O ano de 2017 se mostrou incrível para Josh Malerman, já que uma de suas obras ganhará uma adaptação para os cinemas. Após o sucesso de “Caixa de Pássaros”, o autor trouxe pela Editora Intrínseca seu novo romance sombrio. Curiosamente o thrillerPiano Vermelho” é mais próximo de seus interesses pessoais, pois Josh é cantor e compositor da banda High Strung. Sua paixão é perceptível, e quem nunca buscou inspiração na música quando parecia sem ideias não é mesmo? O autor por exemplo revelou escrever ao som de trilhas sonoras de filmes de terror. Outro motivo para conferir suas obras é a forma que ele busca ‘tocar’ nossos sentidos. Então cuidado para não ouvir demais… está MESMO preparado pra isso?

A história se passa no ano de 1957 e gira em torno de Philip Tonka, um ex-militar que volta com seus companheiros soldados para Detroit após a Segunda Guerra Mundial. Juntos eles fazem parte de uma banda importante que se formou ali, os Danes. Após uma fase de “bloqueio artístico” eles se limitam a produzir outras bandas e curtir o ócio. Após o misterioso contato de Mull, funcionário do governo dos E.U.A., chega a nossos músicos uma proposta bastante rentável que dará fim ao descanso do pianista Philip e sua equipe. Rumo à África, o deserto de Nabime é o local de onde se origina um som desconhecido que carrega um enorme poder destrutivo. A missão deles é investigar o que pode ser uma conspiração.

No presente, seis meses depois, a enfermeira Ellen cuida de um paciente no hospital, seu estado é preocupante, mas ele resiste bem. Ainda que as circunstâncias sejam desconhecidas, o seu organismo está respondendo de modo impressionante ao tratamento. Mas quem é esse rapaz? Ninguém menos que Philip Tonka, recuperado porém cheio de traumas que o deserto plantou nele. Onde estão seus companheiros? Repleto de perguntas, algumas realmente ficam em aberto e partirá do leitor encontrar nessa trama cheia reviravoltas e enigmas. Alternando entre os dois períodos, teremos mais noção do que aconteceu, ainda que sua conclusão nos deixe com muitas dúvidas.

O desenvolvimento de alguns personagens foi adequado, mas o de boa parte precisaria de mais para que pudéssemos nos importar com eles. Até mesmo os próprios Danes. O que muitos procuram é entender a razão deles terem sido escolhidos para estar ali. O romance também será um forte apelo para quem espera algo totalmente previsível e clichê. A partir disso já se torna entediante do meio para o final, e até mesmo o que serviria para impulsionar a leitura não ajudou, o que é o caso dos capítulos que se passam no presente. Para um livro de 320 páginas ele se arrasta mais do que deveria.

A escrita é o que nos leva até o último momento, já que iremos experimentar um misto de tensão e frustração. Se preocupar com os personagens é o mínimo que um leitor pode sentir, mas não acontecerá pelos melhores motivos. A diferença é que não será só o Philip, mas a Ellen também divide o holofote ao narrar. Quem gosta de sentir medo do inesperado vai encontrar algo interessante em tantos detalhes que o autor passa nesse livro, dividido em duas partes (sem necessidade aparente) e com a narrativa em terceira pessoa. Em sua estada no Brasil, Josh e sua esposa Allison mostraram muito entusiasmo em participar na 17ª Bienal do Livro de 2015, sendo tão especial que o incentivou a escrever uma carta para os fãs falando sobre sua recente obra e descrevendo “Piano Vermelho” como ‘uma história que te cause arrepios”.

O suspense tenso continua sendo um elemento chave em sua escrita, muito bem projetada e até mesmo incisiva nos momentos certos. O problema em questão é a intrincada trama que nos é apresentada até bem, mas logo se desespera em manter o interesse do leitor…e falha por não se tornar mais que uma leitura legal. Até mesmo para os fãs que leram “Caixa de Pássaros”, esse se mostra um tanto cru e menos elaborado, até porque ambos os livros terão semelhanças que nos farão associar diversas vezes. Já quem conhece a partir desse e não leu outros livros de suspense até então, poderá se surpreender com essa experiência. Comparar esse livro a uma nota de piano que não agrada a todos os ouvidos é a forma mais cruel e apropriada para definir essa obra.