Amiga, respira fundo porque lá vem ligação de número desconhecido outra vez.
Em Pânico 7, Sidney Prescott — nossa eterna final girl — agora atende pelo nome de Sidney Evans, está casada com Mark (Joel McHale) e tenta viver uma vida “normal” administrando uma cafeteria numa cidade pacata longe de Woodsboro. Normal entre aspas mesmo, porque ninguém sobrevive a múltiplos massacres e vira plenamente funcional, né?
Sidney (a maravilhosa Neve Campbell) tenta proteger as filhas do passado sangrento, especialmente Tatum (Isabel May), que cresce curiosa — e ressentida — por não entender quem a mãe foi antes de virar essa fortaleza emocional com traumas mal resolvidos. Só que, claro, o Ghostface resolve reaparecer. E dessa vez ele vem atualizado: inteligência artificial, deepfake e fantasmas digitais do passado entram no jogo, inclusive com menções a Stu Macher, personagem de Matthew Lillard.

Ou seja: além de sobreviver, Sidney agora precisa proteger o próprio legado. E a pergunta deixa de ser “quem é o assassino?” para virar “até quando essa obsessão faz sentido?”.
A franquia que reinventou o terror… e agora enfrenta o próprio reflexo
É impossível falar de Pânico 7 sem lembrar que tudo começou em Pânico, dirigido por Wes Craven e roteirizado por Kevin Williamson. A franquia basicamente pegou o slasher, desmontou suas regras, riu da cara delas e depois as usou a seu favor. Era metalinguagem antes de virar modinha.

Só que os últimos anos foram mais tensos que cena de perseguição em corredor escuro. A demissão de Melissa Barrera após seu posicionamento político gerou divisão pesada no fandom. Logo depois, Jenna Ortega saiu do projeto. O diretor originalmente escalado também abandonou o barco. Resultado? A produção precisou recorrer ao maior trunfo possível: trazer Sidney de volta ao centro.
A nostalgia virou estratégia. E também muleta.
Vamos começar pelo que dá orgulho: Neve Campbell está absurda de boa. Existe uma maturidade na atuação que transforma Sidney em algo além da sobrevivente. Ela é mãe. Ela é trauma acumulado. Ela é alguém que aprendeu a atacar antes de ser atacada. O tempo passou, e isso pesa dramaticamente da melhor forma.

A relação mãe e filha é o coração do filme. O tema do trauma geracional é forte e atual. A ideia de que o horror não morre — ele se herda — é uma metáfora poderosa. Quando o roteiro desacelera e foca nisso, Pânico 7 encontra seus melhores momentos.
Visualmente, o filme é elegante. A direção do próprio Kevin Williamson tem domínio técnico: corredores claustrofóbicos, sombras bem trabalhadas, tensão construída pelo olhar dos personagens. Ele sabe filmar medo. Isso nunca esteve em dúvida.

E sim: as mortes funcionam. São criativas, brutais e, em alguns momentos, deliciosamente exageradas. Ghostface continua sendo um vilão teatral, quase performático. O slasher entrega entretenimento. Tem jump scare? Tem. Tem sangue? Muito.
Agora vem o golpe.
O filme é dividido em dois núcleos muito claros: o “adulto” e o jovem. O núcleo adulto — com direito ao retorno de Courteney Cox — é mais sólido, melhor escrito e emocionalmente coerente.
Já o núcleo jovem… parece ter saído de outro roteiro. Personagens mal desenvolvidos, diálogos expositivos e decisões que existem só para empurrar a trama. Nem talentos como Mckenna Grace conseguem escapar da sensação de subaproveitamento.

A tentativa de preparar uma “passagem de bastão” soa forçada. As frases de efeito parecem escritas para virar camiseta, não para construir drama.
E o terceiro ato… dói dizer isso, mas é provavelmente o mais fraco da franquia. A revelação do assassino carece de impacto. A motivação não tem o peso psicológico de um Billy Loomis nem a ambição distorcida de capítulos anteriores. Depois de uma construção interessante envolvendo tecnologia e legado, o final simplifica tudo.
É como preparar um banquete e servir miojo gourmet.
IA, modernidade e um certo anacronismo
O uso de inteligência artificial como ferramenta do terror é uma ideia excelente. Deepfakes, manipulação digital, fantasmas tecnológicos — isso conversa com nossos medos atuais.
Mas o filme parece dividido entre criticar a modernidade e tentar dialogar com ela. Às vezes soa como um adulto tentando fazer dancinha no TikTok — simpático, mas deslocado. Outras vezes, parece uma sátira involuntária sobre a cultura da dopamina e do imediatismo.

A franquia que nasceu quebrando regras agora parece confortável em repeti-las. O que antes era metalinguagem ousada aqui vira autorreferência em modo checklist.
E isso pesa.
Conclusão – Sobreviver não é o mesmo que evoluir
Pânico 7 não é um desastre completo. Ele entretém. Ele tem tensão. Ele tem uma Sidney mais forte do que nunca. E isso já é muita coisa. Mas também é o capítulo que mais evidencia o desgaste de quase três décadas tentando reinventar a mesma máscara.

Funciona quando mergulha no drama familiar e no trauma herdado. Escorrega quando depende demais da nostalgia e entrega um desfecho frágil. É um filme dividido entre passado e futuro — e que ainda não decidiu a qual dos dois pertence.
No fim, Ghostface continua ligando. A questão é: a franquia ainda tem algo novo a dizer quando a gente atende?


