Poucos cineastas contemporâneos têm uma trajetória tão curiosa quanto a de Chloé Zhao. Em 2021, ela entrou para a história ao se tornar apenas a segunda mulher a vencer o Oscar de Melhor Direção, graças ao delicado, humano e profundamente sensível Nomadland. Logo depois, sua carreira deu uma guinada inesperada rumo ao MCU com Os Eternos, um filme que definitivamente não é o melhor da Marvel, mas que também jamais mereceu o ódio desproporcional que recebeu. Ali, Zhao tentou impor um olhar autoral, contemplativo e quase espiritual dentro da engrenagem industrial dos super-heróis — um choque de linguagens que o público não estava pronto para aceitar.
Agora, longe das pressões de franquias bilionárias, Zhao retorna ao território onde sua sensibilidade floresce com mais força. Hamnet: A Vida Antes de Hamlet não apenas reafirma seu talento, como se coloca facilmente entre os filmes mais emocionantes, dolorosos e belos dos últimos anos. Uma obra que parece existir para lembrar por que o cinema — e a arte como um todo — ainda importa.
A recomendação ideal é entrar em Hamnet sabendo o mínimo possível. Ainda assim, é impossível não contextualizar. A história acompanha o romance entre Agnes (Jessie Buckley) e Will (Paul Mescal), dois jovens improváveis destinados a se encontrar. Ela carrega a fama de “bruxa da floresta”, uma mulher profundamente conectada à natureza, às plantas e a visões quase proféticas. Ele é um tutor de grego desprezado pelo pai, considerado inútil — alguém que, ironicamente, o mundo conheceria mais tarde como William Shakespeare.

Contra as expectativas sociais, eles se casam e constroem uma família marcada por afeto genuíno: a filha mais velha Susanna e os gêmeos inseparáveis Hamnet e Judith, que se veem como duas metades da mesma existência. Quando uma doença atinge a casa e provoca uma perda irreparável, o luto passa a moldar cada gesto, cada silêncio — e, eventualmente, se transforma na semente de uma das maiores tragédias já escritas: Hamlet.
Mas Hamnet não está interessado em ser uma cinebiografia tradicional. O nome completo de Shakespeare só surge muito tarde no filme, quase como um detalhe. O foco aqui é outro: imaginar o impacto íntimo, humano e emocional de uma tragédia familiar que atravessou séculos por meio da arte.
Existe uma piada recorrente no MCU sobre Loki caindo por 30 minutos. Em Hamnet, substitua “cair” por “chorar” e adicione mais uns bons minutos. É uma experiência devastadora. Não pelo melodrama fácil, mas pela forma como Zhao constrói a dor com tempo, silêncio e observação.
A diretora retoma o naturalismo de Nomadland, mas aqui o reveste de uma força quase mística. Através de Agnes, o filme flerta com o sobrenatural: suas visões não são poderes no sentido clássico, mas intuições simbólicas, sensações que brotam da ligação profunda com a terra. Logo na primeira aparição, Jessie Buckley surge envolta em um vestido vermelho — cor que a acompanha ao longo do filme — contrastando com os tons frios e apagados da vila. É um trabalho visual impressionante, fruto da colaboração de Zhao com o diretor de fotografia Lukasz Zal e a figurinista Malgosia Turzanska.

Ainda assim, Hamnet não é uma história sobre magia. É sobre pertencimento. Agnes e Will pertencem um ao outro. Os gêmeos pertencem um ao outro. E, quando a tragédia acontece, o pertencimento se rompe — deixando um vazio impossível de preencher. O roteiro, escrito por Zhao em parceria com Maggie O’Farrell, se interessa justamente pelo “depois”: o que acontece quando a vida segue, mas nada mais faz sentido?
Will se recusa a aceitar que o filho simplesmente “desapareceu”. Ele precisa existir em algum lugar. É nesse espaço — nem totalmente real, nem completamente imaginário — que a arte surge como refúgio. O teatro se torna o local onde pai e filho trocam de lugar, onde a ausência se transforma em presença, e onde o luto encontra uma forma de continuar respirando.
É impossível falar de Hamnet sem destacar Jessie Buckley, que entrega uma das atuações mais arrebatadoras do cinema recente. Agnes poderia facilmente ser reduzida à figura da esposa sofredora, mas Buckley a transforma em um epicentro emocional. Com poucos diálogos e olhares carregados de significado, ela comunica dor, raiva, amor, confusão e uma espiritualidade quase indizível. A sequência final no teatro — em que sua expressão transita por fúria, negação e assombro — já merece lugar na história do cinema. Será um erro histórico se essa atuação não for amplamente reconhecida na temporada de prêmios.

Paul Mescal, por sua vez, confirma por que se tornou sinônimo de personagens que quebram o público emocionalmente. Seu Will é frágil, perdido e profundamente humano. Da paixão juvenil ao pai consumido pelo luto que se joga no trabalho como mecanismo de sobrevivência, Mescal constrói um arco com sutileza e intensidade. A química com Buckley é tão forte que parece escrita em verso — o que, convenhamos, faz todo o sentido.
O elenco infantil também é extraordinário, especialmente Jacobi Jupe, que dá vida a Hamnet com uma doçura dilacerante. Curiosamente, seu irmão na vida real, Noah Jupe, interpreta Hamlet no teatro — uma escolha que adiciona uma camada emocional silenciosa, mas poderosa. Destaque ainda para Emily Watson, que vive a mãe de Will, em uma relação marcada por tensão e repressão emocional.
Chloé Zhao toma uma decisão ousada: desacelerar. Em um cinema cada vez mais refém do consumo rápido, Hamnet exige entrega. O ritmo é lento, contemplativo, quase ritualístico. Cada dor é mastigada, cada silêncio é respeitado. O clímax, ao adaptar praticamente a montagem de Hamlet no teatro, transforma o espectador em parte da plateia do século XVI. É angustiante, belo, libertador — e profundamente catártico.

As analogias são ricas: a troca constante entre os gêmeos, o mito de Orfeu e Eurídice, citado logo no início, e a própria ideia de memória como herança. “Lembra-te de mim” ecoa não apenas na peça, mas em todo o filme. Hamnet fala sobre como a arte é uma tentativa desesperada — e necessária — de não deixar que quem amamos desapareça por completo.
Falar sobre arte é sempre tocar no indizível. Hamnet: A Vida Antes de Hamlet entende isso profundamente. Mais do que explicar a origem de uma obra-prima, o filme fala sobre por que criamos. Sobre como a arte nos conecta, nos cura e nos permite sobreviver à finitude.
Este é, sem dúvida, o filme mais apaixonado e trágico de Chloé Zhao. Um retorno triunfal ao cinema autoral, sensorial e humano que a consagrou. Em tempos de pressa, Hamnet exige presença. É um filme feito para ser visto no cinema, vivido no escuro da sala e carregado para além dos créditos finais.
Você pode até sair da sessão em silêncio, emocionalmente exausto. Mas uma coisa é certa: Hamnet ficará com você por muito, muito tempo.


