Os Donos do Jogo | A máfia carioca entra em cena e transforma o Jogo do Bicho em espetáculo político e brutal

Heitor Dhalia acerta na mosca com uma saga de máfia tropical que mistura tragédia, política e sangue carioca

Danilo de Oliveira
7 Min de Leitura
Netflix/Reprodução
4 Ótimo
Critica - Os Donos do Jogo - Temporada 1

Nos últimos anos, o Brasil voltou a flertar com o submundo do jogo do bicho — não apenas nas manchetes policiais, mas nas telas. O tema, que mistura crime, política e tradição, ganhou novo fôlego na cultura pop. Primeiro veio Vale o Escrito (Globoplay), documentário que escancarou as engrenagens desse império paralelo. Depois, Os Enforcados, longa protagonizado por Leandra Leal e Irandhir Santos, apresentou um “Macbeth do bicho”, misturando Shakespeare e realismo sujo nas ruas do Rio. Agora, é a vez da Netflix entrar no jogo com Os Donos do Jogo (2025) — uma série que transforma o universo dos bicheiros em uma saga de poder à brasileira, tão elegante quanto implacável.

Criada por Heitor Dhalia (O Cheiro do Ralo, Serra Pelada, DNA do Crime), a série apresenta um Rio de Janeiro dividido entre quatro famílias tradicionais do bicho — Moraes, Guerra, Fernandez e Saad — que disputam território, dinheiro e influência política. No centro desse tabuleiro está Profeta (André Lamoglia), um jovem ambicioso vindo do interior, determinado a conquistar seu espaço no topo da pirâmide.

Sem padrinhos e com mais sede de poder do que experiência, ele se alia a Mirna (Mel Maia), herdeira de um dos chefões, e a Leila Fernandez (Juliana Paes), matriarca que manipula o crime com a mesma frieza com que se serve um café. O resultado é um retrato intenso de um país onde o crime não é apenas tolerado — é parte da estrutura.

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Dhalia filma esse universo como quem monta uma tragédia moderna: cada episódio é um degrau em direção a um colapso moral, onde o poder corrompe, mas o desespero empurra. É impossível não pensar em O Poderoso Chefão ou Gomorra, mas aqui o crime fala com sotaque carioca, mistura samba com sangue e aposta alto na sedução da ilegalidade.

Um dos grandes méritos de Os Donos do Jogo é como ela traduz a violência institucional brasileira em dramaturgia sem cair na caricatura. O olhar de Heitor Dhalia é cirúrgico: ele transforma o bicho em metáfora para um país viciado em arriscar tudo — no crime, na política, no amor e até em si mesmo.

A fotografia de tons quentes e contrastes urbanos cria um Rio de Janeiro distópico, mas reconhecível. A cidade pulsa entre o luxo dos cassinos improvisados e o caos das ruas, como se o próprio cenário fosse cúmplice das apostas ilegais. A trilha sonora, que mistura funk, bossa e percussão eletrônica, reforça esse ritmo de tensão constante — uma batida de coração que nunca desacelera.

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Tecnicamente, a série é um primor. A direção de Dhalia aposta em planos longos e câmeras inquietas, que seguem os personagens como sombras. Nada parece gratuito: cada corte tem o peso de uma decisão moral. Mas, em meio a tanto controle estético, há momentos em que o roteiro parece se perder na própria grandiosidade. A trama política e os múltiplos núcleos exigem atenção redobrada — e às vezes o excesso de personagens impede que o espectador respire.

O elenco é o grande trunfo de Os Donos do Jogo. André Lamoglia entrega a melhor performance de sua carreira: seu Profeta é uma mistura de inocência e brutalidade, um personagem que cresce à medida que se corrompe. Juliana Paes impressiona ao abandonar o glamour para viver uma mulher que entende o poder como um jogo de sobrevivência — e joga como ninguém.

Mel Maia e Giullia Buscacio representam as novas vozes femininas do crime. Dhalia as filma como forças silenciosas, estrategistas invisíveis por trás da violência masculina. Elas manipulam, calculam e resistem num sistema que insiste em apagá-las. É justamente nelas que a série encontra sua pulsação mais contemporânea: o poder feminino em meio ao patriarcado da máfia.

Xamã, por outro lado, surpreende como vilão carismático, com uma atuação que mistura espontaneidade e ameaça contida. Sua presença dá ao elenco jovem a força de quem conhece o território — e sabe que no jogo, nem sempre quem grita mais vence.

Mais do que uma série policial, Os Donos do Jogo é uma alegoria sobre o Brasil contemporâneo, onde o crime se institucionaliza e a moral se torna moeda de troca. O “bicho” aqui é símbolo de um país que aprendeu a apostar na sorte em vez de exigir justiça. Dhalia parece dizer que nossa sociedade funciona como uma grande banca: quem sabe jogar sobrevive, quem não sabe é engolido.

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O diálogo com o documentário Vale o Escrito é inevitável — ambos tratam o bicho não apenas como contravenção, mas como cultura. Já a influência de Os Enforcados aparece na atmosfera trágica, quase ritualística, que permeia as relações familiares. São obras que, juntas, constroem um mosaico de como o Brasil transforma a ilegalidade em identidade.

Os Donos do Jogo é a melhor ficção nacional sobre o jogo do bicho já produzida, porque entende que o assunto vai muito além do crime: é sobre herança, poder e sobrevivência. Heitor Dhalia transforma o submundo em espelho de um país inteiro, onde a linha entre o legal e o ilegal é tão tênue quanto um bilhete premiado.

Com atuações sólidas, estética marcante e um olhar crítico, a série coloca a Netflix Brasil em outro patamar de ambição narrativa. Ainda há arestas — o ritmo irregular e alguns personagens secundários pedem mais fôlego —, mas o resultado é envolvente e carregado de tensão moral.

Se Vale o Escrito revelou os bastidores reais, Os Donos do Jogo dramatiza a alma desse universo: um país que aposta tudo, mesmo sabendo que o cassino está viciado.

Critica - Os Donos do Jogo - Temporada 1
Ótimo 4
Nota Cinesia 4 de 5
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