O Diabo Veste Prada 2 | O Retorno Triunfante da Runway em Tempos de Like e Caos Digital

Danilo de Oliveira
6 Min de Leitura
20th Century Studios/Reprodução
4 Ótimo
Critica - O Diabo Veste Prada 2

Há exatamente duas décadas, o diretor David Frankel entregava ao mundo um clássico instantâneo que definiria o zeitgeist da moda e do jornalismo no início do milênio. O Diabo Veste Prada (2006) não foi apenas um filme; foi um fenômeno cultural que imortalizou a relação conturbada entre a ingênua Andy Sachs e a impiedosa Miranda Priestly. Vinte anos depois, a expectativa para uma sequência era um misto de euforia e receio — afinal, como mexer em uma obra tão sagrada sem estragar o legado? Para a nossa sorte, Frankel retorna à cadeira de direção em O Diabo Veste Prada 2, provando que o magnetismo daquela redação continua tão afiado quanto um salto agulha.

A trama nos transporta vinte anos após o fim do primeiro filme. Andy (Anne Hathaway), agora uma jornalista de prestígio, enfrenta o cenário desolador da profissão: veículos impressos desaparecendo e o jornalismo tradicional respirando por aparelhos. Após um reviravolta na carreira e um discurso potente sobre a importância da comunicação, ela é recontratada pela revista Runway por Irv Ravitz (Tibor Feldman) para uma posição especial. O objetivo? Ajudar Miranda Priestly (Meryl Streep) a salvar a revista de um escândalo iminente e recuperar a credibilidade da marca em um mercado dominado por cliques e egos inflados.

20th Century Studios/Reprodução

O grande trunfo desta sequência-legado é o amadurecimento orgânico dos personagens. Meryl Streep, indicada ao Oscar pelo papel em 2007, oferece uma Miranda mais humanizada e constrita, forçada a navegar no “politicamente correto” para evitar o escrutínio público, mas sem perder sua essência ácida e gélida. É fascinante ver a editora-chefe tentando não ser tão… “direta” em um mundo que não tolera mais o seu terrorismo psicológico habitual. Hathaway, por sua vez, exala carisma ao apresentar uma Andy madura, que ainda luta pela integridade do ofício jornalístico em meio ao sucateamento da área.

O elenco de apoio continua sendo um dos pilares mais sólidos. Stanley Tucci mantém Nigel como uma presença magnética, embora o roteiro não explore todo o potencial emocional do personagem, especialmente considerando eventos do primeiro filme. Já Emily Blunt entrega uma Emily afiada e divertida como sempre, mesmo que sua participação pareça, em alguns momentos, deslocada da narrativa principal.As adições ao elenco, como Lucy Liu e Kenneth Branagh, trazem peso, mas acabam passando de forma apressada pelo roteiro. Destaque especial para a participação de Lady Gaga, que interpreta a si mesma e assina canções vibrantes como “Runway” e “Shape of a Woman”.

20th Century Studios/Reprodução

No campo técnico, Frankel acerta ao modernizar a estética sem perder o glamour. O choque intergeracional provocado pela presença das mídias sociais e influenciadores traz um frescor necessário, servindo de base para camadas dos personagens que o longa de 2006 não pôde explorar.

Narrativamente, o filme encontra força nos reencontros e nas tensões internas da Runway, mas tropeça ao tentar abraçar temas demais sem aprofundá-los. A crítica à cultura digital, aos influenciadores e à superficialidade das métricas de engajamento está presente, mas raramente ganha o desenvolvimento necessário para se tornar realmente incisiva. Existe uma sensação constante de que o roteiro prefere a leveza e o charme à confrontação mais direta — o que funciona para manter o tom acessível, mas limita o impacto dramático.

20th Century Studios/Reprodução

No campo das analogias, o longa funciona quase como um espelho do próprio mercado que retrata. Assim como a Runway luta para se manter relevante, o próprio filme parece consciente de sua posição como sequência tardia em uma indústria saturada de continuações. Há um diálogo implícito entre forma e conteúdo: sobreviver exige adaptação, mas sem perder identidade. Nem sempre essa equação é resolvida com perfeição, mas o esforço é evidente.

No fim, O Diabo Veste Prada 2 cumpre o que promete: é uma carta de amor aos fãs e ao filme original. Ele equilibra com maestria a nostalgia de ver o “quarteto de ouro” reunido com uma visão otimista e esperançosa sobre a dedicação profissional. Os figurinos icônicos continuam presentes, a química do elenco é infalível e o plot modernizado garante que a história permaneça relevante para as novas gerações. A sequência é um presente luxuoso que respeita o passado enquanto olha para o futuro. É impossível não abrir um sorriso ao reencontrar Andy e Miranda, especialmente quando o filme se recusa a se levar a sério demais, atingindo exatamente o ponto ideal entre o entretenimento despojado e a celebração de um clássico. Como diria a própria Miranda: “É só isso”. E, acredite, desta vez isso é mais do que suficiente.

Critica - O Diabo Veste Prada 2
Ótimo 4
Nota Cinesia 4 de 5
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