cena por cena. Isso faz com que a adaptação funcione muito bem para quem nunca assistiu ao original, mas também faz com que quem conhece cada momento da animação tenha constantemente aquela sensação de “eu já vi exatamente isso”. Em nenhum momento Thomas Kail parece disposto a reinterpretar a história ou oferecer uma nova leitura para seus personagens. E talvez essa seja justamente a principal limitação deste live-action.
A animação possuía uma liberdade visual que simplesmente não pode ser reproduzida integralmente aqui. Sequências como o confronto contra Tamatoa, a batalha com os Kakamora e até o divertido número musical “De Nada” continuam presentes, mas perdem parte da criatividade e da energia que só a animação conseguia entregar. O realismo traz beleza, mas também reduz um pouco da magia.
Outro detalhe que me chamou atenção foi o uso constante dos efeitos digitais. Embora a qualidade seja alta na maior parte do tempo, algumas criaturas e cenários acabam parecendo artificiais demais, criando uma sensação curiosa de que determinados personagens ainda pertencem muito mais ao universo da animação do que ao live-action. Não chega a comprometer a experiência, mas fica aquela impressão de que alguns efeitos práticos poderiam ter deixado tudo ainda mais orgânico.

O que continua funcionando perfeitamente são as mensagens que fizeram da animação algo tão especial. A relação entre Moana e seu pai é muito mais profunda do que parece à primeira vista. Ele não impede a filha de navegar porque é autoritário; ele tenta protegê-la dos próprios traumas. Quantas vezes isso também acontece na vida real? Pais acabam transmitindo seus medos para os filhos sem perceber que, ao fazer isso, também limitam seus sonhos. O filme lembra que coragem não significa ausência de medo, mas sim a decisão de seguir em frente apesar dele.
Existe também uma bonita metáfora sobre identidade. O povo de Motunui deixou de navegar porque esqueceu quem era. Em muitos momentos, essa ideia conversa diretamente com nossa própria realidade. Quantas vezes deixamos de seguir novos caminhos simplesmente porque crescemos acreditando que eles eram impossíveis? Moana mostra que, às vezes, basta alguém dar o primeiro passo para redescobrir horizontes que sempre estiveram ali.
No fim das contas, Moana (2026) talvez seja o exemplo mais claro de um remake que entende perfeitamente sua missão. Ele não tenta superar a animação, não muda seus personagens por conveniência e nem procura reinventar uma história que continua funcionando muito bem. Ao mesmo tempo, essa fidelidade extrema impede que o longa encontre uma identidade própria. É um filme bonito, emocionante, tecnicamente competente e repleto de coração, mas que raramente encontra motivos para existir além da força gigantesca do material original.
Ainda assim, seria injusto dizer que a viagem não vale a pena. Pelo contrário. Para quem ama Moana, reencontrar esses personagens continua sendo extremamente prazeroso. Para quem está conhecendo essa história agora, trata-se de uma aventura encantadora, divertida e carregada de mensagens sobre coragem, pertencimento e a importância de seguir a própria voz, mesmo quando o mundo inteiro insiste para que você permaneça na margem.
Nem todo remake precisa mudar o rumo da história para funcionar. Às vezes, basta lembrar por que ela conquistou tantas pessoas em primeiro lugar. E é exatamente isso que Moana faz. Talvez não navegue para mares desconhecidos, mas chega ao destino com o coração intacto.
* E Disney por favor, me faça o live-action de Atlantis e Planeta do Tesouro!


