O Ritual | Quando o Exorcismo Encontra o Drama e se Perde na Própria Fé

Danilo de Oliveira
6 Min de Leitura
2 Regular
Crítica - O Ritual

Desde que O Exorcista (1973) revolucionou o cinema de horror, filmes sobre possessões demoníacas se tornaram quase um subgênero à parte. A imagem do padre enfrentando forças infernais com um crucifixo na mão virou símbolo definitivo do terror católico no cinema. O Ritual (2025), no entanto, tenta algo diferente: em vez de focar no medo explícito ou nos tradicionais jump scares, o longa dirigido por David Midell aposta em uma abordagem mais dramática, quase documental, para narrar a história real que inspirou o clássico de William Friedkin. É uma escolha ousada — mas será que funciona?

Baseado em registros reais de 1928, O Ritual acompanha a história de Emma Schmidt (Abigail Cowen), uma jovem atormentada por eventos sobrenaturais que a Igreja interpreta como possessão demoníaca. Enviada a uma paróquia no interior dos Estados Unidos, ela é acolhida pelo padre Steiger (Dan Stevens), um homem de fé abalada e passado traumático. Para ajudá-lo no exorcismo, a Igreja convoca o veterano padre Theophilus (Al Pacino), que falhou anteriormente ao tentar libertar Emma. O que se segue são sete dias de exorcismos intensos e conflitos internos entre os personagens — não apenas com o demônio, mas com suas próprias crenças.

Paris Filmes/Reprodução

A maior virtude de O Ritual está na tentativa de fugir do óbvio. Ao optar por uma narrativa mais realista, quase como um docudrama, o filme se distancia da pirotecnia dos filmes de terror convencionais e investe no peso emocional dos personagens. A câmera trêmula e os closes sufocantes nas expressões carregadas de angústia ajudam a transmitir a sensação de aprisionamento e desespero vivida por todos — vítimas e religiosos.

Abigail Cowen é o grande destaque do elenco. Sua performance como Emma é inquietante e sensível, alternando com maestria entre a inocência vulnerável da jovem e a presença ameaçadora da entidade que a consome. Dan Stevens entrega um Steiger introspectivo e confuso, representando bem o dilema de fé que carrega. Já Al Pacino, mesmo longe de seus grandes papéis, traz dignidade e força ao exausto Theophilus — um padre cansado de lutar contra o mal, mas que ainda acredita em sua missão.

Paris Filmes/Reprodução

A direção de Midell encontra momentos de tensão bem conduzidos, principalmente nos primeiros rituais. A escolha de uma estética quase documental ajuda a reforçar a veracidade dos eventos, ainda que esta escolha tenha seus altos e baixos ao longo da trama.

Apesar de suas boas intenções, O Ritual sofre com uma montagem repetitiva e um roteiro que insiste em conectar os dramas pessoais dos personagens ao ritual sem dar profundidade real a nenhum deles. A estrutura narrativa — ritual de exorcismo → diálogo dramático → novo ritual — se torna previsível e arrasta o ritmo, prejudicando o impacto emocional que o filme tenta construir.

A câmera trêmula, embora eficaz em algumas cenas, às vezes ultrapassa o limite e compromete a clareza visual, criando uma estética confusa. Em momentos de diálogos mais densos, a decupagem excessiva de cortes e zooms acaba prejudicando o envolvimento do espectador. Há uma tentativa evidente de imitar a crueza de séries como The Office ou The Bear, mas sem o mesmo domínio de linguagem.

Paris Filmes/Reprodução

Outro ponto fraco é o tratamento superficial de temas importantes, como o suicídio do irmão do protagonista e a tensão sexual com a freira Rose (Ashley Greene), que são introduzidos com potencial, mas não são desenvolvidos com a atenção necessária.

O Ritual é um filme de exorcismo que ousa não ser um filme de terror comum — e por isso merece ser reconhecido. Sua tentativa de humanizar os personagens, de mostrar a dor e a fé como armas na luta contra o mal, é louvável. No entanto, a execução vacila diante de sua própria ambição. A falta de foco, a repetição narrativa e a decupagem exagerada acabam prejudicando a força dramática que a história pedia.

Mesmo assim, há méritos suficientes para que O Ritual não passe despercebido. É uma obra que prefere o sussurro ao grito, o peso da fé à violência explícita. Para quem busca um terror mais introspectivo e menos ruidoso, pode ser uma experiência instigante. Mas se você espera um novo O Exorcista, é melhor segurar as expectativas. Aqui, o verdadeiro demônio pode ser a própria tentativa de fazer um drama profundo sem ir fundo o bastante.

Crítica - O Ritual
Regular 2
Nota Cinesia 2 de 5
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