Nos últimos anos, a DreamWorks vive uma das fases mais criativas de sua história. Depois de elevar o padrão de suas animações com obras como Gato de Botas 2: O Último Pedido e Os Caras Malvados, o estúdio abandonou de vez a zona de conforto para apostar em produções visualmente ousadas e narrativas emocionalmente mais maduras. Em vez de competir apenas pelo espetáculo, a empresa passou a investir em histórias que equilibram entretenimento, identidade artística e mensagens universais. Esse novo momento criou uma expectativa enorme para cada lançamento, e A Ilha Esquecida chega justamente com a missão de provar que esse excelente momento não foi apenas um acaso. Felizmente, o longa faz muito mais do que cumprir essa tarefa: entrega uma aventura encantadora que reafirma a DreamWorks como uma das grandes referências da animação contemporânea.
Ambientada nas Filipinas durante a década de 1990, a história acompanha Jo e Raissa, duas melhores amigas que enfrentam um dos momentos mais difíceis da adolescência: a iminente separação após o fim do ensino médio. Enquanto Raissa está prestes a se mudar para os Estados Unidos para iniciar uma nova etapa de sua vida, Jo ainda tenta lidar com a perda recente da avó e com o medo de ficar para trás. O que parecia ser apenas a última noite juntas toma um rumo completamente inesperado quando ambas são transportadas para Nakali, uma ilha mítica povoada pelas criaturas fantásticas das histórias que ouviam na infância. Sem saber como chegaram até ali e com suas memórias comprometidas, elas precisam encontrar o caminho de volta enquanto descobrem que preservar a amizade talvez seja a missão mais importante de toda aquela jornada.

A primeira grande qualidade do filme está justamente na construção dessa relação entre as protagonistas. Antes mesmo de apresentar qualquer criatura fantástica ou iniciar sua aventura, a direção dedica um tempo precioso para estabelecer o vínculo entre Jo e Raissa. Uma montagem inspirada na linguagem dos animes acompanha o crescimento das duas amigas através dos anos, mostrando como pequenos momentos cotidianos foram suficientes para construir uma amizade inseparável. Esse cuidado faz toda a diferença, porque quando a narrativa passa a colocar essa relação em risco, o espectador já está completamente investido emocionalmente.
Joel Crawford e Januel Mercado, que já haviam demonstrado enorme sensibilidade em Gato de Botas 2, voltam a impressionar pela forma como unem emoção e espetáculo visual. A direção entende perfeitamente que cada escolha estética precisa dialogar com o estado emocional das personagens. Antes mesmo da chegada à ilha, o cotidiano filipino já é representado com cores vibrantes, enquadramentos dinâmicos e expressões exageradas que remetem diretamente à linguagem dos animes japoneses. Quando Nakali finalmente surge diante dos olhos das protagonistas, essa liberdade artística explode em criatividade.

A direção de arte talvez seja o aspecto mais impressionante de toda a produção. Nakali não parece apenas um cenário fantástico; ela transmite a sensação de ser um organismo vivo. Árvores gigantes, criaturas mitológicas, cogumelos guerreiros, animais desproporcionais e paisagens que desafiam completamente qualquer lógica criam um universo rico, caótico e incrivelmente fascinante. Cada novo ambiente desperta curiosidade, reforçando a sensação de descoberta constante que acompanha toda a aventura.
Essa liberdade visual também dialoga diretamente com a nova tendência das grandes animações contemporâneas. Assim como fizeram Homem-Aranha no Aranhaverso, As Tartarugas Ninja: Caos Mutante e o próprio Gato de Botas 2, A Ilha Esquecida abandona o compromisso com o realismo para abraçar uma identidade visual própria. O resultado é uma animação extremamente expressiva, que mistura 3D com elementos bidimensionais, altera estilos durante os flashbacks e utiliza a própria linguagem visual como ferramenta narrativa para representar memórias, sentimentos e imaginação.

Outro grande acerto está no excelente elenco de personagens secundários. Bungi, Raw e o vaidoso Príncipe Sereio rapidamente deixam de ser simples alívios cômicos para se tornarem peças importantes da narrativa. Cada criatura possui personalidade própria, função dramática e contribui para ampliar a mitologia daquele universo sem parecer apenas uma sucessão de mascotes criados para vender brinquedos. Existe um cuidado admirável na construção desse ecossistema fantástico, onde até mesmo os habitantes mais excêntricos possuem espaço para desenvolver suas próprias características.
A mesma criatividade aparece na construção da vilã Manananggal, inspirada diretamente no folclore filipino. Seu design é um dos mais marcantes da DreamWorks nos últimos anos e representa uma ameaça genuína para as protagonistas. Sua presença constante cria uma tensão eficiente ao longo da jornada, reforçando que a aventura não depende apenas de momentos cômicos para manter o interesse do público.
Mas talvez o maior mérito do filme seja sua camada emocional. Embora funcione perfeitamente como uma aventura fantástica, A Ilha Esquecida fala, acima de tudo, sobre memória. O roteiro utiliza esse elemento para discutir algo profundamente humano: o medo de que pessoas importantes desapareçam das nossas vidas com o passar do tempo. A ilha transforma esse sentimento em fantasia ao fazer das lembranças um recurso concreto, capaz de definir quem somos e aquilo que carregamos dentro de nós. A metáfora funciona de maneira delicada e nunca soa excessivamente didática, permitindo que crianças e adultos encontrem significados diferentes ao longo da experiência.

Ainda assim, o longa não escapa completamente de alguns tropeços. O segundo ato sofre com um ritmo ligeiramente irregular. A quantidade de criaturas, novos cenários e eventos apresentados em sequência faz com que determinados momentos pareçam sobrecarregados de informação. Da mesma forma, algumas gags permanecem em cena além do necessário, interrompendo pequenos momentos de maior impacto emocional.
Felizmente, esses pequenos desequilíbrios jamais comprometem a força do conjunto. Conforme a jornada avança e todas as peças finalmente se encaixam, A Ilha Esquecida entrega um terceiro ato emocionante que recompensa toda a construção realizada desde os primeiros minutos. A aventura transforma o medo da separação em uma poderosa reflexão sobre crescimento, amadurecimento e as marcas que as pessoas deixam umas nas outras ao longo da vida.
No fim das contas, A Ilha Esquecida consolida a excelente fase criativa da DreamWorks ao unir uma identidade visual extraordinária, personagens extremamente carismáticos e uma história que emociona sem abrir mão da diversão. O longa encanta pela criatividade, celebra com enorme respeito a cultura filipina e transforma uma aventura fantástica em uma delicada reflexão sobre amizade, memória e pertencimento. É mais uma prova de que o estúdio encontrou um novo caminho artístico — e, se continuar produzindo obras desse nível, seu futuro promete ser tão brilhante quanto os mundos fantásticos que continua criando.


