Drácula – Uma História de Amor Eterno | Luc Besson explora o lado mais romântico do personagem em sua adaptação

Danilo de Oliveira
6 Min de Leitura
3.5 Muito Bom
Crítica - Drácula - Uma História de Amor Eterno

Desde sua publicação em 1897, Drácula, de Bram Stoker, tem sido uma fonte inesgotável de inspiração para o cinema. De versões expressionistas como Nosferatu (1922), passando pelo erotismo gótico de Drácula de Bram Stoker (1992) de Coppola, até releituras cheias de ação como Drácula: A História Nunca Contada (2014), o conde imortal ganhou inúmeras roupagens, sempre refletindo as angústias e desejos de cada geração.

Em 2025, é Luc Besson quem mergulha nesse imaginário, trazendo à tona Drácula – Uma História de Amor Eterno, um projeto que respira o romantismo trágico com a alma de um conto de fadas sombrio. Conhecido por obras como O Quinto Elemento e Lucy, Besson é um cineasta que flutua entre o kitsch, o fantástico e o existencial. Aqui, ele evoca todas essas camadas para entregar uma releitura que surpreende não pelo sangue derramado, mas pela dor silenciosa do desejo eterno.

Paris Filmes/Reprodução

No filme, Caleb Landry Jones interpreta Vlad, o príncipe romeno amaldiçoado com a imortalidade após renegar a Deus ao perder sua amada Elisabeta (Zoë Bleu). Séculos depois, em uma Europa cambiante, ele ainda persegue sombras do rosto que ama. Em uma França aristocrática e decadente, Vlad cruza com mulheres que evocam sua amada — especialmente Mina Harker, que parece carregar a essência perdida de Elisabeta. Enquanto isso, um padre inquisidor interpretado com ironia refinada por Christoph Waltz observa a movimentação das criaturas da noite, guiado por fé, melancolia e desconfiança.

A busca de Vlad não é mais apenas por sangue, mas por sentido. Besson transforma o vampiro em um símbolo de um amor fora do tempo, onde o que está em jogo não é a vida ou a morte — mas o desejo de continuar desejando.

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A primeira ousadia de Besson é rejeitar o arquétipo do guerreiro sanguinário. Diferente das versões que transformam Vlad em símbolo de poder, este Drácula é um homem quebrado, que despreza a volúpia superficial da aristocracia francesa e carrega o fardo do amor romântico como uma cruz. O retrato é mais melancólico do que monstruoso, e a decisão narrativa de focar na ausência — mais do que na violência — é onde o filme mais brilha.

Caleb Landry Jones entrega uma performance profundamente expressiva, feita de gestos contidos, olhares angustiados e silêncios longos. Seu Drácula parece viver em câmera lenta, desacelerado pelo peso dos séculos. Zoë Bleu, como Elisabeta/Mina, encarna com delicadeza o papel de musa atemporal, transitando entre doçura e potência, numa performance que brilha especialmente nos momentos de ruptura emocional.

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Christoph Waltz, por sua vez, encarna um antagonista à altura — um padre que representa não só a Igreja, mas a racionalidade e a moralidade ocidental. Seu personagem é quase uma entidade: parte inquisidor, parte espectador. Waltz, como sempre, domina a cena com sua cadência única, tornando seu personagem uma mistura de Van Helsing com um Fausto invertido.

Tecnicamente, Drácula – Uma História de Amor Eterno é uma vitrine do estilo visual de Besson. A direção de arte abraça o exagero da estética aristocrática do século XIX, com cenários luxuosos, vestidos exuberantes e uma paleta de cores saturada. A trilha de Danny Elfman complementa com elegância — ora melodramática, ora etérea — e reforça o tom operístico do filme.

Mas nem tudo funciona. Em certos momentos, a mistura de gêneros (romance, comédia de época, fantasia, drama existencial) torna a narrativa instável. Alguns personagens secundários — como as “noivas” vampirescas ou o médico L. Dumont — soam decorativos, apenas ferramentas para movimentar a trama. Além disso, a supressão quase total da clássica conexão telepática entre Drácula e Mina enfraquece um dos elementos mais fascinantes do original: o elo místico e emocional entre predador e presa.

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Ainda assim, as analogias propostas são ricas. A crítica à aristocracia como símbolo de decadência moral; o amor como forma de resistência num mundo cínico; e o vampirismo como metáfora para o trauma do desejo eterno são temas que ganham corpo. Besson dialoga com o Romantismo não como escola artística, mas como postura emocional e existencial — menos sobre o desejo em si, e mais sobre o sofrimento de desejar.

Drácula – Uma História de Amor Eterno não tenta reinventar a roda, mas se destaca por seu olhar afetivo, sensível e até ingênuo sobre um mito já exausto de interpretações. Luc Besson transforma a figura do vampiro em um espelho do Romantismo tardio: solitário, atormentado e ainda assim, incapaz de deixar de amar.

É um filme que se arrisca ao rejeitar o cinismo, abraçando uma crença quase pueril na redenção pelo amor. Pode soar datado para uns, deslocado para outros. Mas, no fim, é exatamente esse deslocamento que o torna especial. Drácula, aqui, é menos um monstro e mais um homem — e isso, paradoxalmente, o torna ainda mais trágico.

Crítica - Drácula - Uma História de Amor Eterno
Muito Bom 3.5
Nota Cinesia 3.5 de 5
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