Marty Supreme | Timothée Chalamet no limite do sonho americano em um frenesi assinado por Josh Safdie

Danilo de Oliveira
8 Min de Leitura
A24/Reprodução
4.5 Excelente
Critica - Marty Supreme

Poucos cineastas contemporâneos moldaram uma identidade tão imediatamente reconhecível quanto os irmãos Safdie. Desde Traga-me Alecrim até os socos no estômago de Bom Comportamento e Joias Brutas, Josh e Benny construíram um cinema de urgência, caos e corpos em permanente estado de colisão com o mundo. Agora, separados criativamente, cada um segue sua própria trilha. Enquanto Benny aposta na introspecção brutal de Coração de Lutador: The Smashing Machine, Josh Safdie dobra a aposta no excesso e no frenesi com Marty Supreme, talvez o filme mais ambicioso de sua carreira solo.

Do outro lado dessa equação está Timothée Chalamet, um dos astros mais magnéticos da geração. Após performances marcantes em Me Chame pelo Seu Nome, Querido Menino, Duna e Um Completo Desconhecido, o ator parece cada vez mais consciente de sua trajetória rumo ao Oscar. Marty Supreme não é apenas mais um papel desafiador: é uma vitrine construída sob medida para testar seus limites físicos, emocionais e performáticos — e, ao mesmo tempo, um claro movimento estratégico em sua busca pela consagração definitiva da Academia.

Ambientado na Nova York dos anos 1950, Marty Supreme acompanha Marty Mauser (Timothée Chalamet), um jovem vendedor de sapatos do Lower East Side que vive uma vida dupla. Durante o dia, tenta sobreviver em meio à precariedade e aos pequenos golpes urbanos; à noite, se entrega obsessivamente ao tênis de mesa competitivo, esporte desprezado pelas elites, mas que para ele representa tudo: identidade, ascensão social e imortalidade simbólica.

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Inspirado livremente na trajetória real de Marty Reisman, o filme acompanha a escalada de Mauser no circuito profissional, suas alianças perigosas, romances atravessados por interesses e um desejo quase messiânico de ser reconhecido como o maior jogador do mundo. Em um universo de apostas, vaidades e promessas falsas, Marty corre sem parar — não apenas atrás da vitória, mas de uma validação que parece sempre escapar por entre seus dedos.

Josh Safdie deixa claro desde os primeiros minutos que Marty Supreme não pretende oferecer conforto. A câmera nunca repousa, o texto é uma avalanche verbal e o ritmo beira o exaustivo — tudo calculado para colocar o espectador dentro da mente de um protagonista que vive em estado de combustão permanente. Se Joias Brutas já era um ataque de ansiedade filmado, aqui o diretor entrega algo como sua versão hipertrofiada: um filme que parece sempre prestes a sair do controle, mas que surpreendentemente se mantém coeso.

Grande parte desse equilíbrio se deve ao trabalho minucioso do roteiro, assinado por Safdie em parceria com Ronald Bronstein. Marty não é herói, nem anti-herói romantizado. É um sujeito profundamente falho, movido por um senso de superioridade que beira o delírio e por um individualismo que atropela tudo ao redor. Sua ambição não tem freio moral — e o filme se recusa a julgá-lo de forma simples. Ao invés disso, constrói uma figura tão carismática quanto detestável, alguém que seduz e repele com a mesma intensidade.

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Timothée Chalamet entrega aqui a atuação mais completa e arriscada de sua carreira. Durante quase duas horas e meia, ele fala sem parar, se move como se estivesse sempre atrasado para algo e ocupa cada centímetro do quadro com uma energia quase insustentável. Sua performance captura com precisão a contradição central de Marty: um jovem talentoso e apaixonado que, ao tentar se provar para o mundo inteiro, perde qualquer capacidade de empatia. É um trabalho físico, verbal e emocionalmente extenuante — daqueles que a Academia costuma premiar.

O elenco de apoio funciona como extensão das tensões internas do protagonista. Gwyneth Paltrow, em retorno discreto e calculado, interpreta Kay Stone, uma ex-atriz frustrada que vê em Marty tanto uma fuga quanto um troféu. Sua atuação é contida, quase apagada, mas isso dialoga bem com a apatia emocional da personagem, presa a um casamento sem afeto e a uma vida de privilégios vazios. Já Odessa A’zion traz humanidade e vulnerabilidade à antiga paixão de infância, funcionando como lembrança constante de um passado que Marty insiste em abandonar.

Kevin O’Leary, como o magnata Milton Rockwell, surge como a personificação fria do sistema: dinheiro, poder e controle absoluto das regras do jogo. É nele que o filme explicita uma de suas principais analogias — o sonho americano como construção cruel, onde talento e esforço raramente bastam. Fran Drescher, em participação breve, ancora o filme em uma realidade emocional mais palpável, lembrando Marty de uma identidade coletiva que ele tenta, desesperadamente, negar.

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Tecnicamente, Marty Supreme é impecável. A decisão de rodar em 35mm imprime uma textura granulada que dissolve a noção exata de tempo, criando uma nostalgia difusa. A fotografia de Darius Khondji transforma ruas, porões e ginásios em espaços quase míticos, enquanto a trilha sonora anacrônica de Daniel Lopatin mistura sintetizadores e ecos retrofuturistas que deslocam o filme da simples reconstituição histórica para algo mais simbólico e sensorial.

Nem tudo funciona perfeitamente. O excesso de duração e o ritmo incessante podem afastar parte do público, e há momentos em que o filme parece deliberadamente indulgente com seu próprio caos. Além disso, a abordagem do triunfalismo americano, embora rica em subtexto, pode soar hermética para quem não embarca no jogo proposto por Safdie.

Marty Supreme é cinema em estado bruto: barulhento, obsessivo, cansativo — e fascinante. Josh Safdie transforma o tênis de mesa em metáfora da diáspora, do individualismo e da ilusão meritocrática, enquanto Timothée Chalamet entrega uma performance que redefine sua carreira e o coloca, com força real, na corrida pelo Oscar.

Não é um filme fácil, nem feito para agradar a todos. Mas é exatamente nessa recusa ao conforto que reside sua grandeza. Marty Supreme não fala sobre vencer; fala sobre o movimento incessante de tentar — mesmo quando a vitória nunca é definitiva. A bola segue quicando de um lado a outro da mesa, e o jogo, como a vida, simplesmente não para.

Critica - Marty Supreme
Excelente 4.5
Nota Cinesia 4.5 de 5
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