Uma Batalha Após a Outra | Paul Thomas Anderson assina um épico político frenético, brutal e surpreendentemente divertido

Danilo de Oliveira
5 Min de Leitura
4.5 Excelente
Critica - Uma Batalha Após a Outra

Paul Thomas Anderson nunca foi um diretor que seguiu fórmulas fáceis. De Boogie Nights (1997) a Licorice Pizza (2021), passando por obras-primas como Sangue Negro (2007) e Trama Fantasma (2017), seu cinema sempre transitou entre a densidade dramática, a excentricidade narrativa e uma precisão técnica quase obsessiva. O cineasta é mestre em transformar o estudo de personagens em experiências cinematográficas avassaladoras, explorando a psique humana em ambientes caóticos. Em Uma Batalha Após a Outra (2025), ele expande esse olhar para um território ainda mais ousado: o da sátira política em ritmo de thriller de ação.

A trama acompanha o grupo revolucionário French 75, que, cansado de “jogar pelas regras”, parte para atentados armados contra um governo autoritário que prende imigrantes e defende as elites. Entre eles, destacam-se Perfidia Beverly Hills (Teyana Taylor, eletrizante) e Bob (Leonardo DiCaprio, em um dos melhores trabalhos de sua carreira), que além da militância desenvolvem uma relação intensa. Após uma delação, o grupo é desmantelado e o tempo avança: 16 anos depois, Bob vive recluso e paranoico, criando a filha Willa (Chase Infiniti) sob a sombra do passado. Mas quando o implacável coronel Lockjaw (Sean Penn, monstruoso em cena) ressurge, pai e filha precisam lutar para sobreviver — literalmente enfrentando uma batalha após a outra.

Warner Bros/Reprodução

PTA constrói aqui um filme longo (2h42), mas nunca arrastado. Cada sequência é carregada de urgência e imprevisibilidade, misturando perseguições espetaculares, explosões e diálogos ácidos. O humor surge como arma narrativa: situações tensas se transformam em momentos de ironia desconfortável, aproximando o longa de comédias sombrias como Dr. Fantástico (1964). O equilíbrio entre a ação visceral e a sátira política é um dos maiores trunfos do filme, transformando a experiência em algo ao mesmo tempo catártico e reflexivo.

O elenco é um espetáculo à parte. DiCaprio entrega um protagonista frágil, atormentado e cômico em suas paranoias — um eco distante de personagens como Holland March (Dois Caras Legais), mas mais melancólico. Teyana Taylor explode em tela com uma performance magnética, que mistura carisma e ferocidade. Já Sean Penn encarna um vilão grotesco, infantil e assustador, numa das melhores atuações de sua carreira. Benicio Del Toro, como o excêntrico mestre de artes marciais de Willa, rouba cada cena com humor e serenidade.

Warner Bros/Reprodução

Tecnicamente, o longa é um deslumbre. A fotografia investe em cores quentes e contrastes intensos, enquanto a câmera de Anderson alterna entre planos-sequência hipnóticos e closes sufocantes que nos colocam na pele dos personagens. A trilha sonora — ora composta por faixas diegéticas, ora por arranjos originais — intensifica o clima caótico, criando uma cadência quase musical para as batalhas físicas e ideológicas que se sucedem.

O filme é também uma poderosa metáfora sobre o presente. As críticas ao fascismo, ao elitismo e à manipulação governamental são diretas, mas nunca panfletárias. PTA transforma a raiva social em espetáculo cinematográfico, ao mesmo tempo brutal e divertido. Quando o personagem de Del Toro fala sobre “ondas do oceano” que nunca cessam, a metáfora sobre a persistência do ódio — e da resistência — ecoa como um lembrete doloroso e atual. Além disso, o longa aborda e promove discussões sobre imigração, e o papel da mulher além da maternidade. Mas mesmo com essa substância, nada disso torna o longa pesado de absorver ou “cabeça” demais para dar preguiça naqueles que fingem não se preocupar com a realidade atual.

Warner Bros/Reprodução

No fim, Uma Batalha Após a Outra é um clássico instantâneo: frenético, político, engraçado e devastador. Paul Thomas Anderson entrega uma obra que dialoga com o mundo de hoje sem perder sua assinatura única, provando mais uma vez que poucos diretores entendem tão bem o cinema como ele. É, com tranquilidade, um dos melhores filmes do ano e uma obra que já nasce destinada a entrar para a história.

Critica - Uma Batalha Após a Outra
Excelente 4.5
Nota Cinesia 4.5 de 5
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