Continuações tardias carregam um paradoxo inerente. São gestos de carinho e de risco. Carinho por revisitarem universos que deixaram marcas afetivas profundas em gerações inteiras; risco porque, ao fazê-lo, enfrentam o delicado desafio de não manchar o legado construído no passado. Nos últimos anos, Hollywood tem apostado pesado nesse tipo de retorno — às vezes com acertos, muitas outras vezes com equívocos irreparáveis. Em Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda (2025), a Disney volta ao universo de Freaky Friday, aquele corpo-trocado entre mãe e filha que virou febre em 2003. E, surpreendentemente (ou não), o resultado não apenas funciona — ele encanta.
A história começa de forma familiar, mas com novas camadas. Anna (Lindsay Lohan), agora uma adulta prestes a se casar com Eric (Manny Jacinto), está em vias de fundir sua família com a dele, o que inclui sua filha Harper (Julia Butters) e a enteada Lily (Sophia Hammons). As tensões entre as meninas escalam de maneira imprevisível, culminando em mais uma troca de corpos mágica provocada — como não poderia deixar de ser — por uma vidente excêntrica durante a despedida de solteira. Desta vez, a mágica é quatro vezes mais complicada: Harper e Anna trocam de corpos, assim como Lily e Tess (Jamie Lee Curtis), a avó.

O caos se instala — mas, diferentemente de muitas continuações que tropeçam em suas próprias fórmulas, aqui ele é cuidadosamente coreografado.
O maior mérito de Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda está na sua habilidade de abraçar o presente sem renegar o passado. A direção de Nisha Ganatra é consciente do papel afetivo que o filme original desempenhou. Em vez de simplesmente reproduzi-lo, Ganatra o reinterpreta com linguagem atual, ritmo dinâmico, estética digital e inteligência emocional. A nostalgia está lá — seja na trilha sonora que resgata “Take Me Away” ou na aparição absolutamente gratuita (e hilária) de Chad Michael Murray —, mas serve como pano de fundo para uma nova história sobre amadurecimento, empatia e convivência familiar em tempos mais complexos.
Essa habilidade em articular o passado e o presente é visível tanto nas escolhas visuais quanto nas piadas geracionais que fogem da caricatura óbvia (“essa juventude que vive no celular”) para tocar em nuances de identidade, pertencimento e autonomia. A montagem parece inspirada na lógica algorítmica das redes sociais, mas, ainda assim, não perde o que realmente importa: o centro emocional da narrativa.

Jamie Lee Curtis está, como esperado, absolutamente magnética. Sua capacidade de interpretar uma adolescente em um corpo maduro é não apenas engraçada — é afiada, exagerada no ponto certo e profundamente humana. Em certos momentos, sua atuação ultrapassa o campo do cômico e se instala como puro afeto performático. É um tipo de exagero que, em mãos menos experientes, poderia soar artificial. Aqui, é encantador.
Lindsay Lohan, por sua vez, retoma com força sua conexão com a personagem de Anna. Mais do que um retorno à zona de conforto, sua performance é uma reapropriação de sua própria imagem pública — uma atriz que já foi símbolo da juventude e agora encara com maturidade e graça um papel que exige humor, timing e empatia. Ela está em sua melhor forma desde o início do seu “comeback”.

Julia Butters e Sophia Hammons enfrentam o desafio de dar vida a adolescentes que, por vezes, incorporam adultas em corpos de jovens. E o fazem com competência surpreendente. Butters, revelada em Era Uma Vez em… Hollywood, confirma aqui que tem um futuro promissor, enquanto Hammons consegue explorar uma gama emocional mais contida, mas igualmente eficaz.
Apesar de algumas soluções apressadas no roteiro e personagens coadjuvantes que aparecem apenas para efeito cômico ou nostalgia, esses deslizes nunca comprometem o prazer da experiência. O filme não busca complexidade temática nem originalidade formal — ele quer ser leve, divertido, caloroso. E consegue. Talvez isso não baste para algumas plateias mais exigentes ou cínicas, mas, como bem sugere a própria proposta do filme, nem tudo precisa ser disruptivo. Às vezes, tudo que se quer é uma boa história com boas personagens, bem contada e emocionalmente generosa.

“Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda” é a rara continuação que entende o espírito do filme original sem ser refém dele. Ao unir Jamie Lee Curtis e Lindsay Lohan com uma nova geração de atrizes talentosas, a trama renova seus temas para o público atual e, ao mesmo tempo, entrega aos fãs do passado uma carta de amor à sua própria adolescência.
O filme acerta em quase tudo: no tom, no ritmo, nas atuações, e até na maneira como usa a nostalgia como ponte — e não como muleta. É um típico filme-conforto para tempos em que o mundo real anda pesado demais. E, nesse sentido, poucas coisas são tão valiosas quanto a leveza conquistada com inteligência e afeto.
Tal mãe, tal filha. Tal filme, tal legado.


