O terror dos últimos anos encontrou na A24 um de seus maiores expoentes. A produtora, responsável por obras como Hereditário e A Bruxa, consolidou uma nova vertente do gênero: mais psicológico, visceral e profundamente ligado a dilemas humanos do que a sustos fáceis. Nesse mesmo terreno, os irmãos Danny e Michael Philippou — que já haviam causado sensação com Fale Comigo (2022) — retornam com Faça Ela Voltar (Bring Her Back, 2025), um filme que reafirma seu talento em usar o sobrenatural para falar do insuportável: a dor do luto e os limites do amor quando se converte em obsessão.
Após a morte brutal do pai, os meio-irmãos Andy (Billy Barratt) e Piper (Sora Wong), quase cega, são acolhidos por Laura (Sally Hawkins), uma ex-assistente social que carrega suas próprias cicatrizes: a perda da filha afogada anos antes. O que deveria ser um recomeço rapidamente se transforma em pesadelo. A cabana isolada em que passam a viver guarda segredos perturbadores, incluindo a presença enigmática de Ollie (Jonah Wren Phillips), um garoto mudo e inquietante que Laura descreve de forma contraditória. Aos poucos, Andy percebe que Laura não busca apenas acolhê-los, mas sim realizar um ritual macabro para trazer sua filha de volta — ainda que isso custe a sanidade, a vida ou a própria alma daqueles ao seu redor.

O maior mérito de Faça Ela Voltar é transformar a dor em atmosfera. Desde o primeiro quadro, há um peso sufocante que paira sobre a tela: silêncios que parecem intermináveis, olhares que escondem mais do que revelam e um ambiente doméstico que deveria ser de proteção, mas se revela uma prisão psicológica. A direção dos Philippou mostra maturidade em desacelerar a narrativa, forçando o espectador a sentir o tempo como os personagens — carregado de ansiedade, angústia e a iminência do pior.
O trabalho de atuação é, sem dúvida, o coração do filme. Sally Hawkins entrega uma performance devastadora, equilibrando ternura e ameaça de forma desconcertante. Sua Laura não é um vilão caricatural, mas uma mãe destruída pela perda, cuja dor se distorce até o monstruoso. Billy Barratt, como Andy, transmite a vulnerabilidade e a coragem de um adolescente que precisa amadurecer às pressas para proteger a irmã. Já Sora Wong oferece um contraponto delicado, fazendo de Piper a representação da inocência ameaçada. Jonah Wren Phillips, como Ollie, é um dos pontos altos: sua presença silenciosa carrega uma inquietação constante, um desconforto que nunca se dissipa.

Tecnicamente, o filme é impecável em sua construção de horror. O design de som, em particular, é um elemento crucial: cada estalo da madeira, cada respiração contida, cada silêncio prolongado contribui para a sensação de instabilidade. Os efeitos práticos de maquiagem, conduzidos com maestria, dão corpo a momentos de verdadeiro desconforto, incluindo sequências gráficas que beiram o insuportável — mas que nunca soam gratuitas, sempre reforçando a atmosfera de decadência emocional e física.
No entanto, o filme não está imune a críticas. A cadência lenta, apesar de proposital, pode alienar espectadores menos pacientes, e algumas passagens se apoiam em convenções já conhecidas do terror psicológico (a casa isolada, os rituais, a figura da mãe enlouquecida pelo luto). Ainda assim, os Philippou conseguem reverter essa familiaridade ao imprimir sua marca: um terror que é menos sobre fantasmas e mais sobre pessoas despedaçadas tentando preencher o vazio.

O subtexto é poderoso. Faça Ela Voltar se sustenta em uma pergunta incômoda: até onde o amor pode ir antes de se tornar destrutivo? Laura ama tanto a filha que perdeu que se recusa a deixá-la ir, transformando a maternidade em possessão. Andy ama tanto a irmã que coloca a própria vida em risco para protegê-la. No centro da narrativa está o paradoxo do afeto: aquilo que deveria salvar pode, na verdade, condenar. O filme sugere que o luto não é apenas uma ausência, mas uma força corrosiva, capaz de deformar vínculos e identidades.
No fim, Faça Ela Voltar não é apenas um dos melhores terrores do ano — é uma experiência que transcende o gênero. Um estudo sobre dor, apego e a monstruosidade escondida no desejo de reverter o irreversível. É brutal, incômodo e inesquecível. O tipo de terror que permanece dentro do espectador muito depois da última cena, como uma ferida aberta que se recusa a cicatrizar.


