O Beijo da Mulher-Aranha (2025) | Quando o musical vira resistência política e emocional

Danilo de Oliveira
8 Min de Leitura
Paris Filmes/Reprodução
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Critica - O Beijo da Mulher-Aranha

Poucas obras da literatura latino-americana conseguiram atravessar décadas, formatos e linguagens com tanta força quanto O Beijo da Mulher-Aranha. Criado pelo escritor argentino Manuel Puig e publicado em 1976, o romance nasceu como um artefato profundamente político, mas jamais limitado ao panfleto. Puig misturou denúncia da ditadura militar argentina, reflexão sobre sexualidade e gênero e uma declaração de amor ao cinema clássico de Hollywood, entendendo a fantasia não como fuga vazia, mas como estratégia de sobrevivência.

Em 1985, a história ganhou sua adaptação cinematográfica mais célebre pelas mãos de Héctor Babenco. O filme — coprodução entre Brasil e Estados Unidos — transformou a narrativa em um clássico imediato, indicado a quatro Oscars e eternizado pela atuação de William Hurt (que venceu a estatueta), Raul Julia e pela presença magnética de Sônia Braga, encarnando uma diva moldada à imagem de Marlene Dietrich e Greta Garbo. Babenco compreendeu como poucos a tensão entre realidade e fantasia proposta por Puig, usando o rigor formal para mostrar como os sonhos cinematográficos invadiam, pouco a pouco, a brutalidade da prisão.

Quatro décadas depois, O Beijo da Mulher-Aranha retorna aos cinemas em uma nova encarnação. Agora, o ponto de partida não é o filme de 1985, mas o musical da Broadway de 1995, assinado por Terrence McNally, John Kander e Fred Ebb. Sob a direção de Bill Condon (Dreamgirls, Chicago), a obra estreou no Festival de Sundance 2025 apostando alto: transformar definitivamente a fantasia de Molina em espetáculo musical, sem pedir licença à realidade.

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Ambientado na Argentina durante o período mais sombrio da ditadura militar, o filme acompanha dois homens que dividem uma cela: Molina (Tonatiuh), preso por “desvios morais” e profundamente apaixonado pelo cinema clássico, e Valentín (Diego Luna), um militante político capturado pelo regime. Para escapar da violência cotidiana, Molina passa a narrar para o companheiro de cela a história de um musical hollywoodiano estrelado pela sedutora Mulher-Aranha — figura que mistura glamour, desejo e morte.

Enquanto os números musicais ganham forma e cor na imaginação de Molina, a relação entre os dois presos se transforma. O que começa como desconfiança e embate ideológico evolui para cumplicidade, afeto e amor, mesmo sob a vigilância constante de um sistema que usa a intimidade como arma de controle.

O Beijo da Mulher-Aranha é um filme que vive em tensão consigo mesmo — e isso é, ao mesmo tempo, sua maior virtude e seu principal problema. Bill Condon assume desde o início uma ambição clara: conciliar memória histórica, discurso político e o delírio exuberante do musical clássico. Nem sempre essa costura encontra o ritmo ideal, mas quando funciona, alcança momentos de rara beleza.

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A primeira metade do filme sofre com um certo excesso de solenidade. A dinâmica entre Molina e Valentín demora a ganhar densidade emocional, como se o roteiro estivesse mais preocupado em estabelecer ideias do que em deixar os personagens respirarem. O embate inicial — o militante marxista versus o sonhador escapista — é apresentado de forma quase acadêmica, pesada, o que torna o início arrastado e pouco envolvente. Valentín, em especial, surge muitas vezes reduzido ao arquétipo do revolucionário dogmático, empobrecendo o debate político e criando um desequilíbrio narrativo.

Quando o filme se permite sonhar, no entanto, ele floresce. As sequências musicais inspiradas nos grandes espetáculos da MGM dos anos 1940 são o coração pulsante da obra. Filmadas em Technicolor exuberante, cheias de movimento, melodrama e excesso, elas não funcionam apenas como fuga, mas como um gesto político silencioso. Imaginar, cantar e fabular tornam-se atos de resistência em um contexto histórico que buscava anular subjetividades.

Nesse sentido, a escolha de Jennifer Lopez para interpretar Ingrid Luna, Aurora e a própria Mulher-Aranha é extremamente feliz. Assim como Sônia Braga em 1985, J.Lo encarna a diva como construção estética e emocional. Sua atuação não busca profundidade psicológica, mas encontra na dança, na moda e na performance corporal um espaço de afirmação. É um comentário afiado sobre como Hollywood sempre ofereceu glamour como prêmio de consolação às mulheres latinas, ao mesmo tempo em que as mantinha presas a estereótipos.

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O grande destaque do elenco, porém, é Tonatiuh. Sua interpretação de Molina é delicada, sensível e profundamente humana. Ele traduz com precisão a jornada de autodescoberta de um personagem que usa o cinema não apenas para fugir, mas para existir. Diego Luna entrega um Valentín correto, ainda que limitado pelo próprio texto, funcionando mais como contraponto ideológico do que como personagem plenamente desenvolvido.

Tecnicamente, Condon demonstra domínio absoluto da linguagem do musical, equilibrando — ainda que nem sempre com perfeição — o brilho fantasioso e a crueza da prisão. O realismo nunca é rígido demais a ponto de expulsar o delírio, e os números musicais “vazam” para a realidade de forma simbólica, sugerindo que amor, arte e política compartilham o mesmo impulso de libertação.

As analogias propostas pelo filme são claras: o amor entre dois homens marginalizados reflete o desejo coletivo por liberdade; o musical hollywoodiano, muitas vezes visto como alienação, surge aqui como ferramenta de resistência emocional; e a fantasia se revela tão política quanto qualquer manifesto revolucionário. Quando Molina afirma que “a vida é boa, e sua bondade está no amor”, o filme deixa explícita sua tese central: lutar contra a opressão também é lutar pelo direito de amar.

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O Beijo da Mulher-Aranha (2025) talvez não alcance o status de obra-prima nem supere a adaptação de 1985, mas conquista algo igualmente valioso: vida própria. Mesmo com seus desequilíbrios narrativos e um início excessivamente pesado, o filme encontra força ao refletir sobre o poder da arte como refúgio, resistência e afirmação de identidade.

Em uma era marcada por reciclagens vazias, esta nova versão prova que revisitar clássicos ainda pode render algo relevante, especialmente quando se entende que fantasia e política nunca estiveram em lados opostos. Para fãs de musicais, cinema político e histórias de amor entre excluídos, O Beijo da Mulher-Aranha é um convite imperfeito, mas necessário, a continuar acreditando — no amor, na arte e na liberdade.

Critica - O Beijo da Mulher-Aranha
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Nota Cinesia 3 de 5
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