O Sobrevivente | Edgar Wright Recarrega Stephen King em uma Distopia Elétrica, Pop e Desconcertantemente Atual

Danilo de Oliveira
6 Min de Leitura
3.5 Muito Bom
Critica - O Sobrevivente

Edgar Wright nunca foi um diretor interessado em meio-termo — seu cinema pulsa no ritmo de cortes rápidos, câmera inquieta, humor afiado e uma cinefilia que transborda estilo. Mas em O Sobrevivente, adaptação do romance O Concorrente (1982), escrito por Stephen King sob o pseudônimo Richard Bachman, o cineasta encara algo raro em sua filmografia: um universo distópico mais sombrio, menos pop e muito mais político.

A história original sempre foi uma previsão amarga — um futuro onde entretenimento, violência e manipulação andam juntos, moldando uma sociedade destruída por desigualdade e autoritarismo. Quarenta anos depois, Wright a atualiza para um 2025 assustadoramente familiar, em que fake news, vigilância total e espetáculo midiático se misturam em um caldo que poderia facilmente fazer parte do noticiário real de hoje.

Paramount Pictures/Reprodução

Nos Estados Unidos colapsado e governado por uma megacorporação que controla a mídia e as instituições, Ben Richards (Glen Powell) vê sua vida se esfacelar. Sem recursos para tratar a filha doente e esmagado por um sistema que transforma miséria em entretenimento, Richards faz a única escolha que lhe resta: inscrever-se no reality show mortal The Running Man.

A regra é simples e brutal: sobreviver 30 dias enquanto assassinos profissionais — verdadeiros “influenciadores da carnificina” — são enviados para caçá-lo ao vivo. Se vencer, ele ganha dinheiro suficiente para salvar a família. Se perder, vira mais um produto descartável da engrenagem que alimenta a audiência.

Paramount Pictures/Reprodução

Visualmente, Wright se afasta da estética exuberante de Scott Pilgrim ou Baby Driver e entrega um mundo cyberpunk derivado, funcional, mas não exatamente memorável. Porém, onde o diretor brilha — e brilha muito — é na coreografia frenética das perseguições e na montagem enérgica que transforma cada esquina da distopia em um palco explosivo. As cenas de ação são inventivas, eletrizantes e fazem Wright parecer tão à vontade quanto em seus melhores momentos. Mesmo assim, o filme perde fôlego quando precisa equilibrar discurso político e espetáculo, especialmente em um primeiro ato lento e um terceiro ato apressado.

Powell assume com surpreendente maturidade o papel que já foi de Arnold Schwarzenegger. Diferente do ícone brucutu dos anos 80, o ator entrega vulnerabilidade emocional sem sacrificar carisma ou fisicalidade. Ele é convincente como herói relutante, pai desesperado e símbolo involuntário da revolta popular. Esse filme confirma o que Hollywood já sabe: Powell virou astro — daqueles de verdade, que carregam um blockbuster nas costas. Colman Domingo está afiado como Bobby T, o apresentador sensacionalista que transforma barbárie em espetáculo. Já Josh Brolin, interpretando Dan Killian, encarna um vilão frio, calculista e profundamente crível — o tipo de executivo que manipula vidas como quem muda o canal da TV. Ambos ajudam o filme a elevar sua crítica social, mesmo quando o roteiro escorrega na obviedade.

Paramount Pictures/Reprodução

Se o livro de King refletia o neoliberalismo agressivo da era Reagan, Wright atualiza o pesadelo para a realidade da pós-verdade, onde corporações fabricam inimigos, manipulam narrativas e transformam até revolução em commodity. A crítica ao autoritarismo e à espetacularização da violência ainda ressoa, mas é justamente aí que o longa às vezes tropeça. Wright tem muito a dizer — talvez até demais — e isso resulta em momentos didáticos e apressados, diminuindo o impacto do subtexto mais afiado. Há ironia (talvez até involuntária) no fato de um filme que critica megacorporações e exploração midiática ser produzido por uma delas. Essa contradição permeia a obra inteira: o longa quer denunciar o sistema, mas também quer ser o produto perfeito para o sistema. Ainda assim, alguns diálogos, especialmente os de Bobby T, cutucam o espectador com força desconfortável — “a sede de sangue é um direito de nascença” é uma frase que merece ecoar.

O Sobrevivente é, ao mesmo tempo, um dos filmes mais acessíveis e mais politicamente carregados de Edgar Wright. Ele é imperfeito: sofre com ritmo desigual e metáforas um pouco mastigadas. Mas também é vibrante, divertido, provocativo e impulsionado por uma das melhores performances da carreira de Glen Powell. É uma adaptação mais fiel ao espírito de Stephen King do que a versão de 1987 — embora menos intensa que o livro — e consegue unir ação frenética com comentários relevantes sobre autoritarismo, manipulação midiática e desigualdade. No fim, é exatamente o tipo de distopia que nosso mundo merece: contraditória, pop, suada, espetacular — e assustadoramente real. Se Wright queria nos entreter enquanto cutuca feridas profundas… missão cumprida.

Critica - O Sobrevivente
Muito Bom 3.5
Nota Cinesia 3.5 de 5
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