Velhos Bandidos | Fernanda Montenegro lidera comédia de ação afiada que transforma veteranos em estrelas do crime

Danilo de Oliveira
6 Min de Leitura
3.5 Muito Bom
Critica - Velhos Bandidos

O cinema brasileiro vive um de seus momentos mais interessantes no cenário internacional, com produções cada vez mais seguras de sua identidade e dispostas a dialogar com o público sem abrir mão de personalidade. Nesse contexto, ver uma lenda como Fernanda Montenegro protagonizando uma comédia de ação soa quase como um presente — e talvez até como um gesto simbólico de despedida dos holofotes em grande estilo. Com uma carreira monumental que atravessa gerações, Montenegro encontra em Velhos Bandidos um papel que brinca com sua própria imagem e com o imaginário do envelhecimento, provando que carisma e presença de cena não têm prazo de validade.

A trama acompanha Marta e Rodolfo, vividos por Montenegro e Ary Fontoura, um casal de aposentados que decide planejar o assalto perfeito a um banco. Para executar o plano, eles contam com a ajuda de uma dupla mais jovem de pequenos criminosos, Nancy e Sid, interpretados por Bruna Marquezine e Vladimir Brichta. No encalço desse grupo improvável está o obstinado investigador Oswaldo, papel de Lázaro Ramos, que transforma a perseguição em um jogo de gato e rato recheado de humor, ironia e situações absurdas. O que poderia ser apenas mais uma história de roubo ganha contornos particulares ao colocar o envelhecimento e a marginalidade em uma mesma equação, criando uma comédia que flerta com a farsa e a crítica social.

Paris Filmes/Reprodução

O grande mérito do filme está, sem dúvida, em seu elenco. Fernanda Montenegro e Ary Fontoura formam uma dupla magnética, sustentada por uma química que transcende o roteiro. Existe um conforto em vê-los em cena, uma sensação de que o filme se molda ao tempo e ao ritmo deles. Mais do que executar piadas, ambos parecem habitar seus personagens com uma naturalidade rara, transformando diálogos simples em momentos memoráveis. É o tipo de presença que eleva qualquer material — e aqui não é diferente.

Bruna Marquezine e Vladimir Brichta funcionam como o contraponto energético da narrativa. A dupla traz frescor e ajuda a construir um interessante embate geracional, onde experiência e impulsividade se chocam constantemente. Embora, em alguns momentos, seus personagens pareçam mais funcionais do que aprofundados, a dinâmica entre os quatro protagonistas é o que mantém o filme vivo e pulsante. Lázaro Ramos, por sua vez, encontra um equilíbrio preciso como o investigador, transitando entre a seriedade e o humor sem quebrar o tom geral.

Paris Filmes/Reprodução

Na direção, Cláudio Torres demonstra domínio ao entender exatamente o tipo de filme que está fazendo. Ele não tenta reinventar o gênero de assalto, tampouco busca complexidade narrativa onde ela não é necessária. Em vez disso, aposta em uma encenação ágil, com cortes dinâmicos, uso pontual de zooms e uma estética que mistura o exagero publicitário com a tradição da comédia brasileira. Há uma clara influência do cinema hollywoodiano, mas filtrada por um olhar nacional que flerta com a chanchada moderna e o absurdo institucional.

Narrativamente, Velhos Bandidos não esconde sua previsibilidade. A estrutura segue caminhos já bastante conhecidos, e muitas reviravoltas podem ser antecipadas com facilidade. No entanto, o filme parece pouco interessado em surpreender pela trama. Seu foco está na convivência entre os personagens, no prazer da interação e na construção de um humor que nasce mais da presença dos atores do que das situações em si. Essa escolha funciona, mas também limita o alcance da obra, especialmente quando o roteiro tenta tocar em temas mais complexos, como o envelhecimento e a marginalização dos idosos, sem aprofundá-los de forma mais corajosa.

Paris Filmes/Reprodução

Ainda assim, o longa encontra força em suas analogias. Ao transformar idosos em protagonistas de um grande assalto, o filme brinca com a invisibilidade social dessa parcela da população, ao mesmo tempo em que ironiza instituições e estruturas de poder. Existe um subtexto que dialoga com o Brasil contemporâneo, com suas tensões sociais e seu olhar muitas vezes negligente para o envelhecimento — tudo isso embalado em uma comédia que prefere o riso ao confronto direto.

Pra finalizar, Velhos Bandidos funciona porque entende suas próprias limitações e joga a favor delas. Não é uma obra revolucionária, nem pretende ser. É um filme que encontra sua força no carisma, na reunião de grandes nomes e na leveza com que conduz sua proposta. Pode faltar ousadia em alguns momentos, mas sobra charme, timing e presença. E quando se tem Fernanda Montenegro liderando o caos com tamanha elegância, fica difícil não se render.

Critica - Velhos Bandidos
Muito Bom 3.5
Nota Cinesia 3.5 de 5
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