Quase dez anos após quebrar paradigmas com uma narrativa inteligente, divertida e surpreendentemente madura, Zootopia ainda é uma joia fora do escopo tradicional das princesas da Disney. Com mais de US$ 1 bilhão arrecadados e um Oscar no currículo, o primeiro filme mostrou que o estúdio ainda sabe ousar. Por isso, não é surpresa que a expectativa em torno de Zootopia 2 fosse gigantesca — e a sequência chega justamente com a missão de amplificar esse universo tão querido, trazendo novas regiões, novos personagens e dilemas contemporâneos.
Zootopia 2 começa uma semana após o final do primeiro filme. Judy Hopps e Nick Wilde, agora parceiros oficiais da polícia, passam por uma turbulência: suas diferenças ideológicas começam a gerar conflitos reais, colocando a dinâmica da dupla à prova.

Nesse cenário, algo aparentemente impossível acontece: uma cobra é vista circulando na cidade pela primeira vez em um século. Esse reptil misterioso é Gary, que logo revela ter motivações nobres — recuperar um livro histórico perdido que guarda a verdadeira origem de Zootopia. O conteúdo desse livro pode finalmente reabilitar a imagem dos répteis e permitir que as famílias banidas há 100 anos retornem para casa.
Judy, sempre guiada pela justiça e pelo instinto investigativo, embarca com Nick numa jornada que atravessa não apenas obstáculos físicos, mas também emocionais. A dupla explora novas regiões — da gelada Tundra ao Brejo repleto de répteis — enquanto tenta proteger sua amizade e impedir que a verdade sobre a cidade seja enterrada de vez.

Mesmo repetindo elementos estruturais do primeiro filme, Zootopia 2 respira originalidade em seus detalhes, amplia seu universo com confiança e traz novos personagens cativantes. É uma continuação tecnicamente impecável, emocionalmente envolvente e socialmente pertinente — ainda que, às vezes, menos ousada do que promete.
A direção de Jared Bush e Byron Howard — os mesmos criadores do original — mantém o espírito curioso e satírico da franquia. O universo se expande com inteligência e cuidado: a Tundra, o Brejo e o Deserto são visualmente deslumbrantes, cada um com personalidade própria construída por uma paleta de cores viva e detalhes minuciosos. O nível técnico impressiona, e existe até quem diga que o filme supera o primeiro no quesito visual.

O humor é, talvez, o ponto mais forte da sequência. Zootopia 2 é uma verdadeira metralhadora de piadas, referências a clássicos do cinema, trocadilhos espertos e cenas de ação empolgantes. A comédia funciona para crianças e adultos, garantindo aquele equilíbrio raro que só grandes animações conseguem.
A dublagem nacional também merece destaque: Monica Iozzi (Judy), Rodrigo Lombardi (Nick), Danton Mello (Gary) e Samira Fernandes (Nibble) entregam performances cheias de energia e personalidade. Nibble, inclusive, é um show à parte — uma castora conspiracionista de coração enorme, que funciona como alívio cômico e elemento narrativo importante.

E, claro, o coração do filme continua sendo a relação entre Judy e Nick. A chamada “terapia de casal” imposta pelo Chefe Bogo gera cenas divertidas e emocionalmente densas. O filme flerta sem medo com a ideia de que a dupla tem uma química que vai além da amizade — e deixa isso no ar de forma inteligente, sem comprometer o tom infantil.
Apesar da potência do tema — preconceito histórico contra répteis — o roteiro evita mergulhar fundo na tensão social que poderia ser gerada pelo retorno dessa espécie à cidade. Diferente da forte discussão entre carnívoros e herbívoros do primeiro filme, aqui o conflito é menos explorado e perde um pouco de impacto.

O terceiro ato também sofre com excesso de explicações, tornando-se didático demais. A sensação é de que o filme não confia totalmente na interpretação do espectador — especialmente os adultos.
Por fim, personagens amados do primeiro filme aparecem, mas são pouco aproveitados. Flecha, Sr. Big e até a popstar Gazella (que volta com a música inédita “ZOO”, composta em parte por Ed Sheeran) trazem nostalgia, mas não têm o brilho que poderiam.

Assim como o primeiro filme discutiu preconceito sistêmico, Zootopia 2 mira em um tema igualmente relevante: narrativas apagadas pela história oficial e o processo difícil — e muitas vezes incômodo — de reintegrar grupos marginalizados. Os répteis simbolizam povos excluídos por causa de incidentes isolados, estigmatizados e banidos por gerações.
Gary, com sua fé quase ingênua na bondade, funciona como a ponte para a cura de traumas sociais. Judy representa o idealismo radical necessário para enfrentar sistemas injustos. Nick é o olhar cético, emocionalmente ferido, que enxergou a pior parte da sociedade e teme perdê-la novamente.
É uma alegoria forte, acessível e necessária — especialmente para os espectadores mais jovens, que encontram na animação uma porta de entrada para temas importantes como empatia, convivência e justiça.

Zootopia 2 pode não revolucionar como seu antecessor, mas entrega exatamente o que a Disney promete: diversão, coração e uma mensagem relevante. A sequência brilha pela expansão do universo, pelos novos personagens, pela estética impecável e pelo humor certeiro. Mesmo com algumas decisões conservadoras no roteiro, o filme se firma como uma continuação sólida e cheia de personalidade.
A presença de uma cena pós-créditos deixa claro: a franquia está longe de acabar. Judy, Nick — e agora Gary — têm muito mais histórias para contar.


