Quando John Wick chegou aos cinemas em 2014, poucos imaginavam que aquele filme de ação estilizado, orquestrado por ex-dublês como Chad Stahelski e David Leitch, se tornaria um marco capaz de redefinir o gênero. A partir dali, Hollywood passou a entender que coreografia, inventividade visual e intensidade dramática poderiam caminhar juntas, elevando os tiroteios e pancadarias a um nível quase operístico. Nesse rastro de sangue e elegância surgiu Anônimo (2021), uma espécie de “primo suburbano” da saga de Wick, trazendo Bob Odenkirk como um anti-herói improvável. Agora, com Anônimo 2 (2025), o universo retorna maior, mais insano e consciente de sua própria identidade.
A trama é simples, quase um pretexto. Quatro anos após os eventos do primeiro filme, Hutch Mansell (Bob Odenkirk) tenta manter um equilíbrio precário entre sua vida familiar e o fardo de um passado de sangue. Em busca de reconexão, leva a família para um parque aquático em Plummerville. A promessa de lazer se desfaz em minutos quando um atrito banal desencadeia um efeito dominó de violência insana. O que se segue é uma escalada de confrontos que transforma o espaço turístico em um palco grotesco, onde cada escorregador e boia inflável é convertido em arma letal.

E aqui reside o maior mérito da sequência: Anônimo 2 abraça o absurdo como motor narrativo. Odenkirk repete a façanha do primeiro filme e entrega uma performance marcada pela dualidade — a vulnerabilidade de um homem tentando recuperar o afeto doméstico e a brutalidade de um ex-agente treinado que não consegue escapar de sua natureza. Há algo de tragicômico em Hutch, e Odenkirk sabe explorar esse limiar com precisão quase matemática, transitando entre o drama e o humor negro com a mesma naturalidade com que desarma inimigos em coreografias frenéticas.
A direção de Timo Tjahjanto é um capítulo à parte. Conhecido por seu olhar visceral no cinema de ação asiático, ele injeta no filme uma energia caótica que transforma cada cena em um balé grotesco de sangue e humor. A sequência do parque aquático já nasce clássica: toboáguas se tornam arenas de luta, boias infláveis viram armas improvisadas e a água cristalina se mistura ao vermelho intenso em imagens tão ridículas quanto impressionantes. Tjahjanto mostra que entende a tradição de Stahelski e Leitch, mas imprime sua marca própria, mais debochada e violenta, quase como se estivesse filmando um Looney Tunes para adultos.

No entanto, nem tudo é perfeito. O roteiro de Derek Kolstad e Aaron Rabin, embora mantenha a essência do original, por vezes se acomoda em caricaturas fáceis — sobretudo no antagonista, cuja vilania beira a paródia e nunca alcança o peso dramático necessário. Além disso, a insistência em elevar cada situação ao absurdo pode cansar em certos momentos, já que o filme parece sempre disposto a ultrapassar seus próprios limites de exagero. Há também conveniências narrativas que servem apenas para levar Hutch a mais uma cena de massacre estilizado, enfraquecendo um pouco a coerência da trama.
Por outro lado, o longa compensa suas falhas com ritmo, criatividade e um senso de ironia que o aproxima de sátiras sociais. A tensão entre a vida familiar e a carnificina absurda funciona como uma analogia sobre a dificuldade de conciliar o cotidiano com traumas passados — Hutch é, afinal, um homem que tenta ser “normal” em um mundo que insiste em lembrá-lo de sua essência destrutiva. Assim como John Wick transformava a vingança em mito moderno, Anônimo 2 faz da banalidade doméstica um gatilho para o caos, como se dissesse que até um passeio em família pode se transformar em uma ópera sangrenta quando o passado não foi devidamente enterrado.

No fim, Anônimo 2 é uma sequência que entende perfeitamente o seu papel: divertir, impressionar e oferecer um espetáculo exagerado sem jamais se levar a sério demais. Se não atinge a sofisticação estética de John Wick ou a densidade emocional de filmes que usam a ação como metáfora mais profunda, compensa com carisma, ritmo e um humor negro que torna tudo mais leve. É um filme para quem deseja rir, se impressionar e, acima de tudo, celebrar o cinema de ação como um show de excessos.


