Hamnet: A Vida Antes de Hamlet | Chloé Zhao transforma luto em arte num dos filmes mais devastadores do ano

Danilo de Oliveira
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Universal Pictures/Reprodução
5 Perfeito
Critica - Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

Poucos cineastas contemporâneos têm uma trajetória tão curiosa quanto a de Chloé Zhao. Em 2021, ela entrou para a história ao se tornar apenas a segunda mulher a vencer o Oscar de Melhor Direção, graças ao delicado, humano e profundamente sensível Nomadland. Logo depois, sua carreira deu uma guinada inesperada rumo ao MCU com Os Eternos, um filme que definitivamente não é o melhor da Marvel, mas que também jamais mereceu o ódio desproporcional que recebeu. Ali, Zhao tentou impor um olhar autoral, contemplativo e quase espiritual dentro da engrenagem industrial dos super-heróis — um choque de linguagens que o público não estava pronto para aceitar.

Agora, longe das pressões de franquias bilionárias, Zhao retorna ao território onde sua sensibilidade floresce com mais força. Hamnet: A Vida Antes de Hamlet não apenas reafirma seu talento, como se coloca facilmente entre os filmes mais emocionantes, dolorosos e belos dos últimos anos. Uma obra que parece existir para lembrar por que o cinema — e a arte como um todo — ainda importa.

A recomendação ideal é entrar em Hamnet sabendo o mínimo possível. Ainda assim, é impossível não contextualizar. A história acompanha o romance entre Agnes (Jessie Buckley) e Will (Paul Mescal), dois jovens improváveis destinados a se encontrar. Ela carrega a fama de “bruxa da floresta”, uma mulher profundamente conectada à natureza, às plantas e a visões quase proféticas. Ele é um tutor de grego desprezado pelo pai, considerado inútil — alguém que, ironicamente, o mundo conheceria mais tarde como William Shakespeare.

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Contra as expectativas sociais, eles se casam e constroem uma família marcada por afeto genuíno: a filha mais velha Susanna e os gêmeos inseparáveis Hamnet e Judith, que se veem como duas metades da mesma existência. Quando uma doença atinge a casa e provoca uma perda irreparável, o luto passa a moldar cada gesto, cada silêncio — e, eventualmente, se transforma na semente de uma das maiores tragédias já escritas: Hamlet.

Mas Hamnet não está interessado em ser uma cinebiografia tradicional. O nome completo de Shakespeare só surge muito tarde no filme, quase como um detalhe. O foco aqui é outro: imaginar o impacto íntimo, humano e emocional de uma tragédia familiar que atravessou séculos por meio da arte.

Existe uma piada recorrente no MCU sobre Loki caindo por 30 minutos. Em Hamnet, substitua “cair” por “chorar” e adicione mais uns bons minutos. É uma experiência devastadora. Não pelo melodrama fácil, mas pela forma como Zhao constrói a dor com tempo, silêncio e observação.

A diretora retoma o naturalismo de Nomadland, mas aqui o reveste de uma força quase mística. Através de Agnes, o filme flerta com o sobrenatural: suas visões não são poderes no sentido clássico, mas intuições simbólicas, sensações que brotam da ligação profunda com a terra. Logo na primeira aparição, Jessie Buckley surge envolta em um vestido vermelho — cor que a acompanha ao longo do filme — contrastando com os tons frios e apagados da vila. É um trabalho visual impressionante, fruto da colaboração de Zhao com o diretor de fotografia Lukasz Zal e a figurinista Malgosia Turzanska.

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Ainda assim, Hamnet não é uma história sobre magia. É sobre pertencimento. Agnes e Will pertencem um ao outro. Os gêmeos pertencem um ao outro. E, quando a tragédia acontece, o pertencimento se rompe — deixando um vazio impossível de preencher. O roteiro, escrito por Zhao em parceria com Maggie O’Farrell, se interessa justamente pelo “depois”: o que acontece quando a vida segue, mas nada mais faz sentido?

Will se recusa a aceitar que o filho simplesmente “desapareceu”. Ele precisa existir em algum lugar. É nesse espaço — nem totalmente real, nem completamente imaginário — que a arte surge como refúgio. O teatro se torna o local onde pai e filho trocam de lugar, onde a ausência se transforma em presença, e onde o luto encontra uma forma de continuar respirando.

É impossível falar de Hamnet sem destacar Jessie Buckley, que entrega uma das atuações mais arrebatadoras do cinema recente. Agnes poderia facilmente ser reduzida à figura da esposa sofredora, mas Buckley a transforma em um epicentro emocional. Com poucos diálogos e olhares carregados de significado, ela comunica dor, raiva, amor, confusão e uma espiritualidade quase indizível. A sequência final no teatro — em que sua expressão transita por fúria, negação e assombro — já merece lugar na história do cinema. Será um erro histórico se essa atuação não for amplamente reconhecida na temporada de prêmios.

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Paul Mescal, por sua vez, confirma por que se tornou sinônimo de personagens que quebram o público emocionalmente. Seu Will é frágil, perdido e profundamente humano. Da paixão juvenil ao pai consumido pelo luto que se joga no trabalho como mecanismo de sobrevivência, Mescal constrói um arco com sutileza e intensidade. A química com Buckley é tão forte que parece escrita em verso — o que, convenhamos, faz todo o sentido.

O elenco infantil também é extraordinário, especialmente Jacobi Jupe, que dá vida a Hamnet com uma doçura dilacerante. Curiosamente, seu irmão na vida real, Noah Jupe, interpreta Hamlet no teatro — uma escolha que adiciona uma camada emocional silenciosa, mas poderosa. Destaque ainda para Emily Watson, que vive a mãe de Will, em uma relação marcada por tensão e repressão emocional.

Chloé Zhao toma uma decisão ousada: desacelerar. Em um cinema cada vez mais refém do consumo rápido, Hamnet exige entrega. O ritmo é lento, contemplativo, quase ritualístico. Cada dor é mastigada, cada silêncio é respeitado. O clímax, ao adaptar praticamente a montagem de Hamlet no teatro, transforma o espectador em parte da plateia do século XVI. É angustiante, belo, libertador — e profundamente catártico.

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As analogias são ricas: a troca constante entre os gêmeos, o mito de Orfeu e Eurídice, citado logo no início, e a própria ideia de memória como herança. “Lembra-te de mim” ecoa não apenas na peça, mas em todo o filme. Hamnet fala sobre como a arte é uma tentativa desesperada — e necessária — de não deixar que quem amamos desapareça por completo.

Falar sobre arte é sempre tocar no indizível. Hamnet: A Vida Antes de Hamlet entende isso profundamente. Mais do que explicar a origem de uma obra-prima, o filme fala sobre por que criamos. Sobre como a arte nos conecta, nos cura e nos permite sobreviver à finitude.

Este é, sem dúvida, o filme mais apaixonado e trágico de Chloé Zhao. Um retorno triunfal ao cinema autoral, sensorial e humano que a consagrou. Em tempos de pressa, Hamnet exige presença. É um filme feito para ser visto no cinema, vivido no escuro da sala e carregado para além dos créditos finais.

Você pode até sair da sessão em silêncio, emocionalmente exausto. Mas uma coisa é certa: Hamnet ficará com você por muito, muito tempo.

Critica - Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Perfeito 5
Nota Cinesia 5 de 5
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