Nos últimos anos, o cinema infantil vem flertando cada vez mais com o gótico leve e o “terror de bolso”, trazendo para o público jovem histórias que misturam o sombrio e o encantador. De O Estranho Mundo de Jack a ParaNorman, há uma longa tradição de filmes que ensinam sobre empatia, diferença e pertencimento — tudo isso envolto em um visual de castelos sombrios, cientistas malucos e criaturas de bom coração. É exatamente essa tradição que Frankie e os Monstros (2025), dirigido por Steve Hudson, tenta reviver com sua doçura costurada à mão.
Inspirado no livro infantil Stitch Head de Guy Bass, o longa apresenta Frankie, a primeira criação esquecida de um professor excêntrico que vive isolado em seu castelo gótico. Leal e sempre obediente, Frankie passa os dias cuidando das invenções do mestre e mantendo o castelo em ordem — até que um circo dos horrores chega à cidade, oferecendo-lhe algo que ele sempre sonhou: amor, fama e reconhecimento. O monstrinho então se vê dividido entre permanecer no anonimato do castelo ou arriscar-se no mundo em busca de aceitação.

Hudson transforma o mito de Frankenstein em uma jornada infantil sobre autodescoberta. Frankie é uma versão carismática da criatura de Mary Shelley, mas aqui o horror dá lugar à inocência. O visual artesanal, com texturas que lembram animações “caseiras”, combina com o tom da história — um conto sobre o valor de se sentir parte de algo. Apesar de suas limitações técnicas em relação a produções hollywoodianas, há um charme europeu no design e na direção de arte que faz tudo parecer feito com carinho.
O grande trunfo de Frankie e os Monstros é seu equilíbrio entre o humor e a melancolia, apresentando personagens desajeitados, mas cativantes. Asa Butterfield (voz original de Frankie) empresta uma vulnerabilidade doce ao protagonista, tornando-o impossível de não gostar. A ambientação, que mistura castelos sombrios e vilarejos vitorianos, funciona como uma homenagem sincera aos filmes de monstros clássicos.

Por outro lado, o roteiro segue caminhos previsíveis, repetindo fórmulas conhecidas de mensagens sobre aceitação e amizade. A narrativa carece de momentos que realmente surpreendam — especialmente para o público mais velho, que já viu variações dessa história em animações como Hotel Transilvânia ou Coraline. O humor, embora simpático, é excessivamente infantil e pode não segurar o interesse dos pais que acompanharem os filhos ao cinema.
Apesar das falhas, Frankie e os Monstros conquista por sua sinceridade e por relembrar às crianças que ser diferente é o que nos torna únicos. A mensagem de que o verdadeiro monstro é o egoísmo humano — e não as criaturas que fogem do padrão — é entregue de forma delicada e acessível.

No fim, Frankie e os Monstros é uma animação charmosa, visualmente encantadora e emocionalmente honesta, ainda que sem a ousadia de seus antecessores góticos. Funciona bem como porta de entrada para o universo das histórias sombrias, mas com coração de sobra. Um filme ideal para os pequenos que ainda acreditam que monstros também podem ser heróis — e para os adultos que se permitem um pouco de nostalgia.


