O Caso dos Estrangeiros começa narrando a história de Amira Homsi (Yasmine Al Massri), uma médica que precisa fugir de Alepo, na Síria, com sua filha Rasha (Massa Daoud) após uma tragédia. Essa escolha desesperada desencadeia uma série de eventos que atravessam fronteiras e se mistura com a história de outros quatro estranhos, que têm seus destinos entrelaçados em uma única noite no Mediterrâneo, onde a sobrevivência é incerta e a humanidade se revela em sua forma mais crua.
Baseado em várias histórias reais de alguns dos mais de 14 milhões de refugiados sírios que precisaram sair do país entre 2011 e 2024 para fugir da guerra civil do país, o filme foi escrito e dirigido por Brandt Andersen, a mente por trás de Refugee (2019), curta metragem que o inspirou o filme. Sem estereótipos ou frases floreadas, Brandt entrega um filme sensível e muito cru, onde todos os personagens nos mostram sua dor, desespero e esperança nos detalhes de suas interpretações.

O filme é “dividido” em cinco partes, com cada um apresentando um dos personagens que, de forma maestral, conseguem nos contar as suas histórias e passar o peso de sua situação naquele momento. É importante lembrar que durante a Guerra Civil Síria, iniciada em 2011, milhões de pessoas foram forçadas a deixar o país em busca de segurança. O regime imposto por Bashar al-Assad foi extremamente violento, e junto aos grupos rebeldes e organizações extremistas, somada ainda à destruição de cidades inteiras e ao colapso da infraestrutura, provocou uma das maiores crises humanitárias do século XXI. E a imigração em massa dos sírios foi uma das consequências.
É com maestria que o roteiro entrelaça as histórias das vidas que se propõe a contar: depois da renomada médica síria, conhecemos o soldado sírio Mustafa (Yahya Mahayni), que está em conflito com a própria consciência; então conhecemos o contrabandista/atravessador Marwan (Omar Sy), que está tentando dar uma vida melhor ao filho; então é a vez do poeta Fathi (Ziad Bakri), que busca um lar seguro para sua família e, por fim, conhecemos o capitão da guarda costeira grega, Stravos (Konstandinos Markoulakis), que está chegando no limite entre cumprir seu dever e a carga emocional do mesmo.

A grande força do filme está em mostrar o quanto cada uma dessas pessoas está agindo da forma que considera a melhor naquele momento – seja por segurança, por um futuro melhor ou simplesmente por considerar que é o certo a fazer. Mas não é um caminho fácil ou ileso, as consequências são muitas -imediatas ou futuras. É um filme difícil de assistir no sentido do peso dessas histórias e no fato de que o que você está assistindo é mais realidade que ficção. E isso se deve muito, claro, a escolha de elenco, que se entrega de forma completa aos enredos de seus personagens – vários dos atores, inclusive, são filhos de imigrantes.
Nesse contexto, vale destacar o soldado Mustafa, interpretado lindamente por Yahya Mahayni. Lutando pelo governo opressor e com um pai rebelde, a crise de consciência dele para decidir o que deve fazer é de uma expressão crua de humanidade, de limites alcançados e escolhas difíceis, mas decisórias. Ele foi o personagem que mais me “pegou”, mas todos os outros passam, de formas diferentes, pela mesma necessidade de escolha e coragem. O filme te prende pelo aperto no peito, pois eles estão lutando contra um sistema político e social, e precisam fazer o que for necessário para sobreviver fisicamente e com a própria consciência.

O filme mostra ainda as consequências da guerra e da imigração por sobrevivência muito tempo depois que essas pessoas estão “salvas”. A sequência final do filme – que complementa a primeira cena do longa – com a Amira Homsi “acordando” de sua onda de lembranças trás uma nova camada de percepção sobre a vida desses imigrantes e um pouco de desalento, pois mostra a quem está assistindo o quão longe as sequelas da guerra atingem as pessoas, suas histórias e seus futuros. O “final” da história dela, assim como de todos os outros personagens, não é reconfortante, são consequências.
O Caso dos Estrangeiros é um filme forte, cru e incômodo, que nos obriga a pensar naquelas vidas e histórias. Em escolhas que precisam ser feitas e como agir quando o seu mundo, literalmente, começa a desabar em cima de você.


