Não há como negar que o Invocaverso se tornou um dos pilares do terror moderno. Desde que James Wan apresentou ao público, em 2013, Invocação do Mal, o casal Ed e Lorraine Warren conquistou fãs ao redor do mundo, gerando uma franquia de enorme sucesso e ramificações como Annabelle e A Freira. Agora, em 2025, chega aos cinemas Invocação do Mal 4: O Último Ritual, dirigido por Michael Chaves, prometendo encerrar de forma definitiva a jornada dos investigadores paranormais mais icônicos do cinema recente.
Ambientado em 1986, o filme mostra os Warren aposentados, tentando levar uma vida pacata após décadas enfrentando forças demoníacas. Porém, a tranquilidade é interrompida quando a família Smurl, assolada por uma presença maligna em sua casa, busca a ajuda do casal. Relutantes, Ed e Lorraine percebem que estão diante de algo maior e mais pessoal: um demônio ligado a seu passado, disposto a arrastar toda a família para um confronto final. Ao lado da filha Judy (Mia Tomlinson) e do futuro genro Tony (Ben Hardy), os Warren precisam enfrentar o que pode ser seu caso mais sombrio e derradeiro.

Michael Chaves sempre dividiu opiniões dentro da franquia. Após o fraco Invocação do Mal 3 e o contestado A Freira 2, havia dúvidas se ele seria capaz de encerrar a saga à altura. Felizmente, O Último Ritual mostra o diretor em sua melhor forma, ainda que sem alcançar o brilhantismo de James Wan. Chaves consegue imprimir uma atmosfera sufocante, apoiada em uma boa direção de arte, enquadramentos claustrofóbicos e um design de produção sólido de John Frankish, que constrói ambientes opressivos e verossímeis.
O longa encontra força em sua mescla entre melodrama familiar e terror sobrenatural. A relação entre Ed e Lorraine ganha destaque, com Patrick Wilson e Vera Farmiga entregando atuações carregadas de emoção, sustentadas por uma química que permanece intacta após mais de uma década. Esse enfoque no lado humano dos personagens funciona como o verdadeiro coração da trama, mesmo que, em alguns momentos, o excesso de foco nos dramas pessoais diminua a intensidade das assombrações.

Outro ponto positivo é a introdução de Judy, interpretada pela estreante Mia Tomlinson. Sua sensibilidade sobrenatural e participação ativa na investigação trazem frescor ao enredo, além de preparar terreno para possíveis futuros desdobramentos do universo, ainda que o filme se apresente como conclusão. Ben Hardy, como Tony, cumpre bem seu papel, embora sua subtrama amorosa roube tempo que poderia ter sido melhor aproveitado na construção de tensão.
Em termos de terror, O Último Ritual não reinventa a roda. A narrativa recorre a clichês já conhecidos, mas acerta ao apostar em sequências pontuais de impacto – destaque para uma cena em um corredor de espelhos com Judy, bem criativa por sinal. A fotografia fria e o uso calculado de sombras reforçam o clima de desespero, e ainda há breves flertes com o gore, adicionando camadas à experiência sem se perder em exageros.

Ainda assim, não há como negar que o filme carece de momentos tão memoráveis quanto as palmas no porão (Invocação do Mal 1) ou os quadros amaldiçoados (Invocação do Mal 2). O peso da despedida muitas vezes parece maior do que o da própria ameaça demoníaca. Isso enfraquece o impacto do clímax, embora o último ato consiga recuperar parte da tensão acumulada.
Invocação do Mal 4: O Último Ritual é um encerramento digno, mas irregular, para uma das franquias mais queridas do terror moderno. Não atinge o auge criativo dos dois primeiros filmes, mas supera o decepcionante terceiro capítulo e entrega um adeus emocionante ao casal Warren, sustentado principalmente pelo carisma e talento de Patrick Wilson e Vera Farmiga.
O longa honra seu legado sem grandes revoluções, e talvez seja exatamente isso o que os fãs precisavam: uma despedida respeitosa, que reconhece a importância dos personagens sem transformar a saga em um caça-níquel vazio. O Invocaverso pode até continuar em outras ramificações, mas a história de Ed e Lorraine chega ao fim com um suspiro de alívio – e um último ritual.


