Dirigido por Jorge Furtado, em Muito Prazer, Rubem (Daniel de Oliveira), um motorista de aplicativo sem perspectivas, recebe uma herança inesperada: o Motel Pérola, que logo descobre ser um prédio em ruínas. Lá ele conhece Grace (Luisa Arraes), ex-funcionária que ficou morando numa das suítes quando o motel fechou. Sem conseguir vender o imóvel e atolados em dívidas, Grace e Rubem unem-se para reativar o motel. Quase de brincadeira, com a ajuda de Nalva (Samantha Jones), que sabe tudo de internet, eles começam a gravar seus clientes e, para fazer algum dinheiro extra, a vender os vídeos, com identidades protegidas, para sites eróticos. O esquema se torna rapidamente lucrativo e, como era de se esperar, perigoso.

A parte mais interessante – e impressionante! – do filme é como o roteiro consegue tornar o absurdo dessa situação algo, de certa forma, natural. É muito inteligente, muito divertido e muito dinâmico. O trio principal não é o vilão da história, nenhum deles ali é ruim, eles apenas racionalizam decisões criminosas enquanto nos entregam humor suave, romance discreto e diferentes mini crises – financeira, emocional e por aí vai.
É uma história que te surpreende diversas vezes, porque não é o que esperamos de um filme que vai falar sobre pornografia online. O assunto é espinhoso e se trata de um mundo perverso e cruel, mas aí é que entra a magia do cinema… Muito Prazer é um filme de ficção que se compromete apenas parcialmente com a realidade. Então sim, é crime eles filmarem pessoas em um motel e ganharem dinheiro com esses vídeos, mas você ainda vai torcer por eles porque a história é construída com esse objetivo.

O filme é recheado de críticas sociais em suas entrelinhas, que se mostram de forma escancarada quando quem assiste fica um pouco chocado com os acontecimentos. O que torna a trama crível, apesar de todos os crimes que os personagens cometem de forma sucessiva, é que nada dos que eles fazem é feito sem questionamentos e hesitações. Eles entendem que os que estão fazendo é errado, ponderam, argumentam e decidem fazer do mesmo jeito.
É um filme, acima de tudo, muito humano, sobre a consciência humana e sua enorme flexibilidade: eles precisam de dinheiro e a pornografia online rende dinheiro de forma relativamente fácil e encontram ali a solução para os problemas. E fazem isso nos divertindo e em meio a pensamentos controversos. Ainda é crime, sabemos que é crime, eles sabem que é um crime, mas é um filme, então acabamos torcendo pelos personagens de qualquer jeito – é fácil, inclusive, ignorar os desfechos facilitados pelo roteiro.
É um filme divertido e inteligente muito gostoso de assistir.


