Cangaço Novo (2023) | A obra-prima do Prime Video que reinventa o cangaço e entrega o melhor drama brasileiro dos últimos anos

Danilo de Oliveira
6 Min de Leitura
Prime Video/Reprodução
4.5 Excelente
Critica - Cangaço Novo: Temporada 1

Nos últimos anos, o audiovisual brasileiro encontrou nas plataformas de streaming um espaço não apenas de exibição, mas de afirmação. Serviços como o Prime Video vêm impulsionando produções nacionais que dialogam com o público contemporâneo, explorando gêneros diversos enquanto mergulham em críticas sociais urgentes. Nesse cenário, o Brasil tem revisitado suas próprias raízes narrativas, reformulando gêneros clássicos à luz das tensões atuais — algo que o faroeste já fez ao longo da história e que, por aqui, ganha contornos únicos no chamado “nordestern”. É justamente nesse ponto de interseção entre tradição e modernidade que Cangaço Novo surge como um verdadeiro divisor de águas.

A série acompanha Ubaldo, um bancário falido que vive à margem em São Paulo e retorna ao interior do Ceará após descobrir que é herdeiro de um lendário cangaceiro. Em Cratará, uma cidade fictícia que parece mais real do que muitas existentes, ele se reconecta com suas irmãs — Dinorah e Dilvânia — e acaba sendo arrastado para o universo de um grupo de assaltantes de banco que ressignifica o cangaço em pleno século XXI. Dividido entre sua moralidade e o peso de sua herança, Ubaldo mergulha em um ciclo de violência, pertencimento e transformação que revela muito mais do que uma simples história de crime.

Sob a direção de Fábio Mendonça e Aly Muritiba, a série demonstra um domínio impressionante de linguagem. Há uma consciência clara de que o cangaço, enquanto fenômeno histórico, sempre foi atravessado por questões políticas, sociais e econômicas — algo que já ecoava em obras como Deus e o Diabo na Terra do Sol — e que aqui é atualizado com uma contundência rara. A narrativa parte de um drama íntimo e vai expandindo seu escopo até alcançar dimensões coletivas, abordando temas como desigualdade, coronelismo moderno, exploração de recursos e abandono estatal.

Prime Video/Reprodução

O grande trunfo de Cangaço Novo está em seu elenco absolutamente irretocável. Allan Souza Lima constrói um Ubaldo que transita entre contenção e explosão, refletindo um homem em constante conflito interno. Alice Carvalho entrega uma Dinorah intensa, imprevisível e magnética — uma personagem que carrega nas veias a revolta de quem nunca teve escolha. Já Thainá Duarte impressiona profundamente ao interpretar Dilvânia com um silêncio ensurdecedor, provando que a ausência de fala pode ser uma das ferramentas mais poderosas da atuação. O trio central é acompanhado por um elenco coadjuvante igualmente sólido, incluindo nomes como Marcélia Cartaxo, que elevam ainda mais o nível dramático da obra.

Tecnicamente, a série é um espetáculo. A fotografia alterna entre o calor opressor do sertão e momentos em preto e branco que evocam memória e mito, enquanto a direção de ação entrega algumas das sequências mais tensas já vistas na televisão brasileira. Os assaltos são coreografados com precisão cirúrgica, funcionando não apenas como set pieces eletrizantes, mas como extensões do desenvolvimento dos personagens. Há um cuidado minucioso na construção de cada detalhe — das locações ao figurino, da trilha sonora ao ritmo narrativo — criando uma imersão que raramente se vê em produções nacionais.

Prime Video/Reprodução

Mas talvez o aspecto mais fascinante de Cangaço Novo seja sua capacidade de trabalhar analogias sem nunca simplificar suas questões. A série dialoga diretamente com o conceito de “banditismo social”, questionando se a violência é uma escolha ou uma consequência. Ao mesmo tempo em que remete a fenômenos históricos do cangaço, também ecoa narrativas contemporâneas como La Casa de Papel, especialmente na forma como humaniza seus criminosos e tensiona a relação entre público e moralidade. Ainda assim, a produção evita romantizações fáceis, mostrando que a linha entre oprimido e opressor é perigosamente tênue.

Se há críticas a serem feitas, elas residem mais no excesso do que na falta. Em determinados momentos, a série se alonga em subtramas que poderiam ser mais enxutas, e algumas escolhas narrativas beiram a repetição. No entanto, esses pequenos deslizes não diminuem o impacto geral da obra, que se mantém coesa e poderosa do início ao fim.

Pra finalizar, Cangaço Novo se consolida como uma das obras mais impactantes do audiovisual brasileiro recente. Com atuações memoráveis, direção segura e um texto afiado, a série entrega um verdadeiro soco no estômago — daqueles que incomodam, provocam e permanecem na mente muito depois dos créditos finais. É a prova de que o Brasil não apenas tem histórias potentes para contar, mas também talento de sobra para contá-las com excelência.

Critica - Cangaço Novo: Temporada 1
Excelente 4.5
Nota Cinesia 4.5 de 5
Share This Article