Nos últimos anos, uma onda quase febril tomou conta dos cinemas brasileiros: todo mundo quer contar a história de Silvio Santos. Não apenas imitá-lo — atividade praticamente esportiva no país — mas tentar capturar sua essência, esse misto de ícone televisivo, empresário carismático e figura política improvável. Depois do desastroso Sílvio (2024), com Rodrigo Faro, que traumatizou boa parte do público e da crítica, 2025 chega com uma nova aposta: Silvio Santos Vem Aí, dirigido por Cris D’Amato, tentando reconstruir a aura de Senor Abravanel sem cair no abismo das caricaturas fáceis.
E se, na vida real, todo brasileiro tem “um Silvio Santos” pronto na garganta, no cinema a tarefa é outra: transformar mito em narrativa — e às vezes, só isso já vale o ingresso.
Ambientado no explosivo ano de 1989 — quando Silvio surpreendeu o país ao lançar sua candidatura presidencial a poucos dias do primeiro turno —, o filme acompanha Marília (Manu Gavassi), uma jornalista reticente em relação ao apresentador, convocada para mergulhar na vida dele e montar parte de sua campanha.

Cética, distante e até um pouco irritada com o fenômeno Abravanel, ela é levada a convivência diária com o dono do SBT, encontrando figuras lendárias como Roque, Lombardi e Íris Abravanel. É dessa relação improvável — e dessa investigação quase antropológica — que nasce a engrenagem emocional do longa: entender o homem por trás do microfone, do sorriso, dos programas que moldaram gerações.
O roteiro de Paulo Cursino é o primeiro grande trunfo de Silvio Santos Vem Aí. Em vez de simplesmente reencenar fatos conhecidos, o filme usa os programas de Silvio como espelho de sua trajetória — um recurso narrativo inteligente que conecta momentos de vida à linguagem televisiva que ele dominava com maestria. É um gesto simbólico e eficaz: a arte do apresentador se confunde com a própria existência dele, e isso o filme traduz com um charme inesperado.

Outro destaque é a participação de personagens clássicos da “família SBT”. O encontro com Lombardi, por exemplo, é uma pérola criativa: o rosto nunca aparece, sempre em truques de foco e enquadramentos estratégicos, preservando o mito do locutor mais misterioso da TV brasileira. É uma daquelas soluções cinematográficas que provam que nem tudo precisa ser literal para funcionar.
No elenco, Manu Gavassi entrega uma atuação redonda, fazendo Marília evoluir da jornalista cética à profissional tocada pela experiência de conhecer Silvio de perto. Não reinventa a roda, mas sustenta o filme com dignidade.

E Leandro Hassum… surpreende. Pela primeira vez em muito tempo, o ator escapa de si mesmo. A caracterização é sólida, os figurinos ajudam, e embora alguns gestos caiam ocasionalmente na caricatura — afinal ninguém escapa totalmente do impulso de imitar o Silvio — há verdade no que Hassum faz. No fim, o público não vê Hassum tentando ser Silvio; vê Silvio ali, de algum jeito.
O grande alívio cômico, porém, fica com Marcelo Laham, interpretando o namorado de Marília. Sua imitação precisa do apresentador, somada a momentos hilários, garante algumas das cenas mais memoráveis do filme. Já Regiane Alves brilha como Íris Abravanel, trazendo delicadeza e presença emocional à narrativa.
O maior problema do filme está justamente no recorte que escolhe explorar. A campanha presidencial de Silvio Santos é um dos episódios mais fascinantes e caóticos da política brasileira moderna — e, ainda assim, o longa a trata com incrível superficialidade. Pouco se fala sobre os bastidores reais, as negociações, a oposição que derrubou sua candidatura, e quase nada se arrisca em examinar o Silvio político. É estranho, já que é exatamente esse período que deveria carregar o peso dramático da produção.

O tom chapa-branca também compromete. Há momentos em que o apresentador se aproxima de uma figura quase santificada, o que sabota a proposta de “conhecer sua essência”. Falta fricção, falta falha humana, falta sombra. Só há luz — e isso não conta história de verdade.
A reconstituição de época de 1989 entrega o básico, mas fica presa a cenários fechados e a detalhes de figurino que denunciam limitações de produção (ou preguiça de pesquisa). Ainda assim, desperta nostalgia suficiente para quem viveu a era da TV analógica.
Silvio Santos Vem Aí é, acima de tudo, um filme feito para quem já tem carinho pelo apresentador. Não revela grandes segredos, não reinventa sua história, mas presta uma homenagem respeitosa e sensível à figura que marcou seis décadas da televisão brasileira.
Peca quando tenta penetrar politicamente no mito e não consegue, permanecendo na superfície do personagem e desperdiçando uma oportunidade histórica de aprofundamento. Ainda assim, acerta ao misturar arte e vida, ao mostrar como Silvio era um espelho de seu próprio programa — e como seu programa era um reflexo dele.
No final, o longa cumpre seu papel: emociona, diverte e respeita o legado de um dos maiores comunicadores do país. Não é a cinebiografia definitiva, mas é um passo digno numa jornada que o cinema brasileiro claramente ainda não terminou de contar.
Se “todo mundo acha que sabe imitar o Silvio Santos”, como pergunta Marília no início do filme, talvez porque todo mundo, de algum modo, sinta que conhece um pedaço dele. E Silvio Santos Vem Aí tenta, com todos os seus limites, juntar esses pedaços — mesmo que ainda faltem alguns.


