Todo Mundo em Pânico | Irmãos Wayans provam que a comédia sem filtro ainda tem espaço na cultura pop

Danilo de Oliveira
7 Min de Leitura
Paramount Pictures/Reprodução
4 Ótimo
Critica - Todo Mundo em Pânico

No início dos anos 2000, a franquia Todo Mundo em Pânico consolidou-se como um dos maiores emblemas dos filmes-paródia, resgatando a essência das comédias escrachadas das décadas anteriores para promover uma insana e metalinguística jornada pelo cinema de terror. Tendo como mote principal o clássico Pânico (1996), de Wes Craven, a saga idealizada pelos Irmãos Wayans faturou quase US$ 900 milhões mundialmente. Contudo, após o afastamento dos criadores por divergências com produtores, a qualidade minguou a cada iteração, culminando no fracasso colossal do quinto capítulo em 2013. Para a alegria de quem cresceu chorando de rir com esse universo sem filtros, os Wayans finalmente retomaram a parceria com a Miramax e a Paramount Pictures. O novo Todo Mundo em Pânico (que abdica do número 6 no título) marca o retorno triunfal da trupe ao comando criativo, provando que a verdadeira alma desta máquina de moer clichês nunca esteve no nome, mas sim na visão anárquica de seus criadores.

A sinopse nos reintroduz ao caos de forma deliciosamente familiar. O perigoso assassino Ghostface ressurge para uma nova onda de ataques, forçando o icônico “core four” da franquia — Cindy Campbell (Anna Faris), Brenda Meeks (Regina Hall), Shorty (Marlon Wayans) e Ray (Shawn Wayans) — a se unir novamente para lutar por suas vidas. A trama se estrutura seguindo de perto a fórmula dos “reboots-sequência” (ou legacy sequels) que dominou Hollywood recentemente, apresentando rostos inéditos como Sara (Olivia Rose Keegan) e Waldinha Campbell (Savannah Lee Nassif), uma cópia descarada de Jenna Ortega em Wandinha. Em meio a planos infalíveis, perseguições absurdas e o retorno de figuras clássicas como o aposentado delegado Doofy (Dave Sheridan) e a repórter Gail Hailstorm (Cheri Oteri), o grupo precisa sobreviver a um labirinto de novas regras cinematográficas onde ninguém está a salvo.

Paramount Pictures/Reprodução

O grande mérito do longa assinado por Keenen Ivory, Marlon, Shawn e Craig Wayans, ao lado de Rick Alvarez, está em sua absoluta falta de pudor. O roteiro assume que a história é apenas uma desculpa para empilhar esquetes em um ritmo frenético. Sob a direção de Michael Tiddes, o filme acerta em cheio ao mirar no terror contemporâneo que dominou o hiato da franquia. Há sequências hilárias ridicularizando blockbusters e produções cultuadas como M3GAN, Sorria, A Hora do Mal, John Wick, Halloween (2018) e até mesmo uma das melhores e mais inesperadas paródias do ano baseada no visceral A Substância. No entanto, o roteiro também se propõe a tirar o atraso de uma década inteira, resgatando piadas com Corra! (2017) ou Ma (2019) que dão um leve cheiro de coisa velha ao texto, embora a zoação com clichês universais — como perseguições de monstros em câmera lenta — compense esse delay.

As paródias mais eficientes não são necessariamente aquelas que recriam cenas famosas do cinema recente, mas sim as que brincam com os próprios clichês do gênero. O filme encontra suas melhores sacadas quando satiriza a obsessão contemporânea por legados, reboots e continuações nostálgicas. Existe uma camada curiosa de autocrítica em uma produção que, ao mesmo tempo em que faz parte dessa tendência, também zomba dela constantemente. Os Wayans parecem plenamente conscientes de que estão produzindo uma “legacy sequel” e utilizam essa condição como combustível para algumas das piadas mais afiadas do roteiro.

Paramount Pictures/Reprodução

O entrosamento do elenco veterano continua impecável; Anna Faris e Regina Hall exalam uma química nostálgica que carrega o filme nas costas, enquanto os novatos se jogam sem medo no ridículo. No plano das analogias, o longa funciona muito bem como uma sátira ácida sobre a própria indústria cultural e os comportamentos da Geração Z. Os Wayans perdem o filtro para debochar da “machosfera”, de influenciadores de lives, debates sobre pronomes e até dos polêmicos arquivos Epstein. Há também uma camada metalinguística inteligente que tira sarro dessa atual obsessão de Hollywood em misturar personagens clássicos com novatos para extrair dinheiro dos fãs — uma onda que reinou na última década e que o filme tenta enterrar de vez.

Por outro lado, o preço pago por essa fragmentação é uma óbvia fragilidade narrativa. Não espere um enredo minimamente envolvente ou desenvolvimento profundo de personagens; o roteiro simplesmente os joga de um lado para o outro para servir à piada seguinte. Além disso, embora o humor politicamente incorreto funcione na maior parte do tempo, algumas piadas escatológicas envolvendo dildos e fluidos corporais entregam aquele humor dos anos 2000, e podem não agradar alguns.

Paramount Pictures/Reprodução

Visualmente, o diretor Michael Tiddes não busca reinventar nada. Sua função é simples: criar espaço para que as piadas aconteçam. E dentro dessa proposta, ele entrega exatamente o que se espera. A direção mantém ritmo acelerado, utiliza bem os elementos caricatos das produções que satiriza e entende que a prioridade absoluta aqui é fazer o público rir antes que ele tenha tempo de questionar qualquer lógica narrativa.

Pra finalizar, Todo Mundo em Pânico não tenta ser sofisticado, inteligente ou relevante. Sua missão continua sendo exatamente a mesma de 25 anos atrás: arrancar gargalhadas através do exagero, da irreverência e do completo desprezo por qualquer limite de bom gosto. E justamente por entender tão bem sua própria identidade, o filme funciona melhor do que muitos poderiam imaginar.

Talvez não alcance o impacto revolucionário do original de 2000, mas representa facilmente o melhor capítulo da franquia em décadas. Mais importante do que isso, prova que os irmãos Wayans continuam sendo os únicos capazes de compreender verdadeiramente o espírito de Todo Mundo em Pânico. Em uma era dominada por franquias excessivamente preocupadas em parecer importantes, existe algo quase refrescante em assistir a uma comédia cujo único objetivo é fazer o público rir até perder o fôlego.

Critica - Todo Mundo em Pânico
Ótimo 4
Nota Cinesia 4 de 5
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