Jurassic World: Recomeço é mais um capítulo nostálgico do que um novo amanhecer

Danilo de Oliveira
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Crítica - Jurassic World: Recomeço

Desde que Jurassic Park revolucionou o cinema em 1993 sob a batuta de Steven Spielberg, dinossauros e ficção científica se tornaram uma combinação mágica — uma franquia que uniu nostalgia, ação e tecnologia de ponta. Com suas continuações e o reboot da saga por meio de Jurassic World, o universo jurássico expandiu-se, mas também se desgastou. Depois do confuso e superlotado Domínio (2022), o novo capítulo, Jurassic World: Recomeço (2025), promete — e em parte cumpre — uma tentativa de revigorar essa mitologia que continua a fascinar gerações.

Ao contrário do que o título sugere, Recomeço não é exatamente uma ruptura narrativa. Situado cronologicamente após os eventos de Jurassic World: Domínio, o filme retrata um mundo em que os dinossauros, soltos na natureza, falharam em se adaptar e agora vivem isolados em regiões tropicais. A humanidade, claro, não deixaria isso barato: uma empresa farmacêutica bilionária, liderada pelo inescrupuloso Martin Krebs (Rupert Friend), reúne uma equipe para extrair amostras de DNA de dinossauros raros, na esperança de desenvolver um medicamento revolucionário.

Universal Pictures/Reprodução

Essa equipe inclui a durona Zora Bennett (Scarlett Johansson), o carismático paleontólogo Dr. Henry Loomis (Jonathan Bailey), e o rastreador experiente Duncan Kincaid (Mahershala Ali). No meio do caminho, cruzam com a família Delgado, sobreviventes de um naufrágio e, claro, com dinossauros cada vez mais perigosos — e talvez não tão dispostos a serem explorados novamente.

O longa, dirigido por Gareth Edwards (Godzilla, Rogue One), adota uma abordagem visual elegante e nostálgica. Com forte inspiração nos filmes de aventura dos anos 90, Recomeço é, antes de tudo, uma carta de amor ao legado de Spielberg. Edwards aposta em um ritmo mais atmosférico, com foco em suspense e cenas de sobrevivência em meio à natureza selvagem — o que funciona em parte, mas também denuncia suas limitações.

A direção de Edwards brilha em momentos de tensão visual, como nas cenas na floresta tropical, onde a sensação de ameaça constante é palpável, e o uso de sombras e movimento sutil nos cenários revela dinossauros escondidos à espreita. No entanto, o diretor peca ao repetir velhas fórmulas narrativas e ao minimizar o impacto dos dinossauros — uma escolha que lembra os deslizes de seu Godzilla (2014), onde as criaturas ficavam muito tempo fora de cena.

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O elenco é um dos maiores trunfos do filme. Scarlett Johansson entrega uma performance segura como Zora, equilibrando ação física com momentos mais dramáticos, ainda que seu arco pareça raso demais para alguém com seu calibre. Jonathan Bailey traz leveza e humor na medida certa como o paleontólogo Henry, e é talvez o personagem mais cativante da narrativa. Já Mahershala Ali não recebe o destaque que merece, apagado em meio a subtramas e personagens demais.

O núcleo secundário da família Delgado funciona melhor do que o esperado. Embora clichê em sua composição, o carisma de Manuel Garcia-Rulfo, Luna Blaise e Audrina Miranda sustenta algumas das sequências mais tensas do filme. Já o personagem Xavier (David Iacono), designado ao papel de alívio cômico, não consegue brilhar e se torna esquecível.

Rupert Friend, como o vilão Krebs, desperdiça seu talento com um personagem mal construído, que começa promissor mas é jogado para escanteio no segundo ato.

Universal Pictures/Reprodução

Visualmente, Recomeço entrega o proposto da franquia. Os efeitos especiais mantêm o padrão da franquia e os dinossauros continuam majestosos — em especial o Mosassauro e o imponente Tiranossauro, cuja presença em cena ainda provoca arrepios, ainda que seu momento exista algumas oscilações e percepção da tela verde aqui e ali. O design de produção também merece destaque, principalmente nos cenários naturais e nos interiores tecnológicos da base da missão.

A trilha sonora resgata temas clássicos com boas variações, reforçando o fator nostalgia. No entanto, a insistência em reproduzir cenas “espelhadas” dos filmes anteriores — como o T-Rex perseguindo um barco ou o Mutadon invadindo um posto de gasolina — se torna uma muleta criativa. Em vez de homenagear, o filme por vezes parece refém de suas próprias memórias.

O roteiro de David Koepp, veterano da franquia, é eficiente ao amarrar os fios da aventura, mas carece de ousadia. O potencial de explorar mais a ciência e as implicações filosóficas da manipulação genética é deixado de lado em prol de ação segura e previsível. O discurso ambiental e os alertas sobre exploração corporativa aparecem, mas não são aprofundados. Ideias promissoras como o Mutadon e o D-Rex, que poderiam representar o ápice da manipulação genética, são usados como referências visuais e esquecidos logo em seguida.

O filme sofre também da “síndrome do trailer”: muitas de suas melhores cenas já foram mostradas em materiais promocionais, tirando o impacto de sequências que deveriam ser épicas, como o ataque no barco — aguardado há anos pelos fãs — e as perseguições na selva.

Universal Pictures/Reprodução

Mesmo assim, Recomeço tem seus momentos. Há sequências que evocam genuíno encantamento, especialmente quando os dinossauros são apresentados com a devida reverência. Em certo ponto, o Dr. Loomis comenta que “a ciência pode salvar o mundo, se tivermos a humildade de entender a natureza” — uma frase que sintetiza o espírito do primeiro filme, mas que aqui soa quase como uma lembrança distante.

Jurassic World: Recomeço é uma aventura sólida e divertida, que entende o espírito da franquia, mas também evidencia que o terreno jurássico está ficando infértil para ideias realmente novas. O longa funciona melhor como uma homenagem do que como um verdadeiro “recomeço”, e talvez por isso, o título soe mais como ironia do que promessa.

Para os fãs de longa data, há valor emocional e diversão garantida. Mas para quem esperava uma revolução criativa ou uma guinada ousada, Recomeço é mais um capítulo nostálgico do que um novo amanhecer.

Crítica - Jurassic World: Recomeço
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Nota Cinesia 3 de 5
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