Quando James Gunn e Peter Safran assumiram a missão de reconstruir o universo cinematográfico da DC, a promessa era clara: personagens mais humanos, histórias mais autorais e uma conexão mais forte com o material original dos quadrinhos. O primeiro teste veio com Superman, que não apenas conquistou público e crítica, mas também estabeleceu um padrão elevado para tudo o que viria depois. A responsabilidade de dar sequência a essa nova fase caiu justamente sobre os ombros de uma personagem que durante décadas viveu à sombra do Homem de Aço. Felizmente, Supergirl mostra que Kara Zor-El merece ocupar seu próprio espaço no panteão da DC. Mais do que isso, o filme prova que existe um enorme potencial para a heroína dentro do novo DCU, mesmo que a produção nem sempre tenha coragem suficiente para explorar todas as possibilidades que tem em mãos.
Inspirado na celebrada HQ Supergirl: Mulher do Amanhã, escrita por Tom King e ilustrada pelos brasileiros Bilquis Evely e Mat Lopes, o longa nos afasta da Terra para mergulhar em um road movie intergaláctico cru e emocionante. A jovem Ruthye Marie Knoll (Eve Ridley) testemunha o assassinato brutal de sua família pelas mãos de Krem das Colinas Amarelas (Matthias Schoenaerts), o sádico líder da Brigada de Barbond. Determinada a se vingar, ela cruza o caminho de Kara Zor-El (Milly Alcock) em um planeta de sol vermelho, onde a kryptoniana tenta afogar suas mágoas no álcool para celebrar seu aniversário de 23 anos. O destino das duas se sela tragicamente quando Krypto, o Supercão, é atingido por uma flecha envenenada de Krem. Sem os poderes habituais de Kara para resolver tudo instantaneamente, a heroína e a garota precisam se unir em uma caçada espacial implacável atrás do vilão para conseguir o antídoto e salvar o cãozinho, enquanto Kara tenta impedir que o ódio corrompa a alma da jovem Ruthye.

O grande trunfo do filme é, sem qualquer dúvida, Milly Alcock. Se muitos espectadores ainda associavam a atriz à jovem Rhaenyra Targaryen de House of the Dragon, Supergirl surge como a confirmação definitiva de seu talento. Alcock entrega uma interpretação poderosa, emocionalmente intensa e extremamente humana. Sua Kara não é apenas uma super-heroína capaz de atravessar galáxias ou enfrentar exércitos inteiros. Ela é uma sobrevivente. Uma mulher marcada pelo trauma, pela culpa e pela solidão. Cada cena carrega o peso de alguém que viu seu mundo morrer diante dos próprios olhos e precisou aprender a seguir em frente. É justamente essa vulnerabilidade que torna a personagem tão fascinante.
O roteiro de Ana Nogueira entende bem essa dimensão da protagonista e acerta ao transformar a jornada de Ruthye em um espelho para os conflitos internos de Kara. Enquanto a jovem deseja vingança a qualquer custo, Supergirl enxerga nela o risco de repetir erros motivados pela dor e pelo ódio. O filme trabalha constantemente a ideia de que justiça e vingança são conceitos separados por uma linha extremamente tênue, criando um interessante debate moral que funciona como motor emocional da narrativa.

Eve Ridley entrega uma atuação competente como Ruthye, transmitindo de maneira convincente o sofrimento e a obsessão da personagem. Já Matthias Schoenaerts faz o possível para tornar Krem uma ameaça relevante, embora o roteiro nunca permita que o vilão alcance o mesmo nível de complexidade das protagonistas. Seu antagonista funciona mais como uma representação da violência e da brutalidade do que como um personagem verdadeiramente memorável.
Mas se existe alguém que rouba a cena sempre que aparece, esse alguém é Jason Momoa. Finalmente interpretando o papel que parecia destinado a viver desde sempre, o ator abraça completamente o caos e o humor de Lobo. Carismático, violento e absurdamente divertido, o Maioral surge como uma força da natureza dentro da trama. Sua química com Ruthye é surpreendentemente eficiente e algumas das melhores cenas do filme nascem justamente dessa interação. O problema é que o personagem acaba crescendo demais dentro da narrativa. Em determinado momento, Supergirl deixa de ser totalmente sobre Supergirl para abrir espaço ao brilho de Lobo. É uma escolha que gera diversão, mas que também enfraquece um pouco a proposta de emancipação da heroína.

Essa sensação se repete em outros momentos. Embora o filme seja vendido como uma história de independência para Kara, ele parece constantemente buscar validação através de figuras masculinas mais populares. Seja pela presença de Lobo ou pelas conexões inevitáveis com Superman, existe uma impressão de que o estúdio ainda não confia completamente no poder da personagem para sustentar uma produção inteiramente por conta própria.
Do ponto de vista técnico, Supergirl é um filme competente, mas raramente deslumbrante. Craig Gillespie conduz a narrativa com segurança, porém sem o mesmo senso de personalidade visual encontrado nos quadrinhos que servem de inspiração. Existem momentos visualmente belos e algumas criaturas alienígenas que ajudam a expandir o lado mais estranho do universo DC, mas a direção frequentemente opta pelo caminho mais seguro. Falta o senso de maravilhamento cósmico que a premissa sugere. Falta também uma identidade visual mais marcante, capaz de transformar esse universo em algo verdadeiramente único.

Ainda assim, seria injusto dizer que o filme não funciona. Pelo contrário. Supergirl é uma aventura emocionante, divertida e surpreendentemente madura para um blockbuster de super-heróis. Sua abordagem sobre trauma, perda, vingança e reconstrução pessoal oferece uma profundidade que vai além das tradicionais batalhas entre mocinhos e vilões. O longa também reforça uma das maiores qualidades do novo DCU: a preocupação em construir personagens antes de construir franquias.
Pra finalizar, Supergirl é um ótimo filme. Não alcança toda a força emocional, visual e temática da HQ de Tom King, mas consegue preservar sua essência. Milly Alcock surge como uma estrela pronta para liderar o futuro da DC, Jason Momoa encontra seu papel perfeito como Lobo e James Gunn demonstra mais uma vez que sua visão para este universo continua sólida. O resultado é uma produção que emociona, diverte e fortalece os alicerces do novo DCU. A única frustração é perceber que, com um pouco mais de ousadia, ela poderia ter sido verdadeiramente extraordinária.


