Alguns filmes de gênero — especialmente o terror — parecem nascer já com uma checklist em mãos. Uma referência aqui, outra ali, personagens reconhecíveis, uma maldição antiga e pronto: a fórmula de bolo está montada. Às vezes dá muito certo, outras vezes resulta em algo preguiçoso e esquecível. O Som da Morte caminha exatamente nessa linha tênue. Não tenta reinventar o terror, não busca subverter expectativas nem propor algo revolucionário. Em vez disso, aposta no básico bem executado — e, curiosamente, essa escolha acaba sendo seu maior trunfo.
Dirigido por Corin Hardy, cineasta que carrega no currículo o esquecível A Maldição da Floresta e o amplamente criticado A Freira, o longa surpreende por entender suas próprias limitações. Aqui, menos ambição significa mais controle.
Na trama, um grupo de adolescentes deslocados do ensino médio entra em contato com um artefato antigo e amaldiçoado: um apito mortal de origem asteca. Ao soprar o objeto e ouvir seu som perturbador, cada um deles passa a ser assombrado por visões de suas próprias mortes futuras. O que começa como curiosidade rapidamente se transforma em paranoia, medo e uma corrida contra o tempo para tentar quebrar a maldição antes que ela cobre seu preço final.

No centro da história está Chrysanthemum “Chrys” Willet (Dafne Keen), uma jovem marcada por traumas profundos, que acaba de sair da reabilitação após uma overdose e ainda lida com a perda do pai. Em uma nova cidade, tentando recomeçar a vida, ela se vê envolvida em algo muito maior — e mais mortal — do que seus próprios fantasmas internos.
As influências de O Som da Morte são claras e assumidas. A estrutura lembra Premonição 3, o conceito do objeto amaldiçoado ecoa Fale Comigo e a dinâmica entre os jovens bebe diretamente de Clube dos Cinco. O problema — ou talvez a virtude — é que o filme não tenta esconder isso. Ele aceita ser derivativo e constrói sua narrativa em cima dessa familiaridade.
Visualmente, a cinematografia aposta em tons frios, azulados e acinzentados, criando uma atmosfera melancólica que combina tanto com o terror sobrenatural quanto com o drama pessoal da protagonista. Nada aqui chama atenção pela ousadia estética, mas tudo funciona dentro da proposta. É aquele terror confortável para quem cresceu assistindo aos filmes dos anos 2000.

Dafne Keen segura bem o protagonismo. Sua Chrys é introspectiva, ferida e emocionalmente distante, e a atriz consegue transmitir esse peso sem exageros. Sky Yang, como o primo Rel, traz leveza e funciona como um respiro cômico pontual, enquanto Sophie Nélisse entrega uma Ellie discreta, mas simpática. O elenco faz exatamente o que o roteiro pede — nem mais, nem menos — até porque o texto não exige grandes desafios dramáticos.
Na direção, Corin Hardy parece mais contido do que nunca. Em vez de se apoiar em jump scares constantes, o filme aposta na antecipação e no suspense, o que é um acerto. O terror nasce mais da espera do que do susto imediato. Quando as mortes acontecem, o gore aparece de forma eficiente e bem executada, agradando fãs do terror gráfico sem transformar o filme em um festival gratuito de violência.
Narrativamente, O Som da Morte exige, sim, uma boa dose de suspensão de descrença. Algumas regras da maldição são convenientes demais, e certas decisões dos personagens parecem existir apenas para empurrar a trama adiante. Ainda assim, o ritmo se mantém sólido, e a história nunca perde completamente o controle.

Em um nível mais simbólico, o filme flerta com temas como trauma, culpa e autodestruição. A maldição funciona quase como uma metáfora para o medo constante da recaída, da morte anunciada e da sensação de que o passado sempre cobra seu preço. Não é nada profundamente explorado, mas adiciona uma camada a mais ao que poderia ser apenas um terror genérico.
O Som da Morte não é inovador, nem pretende ser. Ele é um primo menos sofisticado de suas principais referências, mas entende que, às vezes, entregar bem o feijão com arroz é melhor do que arriscar uma renovação mal calculada. Dentro da fórmula de bolo do terror adolescente, o filme acerta mais do que erra, oferece bons momentos de suspense, mortes competentes e uma atmosfera familiar que agrada quem sente falta do terror dos anos 2000.
No fim, o saldo é positivo — e até surpreendente. Não vai redefinir o gênero, mas cumpre sua função com dignidade. E, para esse tipo de filme, isso já é mais do que suficiente.


