Isso Ainda Está de Pé? confirma a maturidade de Bradley Cooper em seu filme mais íntimo e honesto

Danilo de Oliveira
6 Min de Leitura
20th Century Studios/Reprodução
3.5 Muito Bom
Critica - Isso Ainda Está de Pé?

Ao assumir a direção em Nasce Uma Estrela, Bradley Cooper deixou claro que suas ambições iam além da atuação. O sucesso crítico e comercial do longa abriu caminho para o ainda mais ousado Maestro, obra tecnicamente exuberante e carregada de autoafirmação artística. Em ambos, Cooper parecia determinado a provar sua grandeza como cineasta — e, embora talentoso, muitas vezes deixava transparecer certa vaidade formal.

Com Isso Ainda Está de Pé?, seu terceiro trabalho na direção, algo muda. O que vemos aqui não é um cineasta tentando impressionar, mas um artista disposto a observar. E essa mudança de postura transforma completamente o resultado.

Após 20 anos de casamento, Alex Novak (Will Arnett) e Tess Novak (Laura Dern) chegam a um ponto delicado: não há traição, não há escândalo, não há ruptura explosiva. Há apenas uma dúvida silenciosa — o amor ainda está ali?

20th Century Studios/Reprodução

O casal decide se separar temporariamente para entender se o que os une ainda faz sentido ou se restou apenas o hábito. Enquanto Tess tenta reencontrar sua antiga paixão pelo esporte, Alex descobre no stand-up comedy uma forma de reorganizar suas frustrações, inseguranças e desejos.

A pergunta que dá título ao filme ecoa como provocação universal: isso ainda está de pé? O casamento? A promessa? A chama? Ou tudo virou apenas memória confortável?

Se nos filmes anteriores Cooper parecia determinado a ocupar o centro da narrativa — tanto como diretor quanto como protagonista — aqui ele dá um passo atrás. E essa decisão muda tudo.

20th Century Studios/Reprodução

Ao entregar o papel principal para Will Arnett, conhecido por seu timing cômico em séries como Arrested Development e 30 Rock, Cooper aposta na vulnerabilidade. Arnett surpreende ao dosar humor e melancolia com naturalidade. Seu Alex não é herói nem vilão: é apenas um homem confuso tentando entender se está infeliz ou apenas entediado com a própria rotina.

Laura Dern, por sua vez, imprime carisma e firmeza a Tess. Sua atuação evita o arquétipo da “esposa ressentida” e constrói uma mulher igualmente perdida, mas mais consciente de suas lacunas emocionais. A química entre os dois sustenta o filme mesmo nos momentos em que o roteiro ameaça repetir situações.

Na direção, Cooper adota uma abordagem mais contida. A câmera na mão acompanha os personagens de perto, os planos são fechados e as cenas se prolongam além do conforto convencional, criando uma sensação quase documental de intimidade. O espectador não observa de longe — ele participa do desconforto.

Cooper demonstra maturidade ao deixar as cenas respirarem. Diferente da grandiloquência quase operística de Maestro, aqui ele pratica o famoso “arroz com feijão” — e faz muito bem feito. A decupagem privilegia o silêncio, os olhares, o desconforto.

20th Century Studios/Reprodução

Ainda assim, o filme não é isento de tropeços. Há momentos em que a narrativa parece girar em círculos, repetindo conflitos já estabelecidos. Em determinadas cenas — especialmente nas participações do próprio Cooper — a linguagem visual recua para um esquema mais convencional de plano e contraplano, quebrando um pouco da unidade intimista construída com tanto cuidado. São instabilidades pontuais, mas perceptíveis.

O uso do stand-up comedy é um dos elementos mais interessantes da narrativa. Não se trata de uma jornada rumo ao estrelato, mas de um recurso simbólico. O palco vira espaço de reorganização interna. Cada piada é um mecanismo de defesa; cada gargalhada da plateia, uma validação momentânea.

Assim, o filme constrói uma analogia poderosa: relacionamentos longos não desmoronam necessariamente por grandes tragédias, mas por desgaste silencioso. A erosão cotidiana substitui o colapso dramático. O amor não acaba de uma vez — ele vai se tornando pergunta.

E talvez seja essa a maior força do longa. A identificação é quase inevitável. Quem nunca se perguntou se aquilo que começou com intensidade ainda mantém sua estrutura emocional intacta?

Pra finalizar, Isso Ainda Está de Pé? pode não ser o projeto mais vistoso de Bradley Cooper, mas é, sem dúvida, o mais maduro. Ao abrir mão da grandiosidade estética e confiar na força das atuações e dos diálogos, o diretor entrega um drama sensível sobre desgaste, redescoberta e vulnerabilidade masculina.

Não é um filme revolucionário, nem pretende ser. Seu impacto reside justamente na honestidade com que aborda uma crise conjugal sem vilões claros ou soluções fáceis. Ao final, o que permanece não é uma resposta definitiva, mas a coragem de fazer a pergunta.

E, às vezes, isso já é o bastante.

Critica - Isso Ainda Está de Pé?
Muito Bom 3.5
Nota Cinesia 3.5 de 5
Share This Article