O Som da Morte | Terror acerta ao utilizar a fórmula de bolo pronta invés de reinventar a roda

Danilo de Oliveira
6 Min de Leitura
Paris Filmes/Reprodução
3 Bom
Critica - O Som da Morte

Alguns filmes de gênero — especialmente o terror — parecem nascer já com uma checklist em mãos. Uma referência aqui, outra ali, personagens reconhecíveis, uma maldição antiga e pronto: a fórmula de bolo está montada. Às vezes dá muito certo, outras vezes resulta em algo preguiçoso e esquecível. O Som da Morte caminha exatamente nessa linha tênue. Não tenta reinventar o terror, não busca subverter expectativas nem propor algo revolucionário. Em vez disso, aposta no básico bem executado — e, curiosamente, essa escolha acaba sendo seu maior trunfo.

Dirigido por Corin Hardy, cineasta que carrega no currículo o esquecível A Maldição da Floresta e o amplamente criticado A Freira, o longa surpreende por entender suas próprias limitações. Aqui, menos ambição significa mais controle.

Na trama, um grupo de adolescentes deslocados do ensino médio entra em contato com um artefato antigo e amaldiçoado: um apito mortal de origem asteca. Ao soprar o objeto e ouvir seu som perturbador, cada um deles passa a ser assombrado por visões de suas próprias mortes futuras. O que começa como curiosidade rapidamente se transforma em paranoia, medo e uma corrida contra o tempo para tentar quebrar a maldição antes que ela cobre seu preço final.

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No centro da história está Chrysanthemum “Chrys” Willet (Dafne Keen), uma jovem marcada por traumas profundos, que acaba de sair da reabilitação após uma overdose e ainda lida com a perda do pai. Em uma nova cidade, tentando recomeçar a vida, ela se vê envolvida em algo muito maior — e mais mortal — do que seus próprios fantasmas internos.

As influências de O Som da Morte são claras e assumidas. A estrutura lembra Premonição 3, o conceito do objeto amaldiçoado ecoa Fale Comigo e a dinâmica entre os jovens bebe diretamente de Clube dos Cinco. O problema — ou talvez a virtude — é que o filme não tenta esconder isso. Ele aceita ser derivativo e constrói sua narrativa em cima dessa familiaridade.

Visualmente, a cinematografia aposta em tons frios, azulados e acinzentados, criando uma atmosfera melancólica que combina tanto com o terror sobrenatural quanto com o drama pessoal da protagonista. Nada aqui chama atenção pela ousadia estética, mas tudo funciona dentro da proposta. É aquele terror confortável para quem cresceu assistindo aos filmes dos anos 2000.

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Dafne Keen segura bem o protagonismo. Sua Chrys é introspectiva, ferida e emocionalmente distante, e a atriz consegue transmitir esse peso sem exageros. Sky Yang, como o primo Rel, traz leveza e funciona como um respiro cômico pontual, enquanto Sophie Nélisse entrega uma Ellie discreta, mas simpática. O elenco faz exatamente o que o roteiro pede — nem mais, nem menos — até porque o texto não exige grandes desafios dramáticos.

Na direção, Corin Hardy parece mais contido do que nunca. Em vez de se apoiar em jump scares constantes, o filme aposta na antecipação e no suspense, o que é um acerto. O terror nasce mais da espera do que do susto imediato. Quando as mortes acontecem, o gore aparece de forma eficiente e bem executada, agradando fãs do terror gráfico sem transformar o filme em um festival gratuito de violência.

Narrativamente, O Som da Morte exige, sim, uma boa dose de suspensão de descrença. Algumas regras da maldição são convenientes demais, e certas decisões dos personagens parecem existir apenas para empurrar a trama adiante. Ainda assim, o ritmo se mantém sólido, e a história nunca perde completamente o controle.

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Em um nível mais simbólico, o filme flerta com temas como trauma, culpa e autodestruição. A maldição funciona quase como uma metáfora para o medo constante da recaída, da morte anunciada e da sensação de que o passado sempre cobra seu preço. Não é nada profundamente explorado, mas adiciona uma camada a mais ao que poderia ser apenas um terror genérico.

O Som da Morte não é inovador, nem pretende ser. Ele é um primo menos sofisticado de suas principais referências, mas entende que, às vezes, entregar bem o feijão com arroz é melhor do que arriscar uma renovação mal calculada. Dentro da fórmula de bolo do terror adolescente, o filme acerta mais do que erra, oferece bons momentos de suspense, mortes competentes e uma atmosfera familiar que agrada quem sente falta do terror dos anos 2000.

No fim, o saldo é positivo — e até surpreendente. Não vai redefinir o gênero, mas cumpre sua função com dignidade. E, para esse tipo de filme, isso já é mais do que suficiente.

Critica - O Som da Morte
Bom 3
Nota Cinesia 3 de 5
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