A Queda 2: No Limite mantém a tensão das alturas, mas tropeça ao repetir a fórmula do original

A Queda 2: No Limite entrega boas cenas de suspense e atuações convincentes, mas sofre com um roteiro previsível que não supera o filme original.

Danilo de Oliveira
7 Min de Leitura
Paris Filmes/Reprodução
3 Bom
Crítica - A Queda 2

Poucos imaginavam que A Queda, lançado em 2022, se transformaria em um dos thrillers de sobrevivência mais comentados dos últimos anos. Produzido com um orçamento modesto, estimado em US$ 3 milhões, o longa dirigido por Scott Mann conquistou o público apostando em uma premissa extremamente simples: duas mulheres presas no topo de uma torre de mais de 600 metros de altura. A combinação entre medo de altura, suspense constante e um roteiro eficiente transformou o filme em um sucesso inesperado, garantindo boa repercussão nas bilheterias e nas plataformas digitais. O resultado abriu caminho para uma sequência que, inevitavelmente, precisava justificar sua existência.

Em A Queda 2: No Limite, os diretores Michael Spierig e Peter Spierig abandonam a famosa torre do primeiro filme para levar o perigo às montanhas da Tailândia. A protagonista agora é Jax Hunter (Harriet Slater), que ainda tenta superar o trauma da morte da irmã, Shiloh. Ao lado de Luce (Arsema Thomas), antiga amiga da irmã, ela aceita participar de uma arriscada travessia pelas estruturas instaladas no Monte Kwan. O que deveria ser uma aventura radical rapidamente se transforma em um pesadelo quando um deslizamento destrói parte do percurso, deixando as duas isoladas a milhares de metros de altura, obrigadas a enfrentar o ambiente hostil enquanto procuram desesperadamente uma forma de sobreviver.

A mudança de cenário é suficiente para dar uma identidade visual diferente à sequência, mas não altera a essência da franquia. A sensação de vulnerabilidade continua sendo o grande motor da narrativa. Assim como no primeiro filme, a direção trabalha constantemente com a percepção de profundidade, utilizando enquadramentos vertiginosos e movimentos de câmera que exploram o medo instintivo da queda livre. Para quem sofre de acrofobia, várias sequências continuam sendo extremamente eficientes em provocar desconforto físico.

Paris Filmes/Reprodução

Os irmãos Spierig entendem que o verdadeiro antagonista continua sendo a altura. Em diversos momentos, o suspense nasce menos da ameaça de um vilão e mais da fragilidade humana diante da natureza. Cada passo sobre uma estrutura instável, cada pedra que desliza ou simples mudança climática reforçam uma tensão quase permanente. A fotografia de Andrew Strahorn também merece destaque ao aproveitar as paisagens montanhosas da Tailândia para criar um contraste interessante entre a beleza natural e o perigo constante. O resultado é um filme visualmente bonito, que sabe utilizar o espaço para ampliar a sensação de isolamento.

As atuações ajudam a sustentar esse clima. Harriet Slater entrega uma protagonista convincente, principalmente ao explorar o luto e o desgaste emocional de alguém que precisa enfrentar um trauma enquanto luta pela própria vida. Já Arsema Thomas estabelece uma boa química com Slater, fazendo com que a relação entre as duas funcione como o principal pilar emocional da narrativa. Ainda que o roteiro não aprofunde completamente suas personagens, ambas conseguem transmitir o desespero necessário para tornar diversas situações mais críveis.

Entretanto, é justamente no roteiro que A Queda 2: No Limite encontra seu maior obstáculo. Depois do impacto causado pelo primeiro filme, a continuação parece excessivamente confortável em repetir praticamente a mesma estrutura narrativa. O cenário mudou, mas os conflitos, os desafios e até mesmo a progressão dramática seguem caminhos bastante familiares. Para quem assistiu ao original, boa parte dos acontecimentos se torna previsível logo nos primeiros minutos.

Paris Filmes/Reprodução

Essa previsibilidade também afeta algumas decisões das protagonistas. Em vários momentos, determinadas escolhas parecem existir apenas para prolongar a situação de risco, ainda que desafiem a lógica. Em vez de aumentar o envolvimento emocional, essas atitudes acabam gerando certo distanciamento do espectador, que frequentemente questiona se parte daquele sofrimento poderia ter sido evitada.

Na tentativa de oferecer novidades, o roteiro assinado por Jonathan Frank e Scott Mann reserva algumas revelações para o terceiro ato. Embora algumas funcionem como pequenas surpresas, poucas conseguem alterar significativamente a experiência. A sensação é de que esses elementos foram inseridos mais para justificar a existência da sequência do que para expandir naturalmente a história iniciada em 2022.

Tecnicamente, o filme apresenta altos e baixos. A trilha sonora de Tim Despic, combinada com uma excelente construção sonora baseada em estalos, pedras despencando, vento intenso e longos momentos de silêncio, reforça constantemente a tensão. Por outro lado, alguns efeitos visuais deixam evidente o uso de computação gráfica, especialmente nas cenas mais amplas envolvendo desmoronamentos e panorâmicas da montanha. Em determinados momentos, a artificialidade das imagens reduz a sensação de perigo que o primeiro longa conseguia transmitir de forma muito mais convincente.

Paris Filmes/Reprodução

Existe ainda uma analogia interessante sobre como lidamos com nossos traumas. Se no primeiro filme a torre representava o processo de superação da culpa e da perda, aqui a montanha simboliza um novo obstáculo emocional: seguir em frente depois de uma tragédia. O problema é que essa camada dramática nunca recebe o desenvolvimento necessário para ganhar o mesmo peso do suspense físico. A sobrevivência acaba ocupando quase todo o espaço da narrativa, deixando o arco emocional em segundo plano.

Pra finalizar, A Queda 2: No Limite permanece competente naquilo que se propõe. Continua sendo um thriller capaz de provocar ansiedade, especialmente para quem possui medo de altura, graças à boa direção, à fotografia eficiente e ao trabalho sólido de suas protagonistas. Ainda assim, a sequência nunca encontra um motivo realmente convincente para existir além do sucesso comercial do primeiro filme.

Para os fãs de histórias de sobrevivência e suspense, o longa certamente oferece momentos de tensão suficientes para justificar a sessão. No entanto, fica evidente que A Queda já havia explorado essa proposta de maneira muito mais criativa e impactante. A continuação diverte, prende a atenção e entrega bons momentos de aflição, mas termina reforçando uma sensação inevitável: algumas histórias funcionam melhor justamente porque sabem onde terminar.

Crítica - A Queda 2
Bom 3
Nota Cinesia 3 de 5
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