A Morte do Demônio: Em Chamas eleva Evil Dead ao seu capítulo mais brutal, sangrento e insano

Danilo de Oliveira
8 Min de Leitura
Sony Pictures/Reprodução
4 Ótimo
Critica - A Morte do Demônio: Em Chamas

Antes de tudo, existe uma verdade que qualquer fã de terror precisa aceitar: poucas franquias envelheceram tão bem quanto Evil Dead. O universo criado por Sam Raimi em 1981 nasceu como um filme independente de baixíssimo orçamento, revolucionou o horror com criatividade e câmera inquieta, flertou com a comédia em Uma Noite Alucinante 2 e Army of Darkness, renasceu de forma brutal no remake de 2013 e encontrou uma nova identidade urbana em A Morte do Demônio: A Ascensão. Cada capítulo parece entender que repetir a fórmula nunca foi suficiente. É preciso elevar a violência, testar novos limites e reinventar a forma como os Deadites aterrorizam suas vítimas. A Morte do Demônio: Em Chamas segue exatamente esse caminho. Sébastien Vaniček não tenta competir com Sam Raimi, Fede Álvarez ou Lee Cronin. Seu objetivo é outro: transformar o sofrimento em espetáculo e provar que ainda existe espaço para surpreender um público acostumado com litros de sangue e mutilações cada vez mais criativas.

A história acompanha Alice (Souheila Yacoub), uma mulher marcada por um relacionamento abusivo que, após perder o marido, aceita passar alguns dias na isolada casa da família dele em busca de um recomeço. Mas o descanso dura pouco. A descoberta do infame Necronomicon desperta novamente uma força demoníaca ancestral, dando início a uma sequência de possessões que transforma cada cômodo da propriedade em um verdadeiro matadouro. Entre familiares consumidos pelos Deadites, criaturas deformadas e uma presença maligna que parece brincar com suas vítimas, Alice precisará enfrentar não apenas os monstros à sua frente, mas também os traumas que já carregava muito antes do primeiro demônio surgir.

Sony Pictures/Reprodução

O que mais impressiona em A Morte do Demônio: Em Chamas é a confiança da direção. Vaniček entende perfeitamente que o público não está ali esperando sustos convencionais. O terror da franquia sempre nasceu do exagero. Aqui, cada cena parece construída para provocar reações físicas. Você faz careta, desvia o olhar, leva a mão ao rosto e, poucos segundos depois, volta a olhar para a tela porque simplesmente precisa descobrir até onde o diretor terá coragem de ir. E ele vai muito longe.

A violência é brutal, mas nunca soa preguiçosa. Existe um cuidado impressionante na composição dos enquadramentos, na utilização dos efeitos práticos e na maneira como o sangue invade praticamente todos os cenários. Ossos quebram de forma seca, membros são arrancados sem cerimônia e os Deadites exibem um comportamento ainda mais animalesco do que em capítulos anteriores. Há uma energia quase caótica nas sequências de ataque que lembra o melhor do horror físico contemporâneo, mas sem abandonar a identidade que tornou Evil Dead uma referência do gênero.

Sony Pictures/Reprodução

Boa parte desse impacto também vem da fotografia. O contraste entre ambientes frios, quase desbotados, e o vermelho intenso do sangue cria uma estética sufocante. O fogo, presente tanto visualmente quanto simbolicamente, funciona como um elemento constante de destruição e purificação, reforçando a ideia de que ninguém sairá dali da mesma forma que entrou.

Souheila Yacoub entrega uma protagonista excelente. Alice foge da tradicional “final girl” que imediatamente assume o controle da situação. Sua evolução acontece aos poucos, acompanhando a reconstrução emocional de alguém que já havia sobrevivido a outro tipo de violência antes mesmo da possessão demoníaca começar. É justamente aí que o roteiro encontra um de seus temas mais interessantes. Os Deadites funcionam quase como uma manifestação física de traumas que insistem em retornar, lembrando que algumas cicatrizes emocionais parecem tão difíceis de eliminar quanto um demônio ancestral.

Ao mesmo tempo, o filme nunca permite que essa camada dramática domine completamente a narrativa. Diferentemente de parte do terror elevado produzido nos últimos anos, Em Chamas sabe exatamente que seu maior compromisso continua sendo entreter através do horror extremo. E faz isso com enorme competência.

Sony Pictures/Reprodução

Também merece destaque a forma como Vaniček presta homenagem a Sam Raimi sem transformar o longa numa simples coleção de referências. As tradicionais câmeras subjetivas atravessando a floresta continuam presentes, assim como os movimentos frenéticos que acompanham os ataques demoníacos. Porém, existe personalidade suficiente para que o filme construa sua própria identidade visual. Um longo plano-sequência próximo ao terceiro ato, por exemplo, demonstra um domínio técnico impressionante e figura facilmente entre os momentos mais memoráveis de toda a franquia.

Se existe um ponto menos inspirado, talvez esteja justamente no roteiro. A velocidade constante faz com que alguns personagens tenham pouco tempo para se desenvolver antes de se tornarem combustível para novas cenas de massacre. Assim como seu anterior, certas relações familiares poderiam receber mais espaço, permitindo que algumas mortes carregassem um peso emocional ainda maior. Além disso, o longa praticamente não oferece respiros. A intensidade permanente acaba anestesiando parte do impacto conforme a narrativa avança.

Ainda assim, esse excesso parece completamente intencional. A Morte do Demônio: Em Chamas não quer ser elegante nem contido. Quer desafiar o estômago do espectador. Quer arrancar reações. Quer transformar cada nova sequência numa competição para descobrir qual será a próxima atrocidade impossível de esquecer. E consegue.

Sony Pictures/Reprodução

Mais interessante ainda é perceber como a franquia continua expandindo sua própria mitologia. Sem abandonar o Necronomicon ou os elementos clássicos criados por Raimi, o filme introduz novas possibilidades para esse universo e deixa pistas bastante promissoras para os próximos capítulos. As duas cenas pós-créditos reforçam que ainda existe muito espaço para explorar essa ameaça demoníaca sob perspectivas diferentes.

Pra finalizar, A Morte do Demônio: Em Chamas representa exatamente aquilo que Evil Dead sempre fez de melhor: reinventar o horror sem perder sua essência. É um filme brutal, visualmente impressionante, tecnicamente refinado e absolutamente comprometido em levar o gore ao seu limite máximo. Talvez falte um pouco mais de desenvolvimento dramático entre uma mutilação e outra, mas quando o objetivo é entregar uma experiência visceral, poucas produções recentes conseguem competir com a ousadia de Sébastien Vaniček. Para os fãs da franquia, é um banquete de sangue, caos e criatividade. Para quem procura um terror disposto a ultrapassar qualquer limite, este é, sem dúvida, um dos capítulos mais ferozes e memoráveis de toda a saga.

Critica - A Morte do Demônio: Em Chamas
Ótimo 4
Nota Cinesia 4 de 5
Share This Article