O Drama | A comédia mais desconfortável do ano prova que amar é fácil… difícil é lidar com a verdade

Danilo de Oliveira
5 Min de Leitura
A24/Reprodução
4 Ótimo
Critica - O Drama

Existem filmes que se beneficiam da expectativa, do hype e da antecipação gerada por trailers e campanhas massivas. E existem aqueles raros casos em que quanto menos você souber, melhor será a experiência. O Drama, nova produção da A24, pertence com folga ao segundo grupo. Em um cenário onde o marketing costuma entregar demais, a obra dirigida por Kristoffer Borgli aposta no oposto: preservar o impacto de sua virada narrativa e confiar que o desconforto fará o resto. E faz.

A história acompanha Emma e Charlie, interpretados por Zendaya e Robert Pattinson, um casal aparentemente perfeito que está prestes a subir ao altar. Entre preparativos de casamento e declarações de amor, tudo parece caminhar para o esperado “felizes para sempre” — até que uma revelação inesperada vira esse conto romântico de cabeça para baixo. A partir desse ponto, o longa abandona qualquer zona de conforto e mergulha em um jogo emocional onde amor, julgamento e convivência entram em conflito direto.

Borgli demonstra um controle impressionante logo no primeiro ato, utilizando a escrita dos votos de casamento como dispositivo narrativo para reconstruir a trajetória do casal. Em poucos minutos, o espectador já está emocionalmente investido, muito graças à química magnética entre Zendaya e Pattinson. Há um humor sutil e inteligente nos cortes e elipses, que flerta com o constrangimento e antecipa o terreno instável que o filme irá explorar.

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Mas é no segundo ato que O Drama revela sua verdadeira proposta. Sem recorrer a choques gratuitos, o longa introduz um elemento que reconfigura tudo o que vimos até então e mergulha seus personagens — e o público — em um dilema moral quase insuportável. A pergunta que paira no ar é simples, mas devastadora: até onde vai o amor quando confrontado com a pior versão de quem está ao seu lado?

O roteiro não oferece respostas fáceis, e esse é talvez seu maior trunfo. Em vez disso, constrói uma espiral de situações que oscilam entre o cômico e o angustiante, explorando o comportamento humano diante do julgamento coletivo. Há ecos claros da cultura de internet — fofocas, cancelamentos, moralidade performática — que contaminam as relações pessoais dos personagens, transformando um conflito íntimo em um espetáculo social.

No campo das atuações, Zendaya entrega uma performance segura e multifacetada, explorando camadas de vulnerabilidade e controle, enquanto sua personagem utiliza até mesmo sua deficiência auditiva como elemento narrativo, influenciando a forma como o som é trabalhado no filme. Ainda assim, é Robert Pattinson quem rouba a cena em diversos momentos, construindo um personagem que desmorona lentamente diante das próprias inseguranças e contradições. Seu Charlie é desconfortavelmente humano, alguém que oscila entre empatia e autopreservação, refletindo dilemas que dificilmente têm resolução simples.

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Tecnicamente, O Drama também impressiona. A fotografia de Arseni Khachaturan aposta em um estilo mais naturalista, que reforça a sensação de intimidade, enquanto a montagem — novamente assinada por Borgli — brinca com tempo e possibilidades, inserindo memórias e projeções futuras de forma criativa e até divertida. Esses elementos ajudam a ampliar o alcance emocional da história, sem jamais torná-la pesada demais.

Outro ponto alto é a forma como o filme dialoga com o mundo contemporâneo. Sem precisar escancarar suas intenções, O Drama captura com precisão a dinâmica das relações modernas, influenciadas por julgamentos rápidos, moralidades frágeis e a constante necessidade de validação social. Há uma crítica sutil, mas extremamente eficaz, à forma como lidamos com os erros — nossos e dos outros — em um cenário cada vez mais exposto.

E o mais interessante é que, mesmo lidando com temas delicados, o filme nunca perde seu lado divertido. Há uma leveza inesperada na forma como Borgli conduz a narrativa, permitindo que o público ria, se identifique e, ao mesmo tempo, reflita sobre situações que poderiam facilmente acontecer na vida real.

Pra finalizar, O Drama é menos sobre o segredo que move sua trama e mais sobre o que fazemos com ele. Em um mundo onde todos parecem prontos para apontar o dedo, Borgli entrega um filme que nos obriga a olhar para dentro e questionar nossos próprios limites. E talvez esse seja o maior mérito dessa experiência: sair da sessão sem respostas, mas com perguntas que insistem em ficar.

Critica - O Drama
Ótimo 4
Nota Cinesia 4 de 5
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