Os Enforcados | Fernando Coimbra une Macbeth e O Poderoso Chefão em thriller magnético

Danilo de Oliveira
5 Min de Leitura
4.5 Excelente
Crítica - Os Enforcados

Fernando Coimbra, cineasta que já havia conquistado público e crítica com o intenso O Lobo Atrás da Porta, retorna ao cinema brasileiro com um olhar igualmente afiado e incômodo. Desta vez, ele revisita sua parceria com Leandra Leal, quase uma década depois, para explorar uma nova jornada de ascensão e queda no submundo do crime. Com a mesma destreza narrativa que o consagrou, Coimbra constrói em Os Enforcados uma tragédia contemporânea que mescla ambição, traição e o peso sufocante do poder, dialogando tanto com o realismo social brasileiro quanto com referências clássicas do drama universal.

A história acompanha Regina (Leandra Leal) e Valério (Irandhir Santos), um casal da elite carioca ligado por sangue e conveniência ao império do jogo do bicho. Quando as finanças apertam e a vida de luxo ameaça escapar por entre os dedos, surge um plano para resolver tudo de uma vez: vender a parte de Valério nos negócios da família. O que parece uma jogada simples se transforma rapidamente em um turbilhão de intrigas, traições e violência. Inspirado por uma tiragem do tarô — o Enforcado — feita pela mãe de Regina (Irene Ravache), o casal embarca em uma escalada onde cada passo adiante cobra um preço mais alto.

Paris Filmes/Reprodução

Coimbra constrói a narrativa como um fio que se tensiona até quase romper, com um misto de crueza e ironia que remete tanto ao Macbeth shakespeariano quanto à implacabilidade de O Poderoso Chefão. O humor sombrio, a tensão permanente e o retrato de uma elite criminosa que se julga intocável transformam o filme em um reflexo incômodo de estruturas de poder que conhecemos bem — mesmo quando a abordagem não mergulha profundamente nas especificidades culturais do jogo do bicho.

O grande trunfo do longa está nas atuações. Leandra Leal entrega uma Regina enigmática, uma mulher que oscila entre estratégia e impulsividade, entre fragilidade e frieza calculada, tornando impossível prever sua próxima decisão. É ela quem conduz a história com magnetismo, amparada pela presença sólida de Irandhir Santos, que encarna Valério com um equilíbrio perfeito entre passividade aparente e uma tensão prestes a explodir. Stepan Nercessian, como o tio mafioso, impõe respeito desde sua primeira aparição, enquanto Irene Ravache rouba cenas com uma aura mística e ambígua.

Paris Filmes/Reprodução

Do ponto de vista técnico, Os Enforcados exibe um acabamento de alto nível: a direção de arte cria ambientes que espelham o estado psicológico dos personagens — mansões inacabadas, espaços amplos que ecoam vazio, cores que oscilam entre a opulência e o desgaste. A fotografia realça o clima de instabilidade, alternando enquadramentos fechados, quase claustrofóbicos, com planos abertos que reforçam a sensação de isolamento mesmo em meio ao luxo. A influência internacional da carreira recente de Coimbra — que passou por produções como Narcos e Perry Mason — se reflete no ritmo e na precisão visual, resultando em um thriller com respiro hollywoodiano, mas que, por isso mesmo, nem sempre parece enraizado no DNA brasileiro.

Se há um calcanhar de Aquiles, ele está na condução do roteiro. Embora a narrativa se beneficie da imprevisibilidade, há momentos em que a história se enreda no próprio caos, prolongando situações além da medida e suavizando o impacto de algumas viradas. Além disso, apesar da ambientação no Rio de Janeiro e da temática do jogo do bicho, o filme não se aprofunda nas especificidades dessa cultura, fazendo com que o pano de fundo pareça, por vezes, apenas um cenário intercambiável, já que poderia se passar em qualquer lugar do mundo.

Paris Filmes/Reprodução

Ainda assim, Os Enforcados é um retrato magnético da queda moral e emocional de seus protagonistas, embalado por atuações potentes e uma direção segura. Mais do que uma história sobre crime, é uma reflexão sobre o preço das ambições e sobre como, em jogos de poder, a carta que se vira hoje pode determinar a forca de amanhã. Ao final, fica a certeza de que, como Coimbra já havia provado antes, o perigo mais fascinante e aterrorizante não vem dos mortos, mas dos vivos que jogam — e trapaceiam — sem hesitar.

Crítica - Os Enforcados
Excelente 4.5
Nota Cinesia 4.5 de 5
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