O título original de Três Anúncios para um Crime, filme do diretor Martin McDonagh, dá a ideia de que se trata de um longa sisudo, daqueles feitos para premiações e sem nenhum tipo de humor – afinal, em tradução livre, estamos diante de um filme chamado “Três outdoors fora de Ebbing, no Missouri”. Mas Três Anúncios surpreende com um senso de humor ácido, polêmico e extremamente violento, abordando a história de uma mãe em busca de justiça para sua filha de uma forma completamente inovadora.

Nenhum dos personagens do filme são comuns como poderiam ser. O xerife, o policial idiota, a mãe, a vítima – são todos como uma versão +18 dos papéis que imaginamos. Frances McDormand, interpretando Mildred Hayes, tem presença marcante e acertada dentro do longa, sem exageros e com fidelidade ao caos de sentimentos que a personagem transmite ao público. Mildred é a mãe de Angela, adolescente que foi estuprada, queimada e morta em uma estrada em sua cidade. Um ano depois, ainda sem prisões ou descobertas na investigação, ela decide contratar 3 outdoors na estrada e mandar uma mensagem para o departamento de polícia da cidade.

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As frases, num fundo vermelho sangue, irão chocar a cidade e o departamento da polícia e desencadear uma escalada de violência. É a partir daí que Três Anúncios mostra a que veio. As primeiras cenas são boas, mas é apenas a partir das reações do policiais que o roteiro revela seu lado irônico, violento e polêmico, retratando o racismo, a homofobia, o abuso policial, o estupro, a agressão física de uma forma humorística e quase descuidada. E não só com palavras – sangue é o que não vai faltar na tela. O resultado é um longa que diverte o espectador com sua crueza, ao mesmo tempo que o deixa num estado constante de “eu deveria estar rindo disso?”.

Sam Rockwell, interpretando o policial Jason Dixon (estúpido, violento e extremamente leal ao xerife), é um das melhores coisas – se não a melhor – de todo o filme. O personagem é levado ao limite do esteriótipo, e ainda assim consegue conquistar quem assiste a Três Anúncios. Combinado com as expressões impassíveis de Mildred, temos uma dupla que dá o ritmo ao filme e que apresenta mais “química” (se é que se pode usar uma palavra tão positiva para retratar a relação entre os dois) do que com o xerife Bill Willoughby (Woody Harrelson), por exemplo, apesar de também termos aí grandes relacionamentos.

Willoughby, inclusive, é o personagem com mais profundidade do filme. Sua ironia e a tragicidade tornam sua saída do longa emocionante e engraçada ao mesmo tempo, em atuação cheia de sutileza de Harrelson.

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Três Anúncios Para Um Crime é um candidato fortíssimo aos prêmios pelos quais foi indicado no Oscar, especialmente o de Melhor Filme. No Globo de Ouro, por exemplo, o longa foi um dos maiores vencedores da edição 2018, ganhando Melhor Filme e mais 3 estatuetas (Melhor Atriz; Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Roteiro). Nada mais merecido num filme que escolheu ir contra a corrente de delicadeza ao tratar de temas importantes e conseguiu entregar uma história divertida, empolgante e no limbo (quem sabe até além…) do que consideramos politicamente correto.

REVER GERAL
Nota Cinesia
Caroline Magalhães é estudante de jornalismo, blogueira e leitora ávida. Vira fã das coisas em segundos e tem milhões de crushs que moram em livros, séries ou filmes. No Cinesia, escreve sobre histórias do mundo nerd. É dona do Deleitura, blog literário.