Uma Mulher Sem Filtro | Comédia dramática marca a estreia de Fabiula Nascimento como protagonista nas telonas

Priscila Dórea
7 Min de Leitura
H2O Filmes | Divulgação | Laura Campanella
3.5 Muito Bom
Crítica - Uma Mulher Sem Filtro

Em Uma Mulher Sem Filtro, a publicitária Bia (Fabiula Nascimento) está cercada por um marido encostado, um enteado pedante, um chefe machista, uma amiga autocentrada e uma vizinha que acaba com suas noites de sono com festas frequentes… Mas sempre que Bia está perto de chegar ao limite, ela recua. Até que a chegada de uma jovem influencer, que assume uma posição superior à sua na revista onde trabalha, se torna a gota d’água. À beira de um colapso, Bia participa de uma sessão esotérica com Deusa Xana (Polly Marinho) e como resultado, se liberta de todos os filtros e passa a praticar tolerância zero com todos os absurdos que afetam o seu cotidiano. 

Com a direção de Arthur Fontes (Odeio Segundas, 2015) e roteiro de Tati Bernardi (Meu Passado me Condena, 2015), o filme se baseia no sucesso chileno Sin Filtro, que já ganhou versões em diversos países. A versão brasileira, claro, traz um toque local, com humor e situações que dialogam diretamente com o público nacional. Essa é a estreia da Fabiula Nascimento como protagonista nos cinemas e ainda que ela esteja excelente no papel e a premissa da história seja revigorante, o aspecto caricato da história pode frustrar algumas pessoas.

H2O Filmes | Divulgação | Laura Campanella

Não é difícil se irritar com as perturbações no dia a dia da Bia e acho que a forma como o filme mostra isso é interessante, pois tudo é maximizado, e faz a gente questionar “como é possível ela não ter soltado uns três gritos ainda?” à medida que fica claro que aquilo acontece já faz bastante tempo. As reações da Bia diante das situações (como a cara que faz nessa imagem acima) muito provavelmente estarão espelhadas no rosto de quem estiver assistindo – e não só das mulheres, mas de homens também. A vontade de muita gente vai ser a de querer estar gritando e brigando ao lado dela em várias cenas.

O roteiro usa da licença artística para fazer com que as situações comuns e irritantes que a protagonista vive mergulhem numa hipérbole que afasta essas situações da realidade. Um bom exemplo é o da vizinha baladeira, uma DJ que faz uma festa todas as noite em seu apartamento – todas as cenas que envolvem essa vizinha lembram a Halle Berry no Mulher-Gato de 2004. A balada é diária e não tem com quem a Bia reclamar, pois não só a sindica, mas a própria polícia participa da festa. Um exagero? Claro. Mas esse é exatamente o ponto do filme, hiperbolizar situações já absurdas para chegar nesse ponto de ruptura da protagonista.

H2O Filmes | Divulgação | Laura Campanella

É inegável, no entanto, o quanto a repetição disso pode incomodar e até frustrar um pouco quem tiver assistindo e resolver refletir sobre as entrelinhas do roteiro, pois no fim, o que fica claro é que as mulheres precisam se impor para mudar suas realidades e romper com estereótipos, mas também faz parecer que o machismo é um problema exclusivo das mulheres, que elas que precisam fazer algo para resolver isso, enquanto os homens apenas continuam existindo.

Sou totalmente contrária a ideia de esperar que o filme me entregue além do que propõe – se acontecer, ótimo, mas assistir qualquer coisa esperando mais do que o proposto não faz sentido -, porém, o desfecho da história dos personagens masculinos na trama é um pouco incomodo, mesmo que nos sintamos vingados junto com a Bia. Em especial sobre o final do marido (Emílio Dantas) e do ex-namorado/melhor amigo (Samuel de Assis) – o chefe apenas some na trama e é isso -, pois não há arrependimento ou reflexão ou mesmo desculpas por parte deles, apenas um ar insinuativo de que aquela batalha eles perderam, mas ainda tem muito peixe no mar.

Sabem aquele sorrisinho do Tom depois da Autumn se apresentar no final de 500 Dias com Ela? Pois é, uma sensação assim.

H2O Filmes | Divulgação | Laura Campanella

Outro fator interessante é que, apesar da própria Bia não perceber os problemas que toda essa onda sem filtro dela pode causar, a gente não demora a perceber, mesmo entre risadas, que logo isso vai ser um problema… E isso acontece justamente com a irmã apaixonada por gatos da protagonista, a Barbara (Júlia Rabello), e ali toda risada vai cessando até sumir, porque assim como nós, a Bia percebe que nem todo problema se resolve no grito sem filtro. E essa é uma mensagem importante do filme, porque trás questões sobre a necessidade de se impor, mas também a de encontrar a melhor forma de fazer isso para manter quem gosta por perto.

O filme é divertido e nos traz reflexões tão naturalmente quanto risadas. Então o segredo é assistir pelo o que ele é: uma comédia dramática e um pouco caricata sobre uma mulher que chegou ao limite e agora vai buscar a paz consigo mesma ao impor limites e afastar quem faz mais mal do que bem. Tudo com muitas risadas.

Crítica - Uma Mulher Sem Filtro
Muito Bom 3.5
Nota Cinesia 3.5 de 5
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Jornalista e potterhead para toda eternidade, tem um amor nada secreto por mangás e picos de felicidade com livros em terceira pessoa. Além de colaboradora no Cinesia Geek, é repórter do Grupo A Tarde.