GOAT (2025) | Quando o estilo sufoca a substância

Danilo de Oliveira
5 Min de Leitura
2.5 Regular
Crítica - GOAT

O cinema sempre encontrou no esporte um terreno fértil para metáforas sobre disciplina, sacrifício e obsessão. Do drama realista de Um Domingo Qualquer ao lirismo de Menina de Ouro, o campo esportivo serviu como palco para narrativas sobre superação e fracasso. No entanto, poucos ousaram cruzar a linha entre o esporte e o terror psicológico. É justamente nessa encruzilhada que surge GOAT (Him, 2025), dirigido por Justin Tipping e produzido por Jordan Peele — nome que, desde Corra! (2017), vem redefinindo o terror como um gênero de crítica social. Aqui, a glória esportiva e o culto à idolatria se transformam em um pesadelo grotesco.

O filme acompanha Cameron Cade (Tyriq Withers), jovem quarterback prestes a entrar para a NFL, que vê seu destino mudar após um misterioso ataque de um homem fantasiado de mascote. Sua chance de redenção surge quando o lendário Isaiah White (Marlon Wayans), considerado o verdadeiro “GOAT” — greatest of all time —, o convida para um retiro isolado no deserto.

Universal Pictures/Reprodução

O que parece um treinamento de alto nível logo revela-se uma espiral de rituais bizarros, humilhações e provações físicas, onde a busca pela grandeza ultrapassa o limite humano. Cameron descobre que, para alcançar a glória, talvez precise pagar um preço literal com seu corpo e sua alma.

A premissa de GOAT é poderosa: transformar o futebol americano em metáfora de culto religioso, onde jogadores são tratados como divindades e a vitória exige sacrifício quase sobrenatural. Entretanto, a execução vacila. Justin Tipping aposta em um estilo que lembra um videoclipe de rap: câmeras frenéticas, iluminação saturada em vermelho e azul, cortes abruptos e sequências alucinatórias. O resultado impressiona visualmente, mas muitas vezes dilui a tensão.

Universal Pictures/Reprodução

A trilha sonora de Bobby Krlic, recheada de batidas intensas e participações de artistas como Denzel Curry e Tierra Whack, reforça essa estética maximalista. Porém, em vez de ampliar o terror, sufoca a narrativa, como se cada cena precisasse gritar para ser ouvida.

O grande trunfo do filme está nas atuações. Tyriq Withers entrega fisicalidade e vulnerabilidade em Cameron, ainda que sua passividade em alguns momentos quebre a verossimilhança do suspense. Já Marlon Wayans rouba a cena: conhecido mundialmente pelas comédias, ele entrega um Isaiah White hipnótico e assustador, uma figura paterna que mistura carisma e sadismo. Cada olhar e frase carregam uma ameaça implícita, sustentando a atmosfera quando o roteiro se mostra repetitivo.

Universal Pictures/Reprodução

O longa traz alegorias óbvias sobre masculinidade tóxica, idolatria e a cultura predatória do esporte. Frases como “A grandeza exige sacrifícios” ou comparações explícitas entre jogadores e figuras messiânicas deixam claro o discurso, mas sem a sutileza que Peele emprega em suas obras. O resultado é uma crítica sublinhada, reiterada e, por vezes, caricatural.

Ainda assim, há momentos potentes: a encenação de treinos como rituais de dor, as caveiras e símbolos religiosos espalhados pelo centro de treinamento, e o contraste entre o glamour do esporte e a brutalidade do bastidor. GOAT acerta quando mostra como a glória pode ser tão destrutiva quanto redentora, mas falha ao se perder em excesso de estímulos visuais e em uma mitologia mal costurada.

Universal Pictures/Reprodução

GOAT não é a revolução que prometia, mas também não é um fracasso completo. É um filme irregular, com grandes atuações — especialmente de Marlon Wayans — e uma ideia fascinante, mas sabotado por uma direção que privilegia estilo em detrimento de substância. O longa entrega algumas imagens inesquecíveis e provoca reflexões sobre a idolatria esportiva, mas dificilmente alcança o impacto ou a coesão de outras produções ligadas a Jordan Peele.

Em resumo, GOAT é um pesadelo esportivo com lampejos de genialidade, mas que, no apito final, deixa a sensação de que a grandeza ficou no quase.

Crítica - GOAT
Regular 2.5
Nota Cinesia 2.5 de 5
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