Entre Nós – Uma Dose Extra de Amor | A comédia romântica que mistura caos, maturidade e humanidade sem cair na “mesmice açucarada” do gênero

Danilo de Oliveira
6 Min de Leitura
4 Ótimo
Critica - Entre Nós – Uma Dose Extra de Amor

Comédias românticas são como aquele combo de fast-food que a gente pede mesmo sabendo exatamente o sabor: um pouco de humor, uma dose de drama, química previsível entre os protagonistas e um desfecho fofinho que fecha tudo com laço vermelho. É uma fórmula de bolo tão repetida que, quando aparece um filme disposto a sair desse molde, a gente até estranha — e agradece. Entre Nós – Uma Dose Extra de Amor é justamente esse tipo raro de exceção: pega uma premissa que poderia facilmente virar uma piada de bar e transforma em algo surpreendentemente humano, maduro e emocionalmente honesto.

Connor, Olivia e Jenny se envolvem num ménage à trois que começa como uma decisão impulsiva nascida de ciúmes, desejo e aquela falsa sensação de controle emocional que todo jovem acha que tem. A noite é divertida, libertadora… até que a realidade bate forte: Olivia e Jenny descobrem que estão grávidas.

Paris Filmes/Reprodução

A partir daí, o trio precisa lidar com responsabilidades que nenhum deles estava preparado para assumir. Connor tenta fazer “a coisa certa”, mesmo sem saber qual é essa coisa. Olivia, sempre intensa, se debate entre impulsividade e vulnerabilidade. Jenny, mais reservada, tenta equilibrar sua fé, a pressão religiosa da família e o turbilhão emocional que a situação provoca. No meio do caos, os três tentam não só entender o que sentem, mas também o que desejam — e até onde estão dispostos a ir para construir algo juntos.

O que mais impressiona em Entre Nós – Uma Dose Extra de Amor é sua recusa em cair nos clichês fáceis. Com uma premissa que grita por piada escrachada e situação absurda, o filme poderia ser apenas mais uma comédia exagerada, mas escolhe o caminho oposto: trata seus personagens com respeito, complexidade e humanidade. É leve, divertido, mas também cheio de camadas que muitas rom-coms nem tentam explorar.

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Jonah Hauer-King acerta em cheio ao interpretar Connor como um jovem perdido, doce e inseguro — nunca um herói perfeito. Seu charme está justamente em sua fragilidade, algo raro em protagonistas masculinos do gênero. Zoey Deutch, por sua vez, é o coração pulsante da trama. Olivia é um furacão emocional: impulsiva, contraditória, caótica e extremamente humana. Deutch entrega uma performance que equilibra humor e dor com naturalidade impressionante, evitando que a personagem caia no estereótipo da “garota-problema irritante”. Ela é imperfeita, e é isso que a torna tão real. Ruby Cruz completa o trio com uma atuação sensível e intimista. Jenny é calma sem ser apagada, religiosa sem ser caricata, vulnerável sem ser fraca. Sua tentativa de encaixar Connor em uma narrativa aceitável para a família é tão compreensível quanto dolorosa. Cruz transforma uma personagem que seria facilmente a “terceira ponta descartável” em alguém profundamente interessante.

Chad Hartigan conduz o filme navegando entre comédia, drama e momentos quase de sitcom. Essa mistura de tons às vezes gera uma certa irregularidade — tem cena que parece saída de um romance indie e outra que tem cara de episódio especial de Natal. Mas, curiosamente, essa oscilação combina com a narrativa. O trio protagonista vive exatamente nessa instabilidade: rindo num minuto, chorando no outro, sem saber como lidar com as próprias escolhas.

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A cinematografia de Sing Howe Yam, suave e terrosa, dá unidade visual ao filme, trazendo uma sensação calorosa que contrasta com a bagunça emocional dos personagens.

Um dos maiores acertos do roteiro é evitar qualquer tom moralizante. A sexualidade dos personagens não é usada como piada nem como castigo. As consequências existem, sim — e são tratadas com seriedade —, mas sem jamais demonizar a impulsividade que deu início a tudo. O filme trata seus personagens como pessoas reais, não como estereótipos de comédia romântica.

A narrativa também conversa com temas como amadurecimento forçado, responsabilidade emocional e a ilusão moderna de que “a gente está no controle”. Aqui, ninguém está. E é isso que torna cada queda, cada deslize e cada tentativa de consertar o que deu errado tão envolventes.

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Entre Nós – Uma Dose Extra de Amor é uma das surpresas românticas de 2025. Não tem vilões, não tem disputa boba por amor, não tem moral da história pregada com neon piscando. Tem três pessoas tentando sobreviver ao que sentiram, ao que fizeram e ao que não sabiam que queriam.

É um filme que diverte sem ser raso, emociona sem ser melodramático e trata o caos emocional com a maturidade que muita gente adulta ainda não tem. Uma rom-com que entende que o amor é confuso, engraçado, cheio de tropeços — e profundamente generoso.

No fim das contas, é um filme que a gente termina torcendo não por um casal, mas por todos os envolvidos. E isso, no universo das comédias românticas, é quase revolucionário.

Critica - Entre Nós – Uma Dose Extra de Amor
Ótimo 4
Nota Cinesia 4 de 5
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