Juntos | Terror discute relacionamentos, mesclando análise com gore e horror corporal

Danilo de Oliveira
5 Min de Leitura
4 Ótimo
Crítica - Juntos

Nos últimos dez anos, o terror cinematográfico tem se mostrado um laboratório de experimentos temáticos e estéticos, explorando desde narrativas sociais inquietantes, como as de Jordan Peele, até mergulhos mais íntimos e viscerais no horror corporal, o famoso body horror. Esse subgênero, consolidado por David Cronenberg, nunca deixou de provocar desconforto – justamente porque lida com a invasão do nosso próprio espaço físico, a distorção da carne e a perda da identidade. Filmes como A Substância reacenderam esse interesse recentemente, e agora Juntos, estreia em longa-metragem do neozelandês Michael Shanks, chega com a ousadia de mesclar essa vertente com comédia e romance. Um risco que, felizmente, se transforma em experiência memorável, mesmo que imperfeita.

A história acompanha Millie (Alison Brie) e Tim (Dave Franco), um casal que decide começar uma nova vida em uma pequena cidade do interior depois que ela consegue um emprego como professora. Tim, por sua vez, abre mão de mais uma de suas já tantas ambições não concretizadas, numa relação onde concessões silenciosas parecem ser a cola — ou, como descobrimos depois, a fusão — que os mantém unidos. A rotina pacata é interrompida quando, durante um passeio por uma trilha, eles caem em um buraco misterioso repleto de objetos religiosos e bancos antigos. Passam a noite ali, mas, ao saírem, percebem que algo inexplicável aconteceu: seus corpos agora estão fisicamente unidos, membros fundindo-se como se a própria carne conspirasse para que jamais se separassem.

Diamond Films/Reprodução

Shanks conduz a narrativa com clara reverência aos mestres do gênero. Há ecos de Cronenberg nos planos-detalhe das transformações corporais, e um uso pontual da câmera que remete a James Wan, especialmente na construção de tensão por meio de longos planos-sequência. A fusão física do casal é mais que um recurso grotesco: funciona como metáfora para relações codependentes, onde a individualidade se dissolve pelo medo da perda. Tim é o retrato do parceiro que se anula para manter a relação, preso a uma eterna adolescência; Millie, embora mais madura e assertiva, não escapa da armadilha emocional de tentar sustentar o vínculo a qualquer custo. O filme não pinta vilões nem mártires, mas duas pessoas presas em um ciclo que as define e aprisiona.

Diamond Films/Reprodução

Os pontos altos estão na química entre Brie e Franco, que já são casal na vida real e aproveitam essa intimidade para entregar interações carregadas de nuances — entre o afeto genuíno e a frustração latente. O roteiro, mesmo com momentos previsíveis, extrai humor orgânico do absurdo da situação, seja nas reações infantis de Tim ou nas tentativas práticas de Millie em lidar com o impossível. O figurino e a caracterização reforçam a disparidade entre eles: roupas formais e bem cuidadas para ela, visual desleixado para ele, como se os próprios trajes contassem a história de dois mundos colidindo.

No entanto, Juntos tropeça no desfecho. Após um segundo ato que equilibra tensão, drama e comédia de forma admirável, o final opta por um tom anticlimático que pode frustrar parte do público. Shanks amarra pontas e oferece explicações, mas o faz de modo menos impactante do que o acúmulo de tensão prometia. É como se a jornada tivesse sido mais vibrante do que o ponto de chegada.

Diamond Films/Reprodução

Ainda assim, a obra consegue transformar tropos familiares do terror em algo fresco, ao conectar sua bizarrice a reflexões sobre amor, sacrifício e identidade. A leitura livre de Platão sobre almas gêmeas e os ecos de mitologia grega que justificam a união física adicionam camadas à trama, evitando que ela seja apenas uma anedota grotesca.

No fim, Juntos é uma experiência singular no cenário recente do terror: um body horror com coração e senso de humor, que nos lembra que, às vezes, a verdadeira perturbação não está no que vemos na carne, mas no que aceitamos sacrificar para permanecer ao lado de alguém — mesmo que isso signifique nunca mais poder se separar.

Crítica - Juntos
Ótimo 4
Nota Cinesia 4 de 5
Share This Article