Criada por Kay Cannon (A Escolha Perfeita) e inspirada (livremente, como a própria série pontua no começo de cada episódio) na história real de Sophia Amoruso, que, através de uma internet ainda rudimentar, criou a marca milionária Nasty Gal, Girlboss é uma série que foge dos padrões a que estamos acostumados a ver em comédias, trabalhando com uma protagonista extremamente difícil de se lidar e é certamente isso o que imediatamente faz da série uma obra tão relevante.

A trama acompanha Sophia (Britt Robertson), uma jovem de vinte e dois anos revoltada com o mundo, que se recusa a fazer parte do sistema que obriga as pessoas a crescerem, arranjarem um emprego e morrerem (muitas vezes enquanto o exercem). Após perder o seu próprio trabalho, em razão de um surto de revolta com sua chefe, ela decide vender uma jaqueta vintage que acabara de comprar no Ebay. Para sua surpresa e a de todos, ela recebe ofertas acima do triplo do valor que pagou e, com isso, vem a epifania: a de criar uma loja virtual própria de roupas vintage. Durante os treze capítulos da série, portanto, nós a vemos lidando com seu negócio, enquanto precisa organizar sua própria vida pessoal.

Girlboss já chega chutando o balde em relação a grande maioria das comédias televisivas pela sua estrutura. Ao não se prender em uma estrutura procedural, Cannon, pode trabalhar sua narrativa de forma progressiva, com um evento levando ao outro. Claro que, sob um olhar superficial, o seriado chega a parecer com se cada episódio fosse separado um do outro, trazendo novas situações a cada capítulo, mas é importante notar como um ponto leva ao outro, de forma que não podemos simplesmente pular qualquer um deles.

Outro mérito da série são os coadjuvantes e como todos eles se relacionam. Ellie Reed vive Annie, a melhor amiga de Sophia e Johnny Simmons interpreta Shane, interesse romântico da protagonista. RuPaul Charles (Lionel, o vizinho de Sophia), Jim Rash (Mobias), e a dupla formada por Cole Escola e Nicole Sullivan (respectivamente Nathan e sua mãe Teresa) são pontos altos da série – Koosha Patel como Kaavi aos 45 do segundo tempo também é uma boa adição ao elenco.

A identificação com o espectador vem do próprio objetivo de Sophia. Embora ela seja uma pessoa muito difícil de se lidar, uma verdadeira Nasty Gal, o que ela almeja dialoga com todos nós: é a busca pelos sonhos, a vontade de fazermos o que queremos e não somente o que esperam de nós. Com isso em mente, é fácil enxergar as vias crucis da história, e ainda mais por se passar em 2007/8, período em que a Internet já estava mais que estabelecida, mas ainda não tão fácil de se abrir um negócio prolífico. Sophia, então é a voz dos jovens que decidem fugir dos empregos de escritório que sugam suas almas até a velhice e, acima de tudo, é a busca pela sua própria identidade.

Isso não quer dizer, porém, que a temporada seja perfeita. Por vezes os enredos se apoiam demais no romance entre ela e Shane (Johnny Simmons), fugindo do objetivo principal, enquanto torcemos para que tudo volte à sua gestão e às loucuras. A verdade é que a forma como o relacionamento dos dois é construído foge um pouco à personalidade de Sophie, ainda que, claramente, ela se aproxime dele em virtude de sua ligação problemática com o pai. Ainda bem que os episódios finais trazem boas surpresas para o que virá adiante.

Britt Robertson traz uma excelente interpretação a sua Sophia, que é o motor da série. Há uma grande naturalidade em sua representação, a tal ponto que acreditamos em seu modo de ser. Por mais que detestemos algumas de suas atitudes, aos poucos vamos nos aproximando da personagem em razão de sua autenticidade.

Girlboss não nos força a gostar de sua protagonista, não torna tudo fácil e mastigado para nos aproximarmos dela e, justamente por isso, passamos, com o tempo, a nos relacionar mais fortemente com ela. O mérito disso vai para toda a construção da série, que nos mergulha nessa narrativa dinâmica, que não para a qualquer momento. Enfim, a Netflix acerta novamente e quem sai ganhando, claro somos nós!