Se alguém em uma roda de amigos disser, aleatoriamente, a frase “Pelos poderes de Greyskull”, qualquer adulto que tenha crescido entre os anos 1980 e 1990 vai completar sem pensar duas vezes: “Eu tenho a força!”. Esse tipo de reação é uma demonstração da potência de He-Man e os Defensores do Universo, título dado ao desenho animado no Brasil, que marcou profundamente a infância de gerações passadas e sobrevive ao tempo de maneira carinhosa. Por quase duas décadas, Hollywood tentou dar uma nova roupagem a essa mitologia nas telonas, enfrentando um verdadeiro “infierno de desenvolvimento” com diretores, roteiristas e atores — como Noah Centineo — abandonando o barco pelo caminho. A grande questão sempre foi como capturar a essência efervescente e assumidamente bizarra da animação oitentista para os dias atuais sem soar ridículo. Quem finalmente assumiu a missão de traduzir esse universo foi o diretor Travis Knight, um fã confesso do material original, que reestruturou o projeto do zero para entregar uma aventura que abraça a cafonice clássica com a tecnologia moderna.
A trama acompanha Adam, príncipe de Eternia, que ainda criança é separado de seu reino após uma devastadora invasão liderada pelo terrível Esqueleto. Enviado para a Terra como última esperança de sobrevivência, ele cresce longe de suas origens carregando um sentimento constante de deslocamento e pertencimento. Quando a guerreira Teela surge para resgatá-lo e levá-lo de volta para seu mundo natal, Adam descobre que precisa assumir seu verdadeiro destino e reivindicar o poder da lendária Espada de Grayskull para impedir que Eternia mergulhe definitivamente na escuridão. O que se segue é uma jornada clássica de autodescoberta, heroísmo e amadurecimento, construída com o mesmo espírito aventuresco que marcou as produções fantásticas das décadas de 1980 e 1990.

O maior mérito do filme está justamente em compreender aquilo que muitas adaptações recentes esquecem: não há motivo para ter vergonha do material original. Travis Knight abraça completamente a essência de He-Man. Ao invés de tentar transformar a franquia em algo excessivamente sombrio ou realista, o diretor entende que parte do charme do personagem está justamente em sua natureza extravagante. Eternia surge como um universo vibrante, colorido e repleto de personalidade, funcionando quase como uma carta de amor aos desenhos animados da infância de milhões de espectadores.
Visualmente, o longa impressiona. A direção de arte cria cenários grandiosos que ajudam a expandir a mitologia do universo, enquanto os figurinos fazem um esforço admirável para transportar para o live-action o visual icônico dos personagens. Em uma época em que muitos blockbusters parecem visualmente homogêneos, Mestres do Universo se destaca justamente por sua identidade estética única. Há uma coragem rara em apresentar um filme que aceita ser fantasioso, exagerado e até um pouco brega. A transformação do herói é um deleite visual impagável: exagerada, colorida, cheia de músculos e sensualidade, prestando homenagem às sequências de “meninas mágicas” como Sailor Moon.

Nicholas Galitzine encontra um equilíbrio interessante entre vulnerabilidade e heroísmo ao interpretar Adam. O ator entende que sua versão do personagem precisa funcionar antes como um jovem em busca de identidade do que como uma máquina de combate. Seu carisma sustenta boa parte da narrativa e torna convincente sua evolução até assumir o manto de He-Man. Camila Mendes também entrega uma Teela forte, determinada e cheia de presença, formando uma dupla que funciona muito bem em cena.
Mas quem rouba a atenção em diversos momentos é Jared Leto como Esqueleto. Em vez de buscar um vilão excessivamente sério, o ator abraça a teatralidade da figura clássica. Seu desempenho alterna entre o ameaçador e o canastrão na medida certa, criando uma interpretação que parece saída diretamente da animação original. Alison Brie, como Maligna, também demonstra enorme potencial, embora o roteiro lhe ofereça menos espaço do que ela merece.

Por trás das batalhas e criaturas fantásticas, o filme também tenta explorar temas contemporâneos. A jornada de Adam funciona como uma reflexão sobre identidade, masculinidade e responsabilidade. Diferente da imagem quase caricatural do herói musculoso dos anos 80, esta versão questiona constantemente o que significa ser forte. A resposta encontrada pelo roteiro passa menos pela força física e mais pela capacidade de compreender seus próprios erros, dialogar e liderar. É uma atualização inteligente para um personagem que poderia facilmente parecer datado nas mãos erradas.
Entretanto, nem tudo funciona com a mesma eficiência. O roteiro demonstra dificuldade para equilibrar seus dois lados principais: a aventura épica e a comédia nostálgica. Existem momentos em que o filme parece caminhar para uma fantasia grandiosa no estilo O Senhor dos Anéis, enquanto em outros abraça uma leveza quase cartunesca. Essa indecisão afeta o ritmo da narrativa, especialmente em sua segunda metade. Com mais de duas horas de duração, algumas sequências se tornam repetitivas e poderiam ter sido condensadas sem prejuízo para a história.
Essa indecisão explode na montagem das cenas de ação: em uma perseguição na Terra, a ótima trilha sonora salta abruptamente do rock psicodélico para uma música de tensão genérica em poucos segundos, o que, somado a efeitos especiais nem sempre convincentes, dilui um pouco da magia do momento.

Ainda assim, esses tropeços não são suficientes para diminuir o impacto geral da experiência. Existe uma sinceridade contagiante em cada decisão criativa tomada por Travis Knight. O diretor claramente compreende o valor emocional que He-Man possui para gerações de fãs e faz de tudo para preservar essa herança sem impedir que novos espectadores encontrem seu próprio caminho até Eternia.
Pra finalizar, Mestres do Universo é exatamente o tipo de adaptação que os admiradores do personagem sonhavam ver há décadas. Travis Knight conseguiu equilibrar com sucesso a nostalgia direcionada aos millennials com piadas inteligentes sobre diferenças de gerações, permitindo que o público jovem compreenda perfeitamente a importância da obra original. É um blockbuster conscientemente cafona, exagerado, divertido e transbordando de alto-astral. Uma homenagem honesta que garante boas risadas e que se encerra com duas cenas pós-créditos bombásticas capazes de deixar qualquer fã saudosista ensandecido e pronto para gritar que a força está de volta.


