O Morro dos Ventos Uivantes (2026) | Paixão, polêmica e excessos na releitura ousada de Emerald Fennell

Danilo de Oliveira
8 Min de Leitura
Warner Bros./Reprodução
3.5 Muito Bom
Critica - O Morro dos Ventos Uivantes

Adaptar um clássico da literatura nunca é um gesto inocente. Quando o livro em questão é O Morro dos Ventos Uivantes, romance publicado em 1847 por Emily Brontë, a tarefa se torna ainda mais espinhosa. A obra já atravessou gerações, ganhou inúmeras leituras acadêmicas e passou diversas vezes pelo audiovisual — do clássico de 1939, com Laurence Olivier, passando pela versão de 1992, com Ralph Fiennes e Juliette Binoche, até a adaptação de 2011, estrelada por Kaya Scodelario e James Howson, a única a escalar um Heathcliff racializado.

Cada nova versão carrega consigo não apenas expectativas, mas também comparações inevitáveis, cobranças de fidelidade e, principalmente, debates sobre o que pode — ou não — ser reinterpretado. Desde o anúncio, O Morro dos Ventos Uivantes (2026), dirigido por Emerald Fennell, já vinha cercado de polêmicas: escolhas de elenco, trilha sonora pop, figurinos estilizados e uma promessa clara de não reverenciar o texto original como uma peça de museu. O resultado? Um filme que provoca, divide opiniões e deixa claro que não veio para agradar a todos.

A trama acompanha a relação turbulenta entre Catherine Earnshaw (Margot Robbie) e Heathcliff (Jacob Elordi), um órfão adotado pela família Earnshaw e criado à margem das convenções sociais da Inglaterra do século XIX. Unidos por uma paixão intensa e destrutiva, os dois desenvolvem um vínculo marcado por obsessão, orgulho, ressentimento e jogos de poder.

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Quando escolhas sociais, diferenças de classe e feridas emocionais se impõem entre eles, o romance se transforma em um ciclo de dor, vingança e autossabotagem, afetando todos ao redor — especialmente as famílias Earnshaw e Linton. Na versão de Fennell, essa história ganha contornos mais sensoriais, carnais e exagerados, assumindo a paixão como força motriz absoluta.

Emerald Fennell nunca escondeu que esta seria sua interpretação de O Morro dos Ventos Uivantes — tanto que o título do filme é apresentado quase como uma citação, um aviso prévio ao espectador. Aqui, não há compromisso com a fidelidade estrutural do romance, mas sim com uma experiência emocional extrema.

A diretora reduz a complexidade narrativa do livro para focar quase exclusivamente na relação entre Cathy e Heathcliff. O filme é menos sobre gerações, heranças e consequências sociais, e mais sobre desejo, obsessão e dependência emocional. Essa escolha torna a obra mais direta, intensa e acessível, mas também menos profunda em temas fundamentais do texto original, como raça, colonialismo, hierarquia social e violência estrutural.

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Margot Robbie entrega uma Catherine magnética, instável e sedutora. Sua Cathy é guiada pelo impulso, pela contradição e por uma necessidade quase infantil de ser amada e admirada. A atriz não tenta suavizar a personagem — pelo contrário, abraça seus excessos, sua crueldade e sua fragilidade com segurança impressionante.

Jacob Elordi, por sua vez, constrói um Heathcliff dominado pela dor e pelo ressentimento. Sua presença física ajuda a dar corpo à brutalidade emocional do personagem, e a química com Robbie é inegável. No entanto, a escolha de escalar um ator branco para um personagem historicamente racializado pesa — e pesa muito. Em uma obra em que relações de poder são centrais, essa decisão esvazia camadas importantes da narrativa e enfraquece conflitos que, em 1847, eram tudo menos simbólicos.

O elenco jovem surpreende. Charlotte Mellington e Owen Cooper, como as versões mais novas dos protagonistas, entregam performances fundamentais para a imersão emocional do público. Já no elenco de apoio, Hong Chau oferece uma Nelly Dean contida e quase deslocada, como se viesse de um filme mais clássico, enquanto Shazad Latif, como Edgar Linton, representa a racionalidade e o conforto social em contraste direto com o caos de Heathcliff.

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As cenas sensuais que causaram burburinho nos trailers não estão ali por choque gratuito. Fennell utiliza o sexo como extensão da narrativa, uma forma de comunicar intimidade, dependência e perda de controle. Em um romance sobre paixão desmedida, a ausência de desejo físico soaria artificial — especialmente em uma releitura pensada para 2026.

Visualmente, o filme é um espetáculo. A fotografia aposta em paisagens amplas, céus carregados e luz natural para criar uma atmosfera opressiva e quase febril. Os figurinos, assinados com liberdade criativa, misturam referências de época com detalhes contemporâneos e até lúdicos. Vestidos parecem saídos de um desfile conceitual, e essa estilização não é acidente: ela reforça diferenças de classe, estados emocionais e o caráter quase onírico da narrativa.

A trilha sonora, desenvolvida por Charli XCX, segue a mesma lógica de contraste. Os temas instrumentais funcionam bem, mas o uso de autotune e elementos pop pode quebrar a imersão de parte do público. Ainda assim, a escolha conversa com a proposta da diretora: um clássico filtrado por uma sensibilidade moderna, exagerada e provocativa.

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O maior mérito — e também o maior problema — de O Morro dos Ventos Uivantes (2026) é sua ousadia. Ao se afastar da literalidade do romance, Fennell cria um filme com identidade, estilo e personalidade raros em adaptações literárias recentes. Por outro lado, ao deixar de lado temas centrais da obra original, a diretora entrega uma experiência poderosa, porém limitada em alcance emocional e crítico.

A ausência de um aprofundamento psicológico mais sombrio ou de elementos sobrenaturais, mesmo que simbólicos, faz com que o filme toque a superfície de uma história que sempre foi muito mais sobre assombração — emocional, social e moral — do que apenas sobre romance.

Pra finalizar, O Morro dos Ventos Uivantes (2026) é um filme intenso, esteticamente arrebatador e emocionalmente exaustivo. Funciona como uma releitura autoral corajosa, sustentada por atuações fortes, direção estilizada e escolhas técnicas ousadas. É, sem dúvida, um bom filme — só não é, necessariamente, o filme que fãs do romance de Emily Brontë esperavam.

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Para quem não tem apego à fidelidade literária, a experiência pode ser envolvente, provocadora e até emocionante. Já os leitores mais devotos provavelmente sairão do cinema frustrados. Entre paixão e polêmica, Emerald Fennell entrega uma obra que prefere sentir demais a explicar — e, nesse excesso, encontra tanto sua força quanto suas falhas.

Critica - O Morro dos Ventos Uivantes
Muito Bom 3.5
Nota Cinesia 3.5 de 5
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